Descrição de chapéu The New York Times basquete

NBA estabelece vacina obrigatória aos árbitros, mas outros esportes resistem

NFL, MLB e NHL não têm acordos de obrigatoriedade com profissionais da arbitragem

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Sopan Deb
The New York Times

No final do mês passado, a NBA divulgou um comunicado curto à imprensa anunciando um acordo com o sindicato que representa os árbitros da liga para tornar obrigatória a vacinação contra a Covid-19. O acordo estipulava que todos os árbitros precisavam tomar as duas doses de vacina para trabalhar em jogos, o que incluiria “o uso de doses de reforço, caso recomendadas”.

Caso não se vacinassem, o comunicado informava, os árbitros não poderiam trabalhar.

O anúncio veio depois de uma temporada tumultuada na NBA, na qual diversos árbitros tiveram de ficar fora de jogos por terem mantido contato com alguém que apresentou resultados positivos em exames de contágio, o que em determinados momentos forçou a liga a convocar árbitros da G League (liga de desenvolvimento) para cobrir as ausências.

Devin Booker discute com o árbitro Ken Mauer em jogo do Phoenix Suns contra o LA Clippers
Devin Booker discute com o árbitro Ken Mauer em jogo do Phoenix Suns contra o LA Clippers - Kevork Djansezian - 26.jun.2021/AFP

O acordo foi notável porque surgiu em um momento no qual sindicatos de diversas categorias parecem divididos sobre aceitar ou não a obrigatoriedade de vacina para seus filiados.

Algumas dessas associações, como a União de Enfermagem dos Estados Unidos, apoiaram a vacinação obrigatória, por preocupação quanto à saúde de seus integrantes, enquanto outros, principalmente os de policiais, lutaram contra a obrigatoriedade, afirmando que ela restringe a liberdade de seus integrantes para tomar decisões por conta própria.

A questão se tornou muito politizada, como acontece com diversas restrições associadas ao coronavírus. A vacinação obrigatória é comum há muito tempo em escolas e universidades, e é rotineira em viagens a outros países.

A Associação Nacional dos Árbitros de Basquete representa 145 árbitros que atuam em jogos da NBA, WNBA e G League, além de 50 juízes aposentados. O acordo que eles assinaram é uma exceção no mundo do esporte e mesmo dentro de seu próprio esporte: os jogadores da NBA não estão sujeitos à obrigatoriedade da vacinação, o que cria uma situação potencialmente desconfortável, na qual alguns empregados da liga são obrigados a se vacinar e outros não.

Contudo, a liga estabeleceu regras que determinam que os jogadores do Brooklyn Nets, New York Knicks e Golden State Warriors precisam se vacinar para jogar em casa, já que regras locais estipulam que apenas pessoas completamente vacinadas podem entrar nas arenas.

Dos 73 árbitros da NBA que integram, o sindicato –cinco dos quais mulheres–, 36% têm pelo menos 45 anos de idade.

O sindicato dos jogadores da NBA não respondeu a um pedido de comentário sobre sua posição quanto à vacinação obrigatória. Em junho, a WNBA anunciou que 99% de suas jogadoras haviam recebido as duas doses da vacina. Um porta-voz da NBA informou que, na liga, a proporção era de cerca de 85% dos atletas, e que a liga estava “discutindo com o sindicato sobre diversos assuntos para a próxima temporada, entre os quais vacinações”.

A NFL e a MLB não têm com seus árbitros ou atletas acordos semelhantes aos que a NBA assinou com os árbitros. A NHL não obriga seus jogadores ou árbitros a se vacinar, mas um porta-voz da liga anunciou na segunda-feira (13) que todos os árbitros haviam sido vacinados antes do início da nova temporada.

Um porta-voz da MLB disse que a liga recomenda fortemente que os árbitros se vacinem, e que está considerando ajustes à luz da recente aprovação da Food and Drug Administration (FDA), agência americana de fiscalização e regulamentação de alimentos e remédios, para a vacina da Pfizer, mas não disse se isso implicaria em obrigatoriedade de vacina.

Em março, Tom Clark, presidente do sindicato dos jogadores da MLB, disse que a organização que ele lidera se opunha à vacinação obrigatória.

Marc Davis, presidente do sindicato de árbitros da NBA e juiz por mais de duas décadas, declarou em entrevista que o acordo nasceu do forte relacionamento entre o sindicato e a NBA, e do fato de que os árbitros em geral eram favoráveis à obrigatoriedade da vacina.

A entrevista com Davis foi encurtada e editada por questões de clareza.

Você pode nos dizer como a vacinação obrigatória foi aprovada? Quando existe um ambiente colaborativo entre os gestores e os trabalhadores, acho que as questões são sempre debatidas, e existe um diálogo constante de parte a parte. Creio que, se eu tivesse de definir quem propôs a ideia, acho que ela surgiu por conta de um relacionamento firme e da conversação constante. Aquilo parecia claramente compatível com as declarações de propósitos de nossas duas organizações, que envolvem fornecer cuidado, segurança e proteção para nossos integrantes e suas famílias.

É uma opinião compartilhada sobre as vacinas, de que elas provavelmente são uma das três maiores invenções na história da humanidade. E ter acesso a essas vacinas inovadoras que permitem que continuemos nosso trabalho, façamos nosso negócio, e continuemos a trabalhar colaborativamente, é uma conversação que não é muito difícil de iniciar e de resolver.

Qual é o valor da vacinação obrigatória para os juízes se os jogadores não concordarem em adotar a mesma regra? Bem, antes de tudo somos uma organização independente, e acredito que os jogadores ainda chegarão a um acordo. Eles também estão trabalhando para resolver suas questões. As questões deles podem ser diferentes, ou o ritmo de discussão deles pode ser outro. Não posso falar em nome dos atletas, mas tenho certeza de que também resolverão suas questões. O benefício da vacina obrigatória é que nossos árbitros poderão viajar em voos comerciais. Eles têm famílias às quais voltam depois do trabalho. Estamos envolvidos no negócio do basquete. Convivemos em ambientes íntimos com os jogadores. Compreendemos a importância da vacina. Acredito que tudo isso se resolverá, em todos os níveis e em todas as diferentes ligas.

Atletas de Philadelphia 76ers e Atlanta Hawks discutem com árbitros em jogo dos playoffs
Atletas de Philadelphia 76ers e Atlanta Hawks discutem com árbitros em jogo dos playoffs - Tim Nwachukwu - 20.jun.2021/AFP

Houve um grau significativo de resistência de pessoas de dentro do sindicato a quem essa decisão poderia afetar? Do ponto de vista do número de oponentes, eu diria que não. Mas as vozes das pessoas que se opunham foram ouvidas. Nós falamos sobre suas preocupações. Trabalhamos para resolver essas questões. Um princípio que nos interessava especialmente era o da aprovação pela FDA (Food and Drug Administration). E discutimos essa questão de forma a que uma das coisas negociadas foi a de que a vacinação obrigatória não seria requerida antes da aprovação da vacina pela FDA. Ou seja, adotamos uma abordagem de bom senso com relação a tudo aquilo. E, como você sabe, a aprovação da FDA veio mais ou menos na mesma hora em que chegamos a um acordo.

Se considerarmos que os jogadores de basquete são seus colegas de trabalho, houve alguma resistência do tipo “por que devemos aceitar a obrigatoriedade da vacina quando os jogadores não a aceitam?” Não, porque sabíamos, quando iniciamos nossa conversação, que eles também tinham começado a deles. O que aconteceu foi só que chegamos a um acordo antes deles. A decisão daquele grupo não nos preocupava.

Você acompanhou as posições de outros sindicatos quando estava envolvido nas negociações? Mantivemos comunicação constante com o sindicato dos jogadores. Também mantivemos comunicação constante com os dirigentes do hóquei, beisebol e NFL. E outros sindicatos, como o dos mecânicos da Southwest Airlines, os empregados da United Airlines. Todos enfrentaram algumas questões difíceis e não conseguiram resolvê-las. Chegaram a resultados diferentes do que chegamos. Não passamos por isso com a NBA. A negociação jamais se tornou contenciosa e hostil.

Você acredita que o sindicato dos jogadores deveria chegar a um acordo parecido com de vocês? Como executivo de nosso sindicato, e como membro de um sindicato diferente, não é minha posição discutir, ou mesmo articular, o que eu acho que outros deveriam ou não deveriam fazer. Creio que eles farão o que melhor servir aos interesses de seus filiados. Nós sabemos o que serve melhor aos interesses dos nossos.

Tradução de Paulo Migliacci

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.