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Análise

Sem dinheiro, cerimônia de abertura dos Jogos aposta em projeção

"Ih, a Dilma!" Era o comediante Fábio Porchat, comentarista na transmissão da cerimônia de abertura na Record, sobre a representante da China na tribuna de honra, que se levantou para saudar a delegação chinesa, paletó vermelho, lembrando de fato a presidente afastada.

Sem parar, com tiradas cheias de estereótipos, como dizer que a planta levada por um menino à frente da delegação boliviana era coca, ele aliviou a cerimônia de mensagem cordial e óbvia —que de um lado celebrou a diversidade étnica e de outro discursou por ação ambiental.

A Globo seguiu mais o tom do espetáculo, com Galvão Bueno e até Glória Maria muito contidos. Assim, quando o presidente interino passou batido, logo no início da transmissão, o âncora simulou gravidade: "Michel Temer deveria ser anunciado e não foi. Quebra o protocolo".

Apesar da aparência politizada, a história do Brasil recontada pela cerimônia evitou os conflitos maiores, do morticínio dos índios aos horrores da escravidão, priorizando ecologia e congraçamento racial, como no programa "Esquenta" de Regina Casé, que até apareceu para bradar: "Here's to diversity!".

Não foi uma cerimônia para Jair Bolsonaro e Donald Trump odiarem, como tuitou horas antes um de seus diretores, Fernando Meirelles. Foi para agradar ao máximo possível de pessoas, em contraste com o país dividido e em linha com a bandeira geral, da Globo à NBC, de união.

A rede americana apresentou a cerimônia com atraso, para editar as imagens e abrir espaço a intermináveis intervalos comerciais -que cobriram o U$1,2 bilhão que pagou pelos direitos. Mas uma de suas apresentadoras, Meredith Vieira, se mostrou mais entusiasmada que os brasileiros de Globo e Record.

Quando Jorge Ben Jor puxou a festa e a NBC mostrou Gisele Bündchen pulando, Vieira chegou a dizer: "Eu quero me levantar e dançar!". Depois tentou explicar a antropofagia de Oswald de Andrade: "Como canibais, eles pegam a música do mundo inteiro e a tornam sua".

A rede foi mais elucidativa do que as brasileiras, que pouco acrescentavam ao que se via. Por exemplo, recorreu seguidamente às explicações de Daniela Thomas, também diretora da cerimônia e entrevistada dias antes em inglês, para tornar compreensíveis aos americanos as referências às favelas ou à festa.

O apresentador Matt Lauer, diante do excesso de projeções, lembrou o que ela havia dito: "Nós não tivemos muito dinheiro". Em nenhum momento a NBC escondeu os problemas. O telejornal "Nightly News", transmitido ao vivo de Copacabana, destacou em reportagem as "duas cidades no Rio".

Mas não tinha Porchat. Quando a reportagem da Record informou, no meio do desfile das delegações, que o presidente da França e o secretário de Estado americano haviam saído do Maracanã antes do final, por risco à segurança, o humorista reagiu: "E deixaram a gente aqui?".

Quanto a Galvão Bueno e a Globo, registraram que Michel Temer enfim se levantou e falou, "sob vaias e também alguns aplausos", corrigindo depois, por qualquer razão: "Sob vaias e aplausos".

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