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Prodígio, Mayra Aguiar fugia de aulas de balé para treinar no tatame

Mayra Aguiar começou cedo no judô. Aos seis anos, ela passou a praticar a modalidade, junto com outras atividades. Fez balé, natação e atletismo.

Mas o esporte que lhe deu nesta quinta-feira (11) a medalha de bronze na Rio-16 sempre esteve presente.

"Ela às vezes fugia da sala do balé para ir no judô", disse a mãe, a arquiteta Lei Quintana Aguiar, 53.

Não levaria nem dez anos para se tornar conhecida no país. Aos 15, ela disputou os Jogos Pan-Americanos do Rio, após participar da seletiva no ano anterior. A ascensão da judoca foi tão veloz que ela representou o Brasil sem sequer ser faixa preta.

"Quando ela decidiu fazer a seletiva para o Pan, foi um susto para a gente. Ela tinha 14 anos e foi o momento que conversamos com ela: 'É isso que você quer? Para ser uma atleta, você vai perder festas, estudo...'", disse a mãe da judoca.

A jovem quis. E no Pan, conquistou a medalha de prata —perdeu a final para a norte-americana Ronda Rousey, atualmente astro do MMA. Dias depois, ganhou a faixa preta da CBJ (Confederação Brasileira de Judô).

Mayra vem de uma família de classe média de Porto Alegre. O pai, o engenheiro Julio Roberto da Silva, 64, lutou karatê na juventude. A mãe é professora da rede pública.

Danilo Verpa/Folha de S.Paulo/NOPP
Mayra Aguiar é abraçada depois de vencer disputa pelo bronze
Mayra Aguiar é abraçada depois de vencer disputa pelo bronze

A estrutura familiar a ajudou a se dedicar exclusivamente ao esporte na adolescência. Assim, subiria em todos os pódios dos Mundias juniores que disputaria.

A carreira da judoca ficou marcada pelas graves lesões que sofreu ao longo da carreira. A mais série delas, no joelho direito, a deixou fora dos tatames por dez meses em 2008. Parte do tempo, não podia sequer andar.

"Ela chorava no meu colo vendo a irmã lutar. Falava que queria estar no tatame", afirmou a mãe.

Ela ficaria distante dos tatames por seis meses após cirurgias no ombro, cotovelo e, de novo, joelho direito, em 2013.

A volta não poderia ter sido melhor. Ela conquistou pela primeira vez o Mundial de judô, em 2014, a principal competição do esporte, depois da Olimpíada.

"A derrota é muito amarga. Eu odeio perder. Mas eu sei o quanto vale a pena levantar e batalhar por essa medalha. Não podia cair e não levantar", disse Mayra, ao lembrar o seu ciclo olímpico até o novo bronze.

Ao logo de todo esse período, Mayra treinou na Sogipa (Sociedade de Ginástica de Porto Alegre).

'FRANCESA DANADA!'
Na entrada da sede da Sogipa , assim que o juiz anunciou a vitória da francesa Audrey Tchéumeo sobre a judoca gaúcha Mayra Aguiar, 25, o guarda do clube soltou: "Francesa danada!". E esboçou um sorriso de conformação.

A decisão nos pontos tirou a gaúcha da chance de disputar a medalha de ouro no judô, na categoria até 78 kg, nesta quinta-feira (11). Em nova disputa, conquistou o bronze para o Brasil, e sua segunda medalha em Olimpíada.

No clube onde Mayra treina todos os dias desde os 11 anos de idade, o nome dela estava em todas as rodas de conversa e rádios de pilha que faziam parte da torcida, como se fosse domingo de final de campeonato de futebol.

Danilo Verpa/Folha de S.Paulo/NOPP
Mayra Aguiar vence a disputa pelo bronze
Mayra Aguiar vence a disputa pelo bronze

"Ela ficou chateada, ela queria muito o ouro. Deu para ver no semblante dela que ela ficou triste", disse Moacir Mendes, ex-colega de seleção brasileira e atual treinador de Mayra Aguiar em luta de chão - o katame waza.

Entre os colegas, Mayra sempre conta que, na primeira competição que disputou na vida, ganhou uma medalha de prata. Apesar da façanha difícil para novatos, o segundo lugar deixou a gaúcha com raiva. A partir dali, ela focou ainda mais no esporte, fez de medalhas e pódios uma rotina, e aos 15 anos estava na seleção brasileira de judô.

Mendes viu a mesma determinação na aluna nesta quinta (11) quando ela entrou no tatame para buscar a medalha de bronze. "Ela preparou parte física, parte técnica, ela estava muito focada para ganhar o ouro. Mas vamos comemorar o bronze também, não há muitos atletas com duas medalhas olímpicas. Agora a Mayra é da elite do esporte", comemora.

INSPIRAÇÃO

Na sala do Projeto Criança, que atende crianças de educação infantil e as prepara para começar no mundo dos esportes, um telão aguardava a hora de Mayra aparecer.

A torcida dos pequenos, com pompons, bandeiras e confetes, gritava com carinho o nome da atleta que veem sempre caminhando pela Sogipa. Boa parte de deles, sonhando em um dia chegar onde ela está.

"A Mayra tem muita influência. As meninas que treinam na Sogipa se inspiram muito nela e vemos que aumentou muito o número de meninas no judô querendo ser como ela", conta o treinador

Que esporte é esse? - Olimpíada - Folha de S.Paulo

Ele nem precisa ir longe para buscar um exemplo. A filha dele, Sarah, de 7 anos, começou há três no judô e gosta de assistir de perto Mayra treinando no mesmo lugar que ela. Depois de torcer pela judoca no telão, vestida com kimono e faixa amarela, a pequena comemorou o resultado: "Fiquei feliz!", disse, tímida.

Mayra Aguiar é parte da geração que trouxe outra cara ao judô brasileiro. Se antes o esporte era predominantemente masculino, agora é também de nomes como o dela, da colega de clube, Maria Portela, de Sarah Menezes e da medalha de ouro, Rafaela Silva.

Na Sogipa, a popularidade do judô vem crescendo desde a conquista do campeonato mundial de João Derly, em 2005. Mas nunca houve tanto interesse como agora. Atualmente, 300 crianças treinam no clube. O futuro do judô, uma medalha de cada vez.

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