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Documento revela que o festival de rock de 1975 foi vigiado

02/06/2000 10h36
MÁRIO MAGALHÃES e SERGIO TORRES
da Folha de S.Paulo, no Rio de Janeiro

Foi como se o agente secreto da polícia política tivesse tomado um ácido lisérgico antes do trabalho: o relatório sobre o Hollywood Rock de 1975, promovido como “o primeiro grande concerto de rock brasileiro”, mistura delirantemente música, comportamento de jovens, drogas e “comunismo internacional”. Mostra a tendência do regime militar (1964-85) então vigente de associar quase todas as manifestações artísticas à oposição ao governo.

Revela a incompreensão e a paranóia de quem pensava ser o músico Gilberto Gil o inspirador de todas as bandas de rock, a maconha, o detonador de “contorções” e os comunistas, os fornecedores de drogas.

O relatório número 002 foi emitido no dia 5 de fevereiro de 1975 pela Seção de Buscas Especiais do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) do então Estado da Guanabara. Era a polícia política estadual.

O documento original, com o carimbo “confidencial”, foi encontrado na semana passada pela Folha no Arquivo Público do Estado do Rio.

É assinado pelo comissário de Polícia Civil Deuteronomio Rocha dos Santos. Logicamente, ele não consumiu nenhum ácido antes de ir trabalhar. Seu relato, contudo, contém tantas confusões que hoje parece peça cômica.

Em quatro noites de sábado consecutivas, o primeiro Hollywood Rock foi produzido por Nelson Motta no campo do Botafogo, na zona sul do Rio.

Em 11 de janeiro, apresentaram-se Rita Lee e seu grupo Tutti Frutti. No dia 18, Mutantes e Veludo. No dia 25, O Peso, Vímana e O Terço. Fechando o festival, no dia 1º de fevereiro, estiveram Erasmo Carlos, Cely Campello e Raul Seixas.

Na primeira parte do documento de sete páginas (há uma oitava com um panfleto do festival anexado), o policial faz um retrospecto _denominado por ele de “antecedentes”_ que mistura rock com pop, categoria musical bem mais ampla.

“A partir do sucesso do conjunto Secos & Molhados, conseguido com sua apresentação no Maracanãzinho em 10 de fevereiro de 1974, deflagrou-se no país uma epidemia do rock”, diz o texto do documento.

O conjunto, que tinha Ney Matogrosso como cantor, era tipicamente pop, e não roqueiro.

Na lista de quem se apresentava “nas principais capitais do Sul do país”, eram citadas bandas de certa projeção à época, como O Terço, Veludo, Vímana (que viria a ter Lulu Santos, Ritchie e Lobão na formação mais conhecida), Bicho da Seda, O Peso e Almôndegas (esta nem roqueira era).

O “araponga” relacionava, porém, nomes como Vaso Sanitário, grupo que Nelson Motta nem sabe se existiu.

A influência de Gil nas bandas foi assim definida pelo agente do Dops: “Seus componentes são grupos de jovens brasileiros que, motivados pela efervescência do rock promovida diariamente pela imprensa escrita e falada e pelos toques precisos de Gilberto Gil, se propuseram a fazer o que denominam de “som”.

Depois do show dos Mutantes, “a maioria dos jovens fez uso de cigarros, que, pelo modo com o qual os manipulavam, dava a nítida impressão de tratar-se de maconha”.

“(...) Inúmeros jovens de ambos os sexos apresentavam sinais de se encontrarem sob dependência psíquica; uns dançavam e contorciam-se no chão: olhos esgazeados, avermelhados, balbuciando frases desconexas.”

Esse relato fez parte do capítulo “atração do ilegal”. O policial tinha obsessão por atitudes _na terceira noite, “apesar dos inúmeros casais existentes, não se constatou qualquer ato contra os costumes. As moças, ao fazerem necessidades fisiológicas, dada a inexistência de sanitários nas proximidades do campo, as faziam sob as vistas dos rapazes, sem que eles as importunassem”.

Ao concluir o relatório, o agente do Dops fez o que pareceu a avaliação política mais “densa” do Hollywood Rock: “Os fatos acima relatados demonstram em que ponto se encontra nossa juventude, sendo corroída pelo vírus das drogas”.

“Isso vem corroborar a existência de uso de tóxicos como arma política, visando o aliciamento, envolvimento e dependência química da juventude, tornando-a escrava da droga para, mediante chantagem e comprometimento, formá-la como novos informantes e agentes fiéis do comunismo internacional.”

Inexistem evidências de que organizações de esquerda tenham, em qualquer momento do regime militar, considerado as drogas como aliadas.

Pelo contrário: para algumas delas, serviam para “tirar o eixo” da sua militância.

“Atração pelo ilegal”

As características fundamentais do relatório do Dops são o preconceito e a desinformação. Nesse caso, não se fez mal a ninguém.

Durante os governos militares, porém, serviços de repressão semelhantes promoveram tortura, morte e desaparecimento de adversários políticos.

O documento encontrado pela Folha, além de registrar a visão de certos “arapongas” sobre o rock e a juventude, contribui para a história da música: foram anotados os repertórios de vários shows _o disco ao vivo selecionou só alguns números.

É possível saber que Rita Lee tocou “Mamãe Natureza” e “Esse Tal de Rock’n’Roll” na sua apresentação, com nove músicas.

Erasmo Esteves Carlos _assim chamado no tom formal da polícia- atacou com “Vem Quente Que Estou Fervendo”, entre outras, e Raul Seixas com “Gîtâ” e “Al Capone”, as duas com letras compostas em parceria com Paulo Coelho.

Aparentemente, o “araponga” falhou ao não registrar algumas músicas. Mas, salvo engano, as citadas foram apresentadas.

O agente do Dops não se pronunciou sobre o desempenho das bandas. A imprensa registra que o Vímana foi vaiado, que um temporal interrompeu o show dos Mutantes e que a estrutura era “precária”. Com a “atração pelo ilegal”, informa o relatório confidencial, correu tudo bem.

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