PM decreta prisão de mais 12 policiais

Covas afirma que não vai afastar mais ninguém

Agência Folha 03/04/97 23h16
De São Paulo

Violencia A Corregedoria da Polícia Militar decretou a prisão administrativa de mais 12 PMs do 24 Batalhão -o mesmo dos dez policiais que aparecem em um vídeo de tortura e morte, gravado na favela Naval, em Diadema (Grande São Paulo), em março. Seis dos PMs foram levados à tarde à Corregedoria, onde ficaram detidos. A prisão administrativa dura quatro dias úteis, o que significa que devem ficar presos pelo menos até terça-feira.

Os outros seis não haviam se apresentado até as 20h desta quinta. Do grupo de 12, nove PMs estavam envolvidos na suposta agressão ao padeiro Daniel Sales de Lima, 18, que teria ocorrido em 8 de novembro do ano passado. São eles: o terceiro-sargento Marcelo Fernando da Silva e os soldados José Luiz Fré, José Apolinário da Silva, Rogério Lima do Nascimento, Ronaldo Tomoyuki de Oliveira Yano, Roberto Marin Pereira, Everaldo Ferreira de Farias, Alexandre Boer e Eduardo Borella.

Foram detidos nesta quinta Apolinário, Borella, Fré e Tomoyuki. O cabo Odair Leite Raimundo e os soldados Wagner Pereira Oliveira e Israel dos Santos tiveram a prisão administrativa decretada após ser identificados por moradores de Diadema. Wagner Oliveira teria sido apontado como o ''Mancha'', policial acusado de praticar abusos e crimes na área. Ele foi detido nesta quinta, assim como Leite.

O advogado Carlos Humberto de Lima, da Associação dos Cabos e Soldados da PM, disse que os policiais que não se apresentassem nesta quinta passariam a ser procurados. Lima disse ter conversado com Apolinário José da Silva, que afirmou não saber por que estava sendo detido. Tomoyuki disse à Folha de S.Paulo que apenas foi chamado a se apresentar, sem motivo alegado.

O comando da PM de Diadema já sabia do envolvimento dos nove policiais na suposta agressão ao padeiro. Em 17 de janeiro passado, o tenente Marco Antônio de Carvalho, que presidia o inquérito, concluiu que havia indícios de crime militar praticado pelos PMs.

Mesmo assim, ele concluiu que ''a guarnição trabalhou de acordo com as normas'' da PM. O tenente disse que quem motivou a situação foi ''o civil Daniel'' -chamado de rebelde no relatório, por ter se recusado a passar por revista.

Covas afirma que não
afastará mais ninguém

O governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), afirmou nesta quinta que não vai afastar mais nenhum integrante da cúpula da PM até que ''apareça algum fato novo'' na apuração dos crimes dos policiais de Diadema (SP).

''Mas quem for identificado como tendo alguma culpa ou como incapaz de ocupar um cargo será afastado'', disse o governador, depois de evento no Palácio dos Bandeirantes.

Segundo Covas, não é possível generalizar e banalizar o afastamento de um membro da PM. ''Para eu ser lógico, no limite dessa coisa (da hierarquia da responsabilidade pelos crimes) estou eu'', disse.

Até agora já foram afastados quatro oficiais envolvidos no escândalo da favela Natal: o ex-comandante da PM em Diadema tenente-coronel Pedro Pereira Matheus (que está preso) e o ex-subcomandante da PM em Diadema major Pedro Acácio Gagliardo, além dos coronéis Luiz Antônio Rodrigues, ex-comandante da PM no ABCD, e Paulo Miranda de Castro, ex-corregedor da PM.

Promotor pede reabertura de
investigação de crimes em Diadema

O promotor José Carlos Guilhem Blat afirmou nesta quinta que deve pedir à Polícia Civil para reabrir dezenas de casos de homicídio e chacinas de autoria desconhecida acontecidos em Diadema (Grande São Paulo) desde o início do ano passado. Blat acha que policiais militares da cidade podem estar envolvido em vários crimes, que tiveram seus inquéritos arquivados por falhas na investigação.

Além de crimes de autoria desconhecido, o delegado deve pedir a reabertura de casos de homicídio e chacinas que teriam policiais militares como suspeitos. Segundo ele, em muitos desses casos os PMs não chegaram a ser indiciados (acusados formalmente) por falta de provas.

''Mesmo reabrindo esses casos, temos que tomar cuidado para não desvirtuar o foco das investigações, que é o assassinato de Mário José Josino'', afirmou Blat. Esses casos devem ser reabertos na semana que vem, após reunião de Blat com delegados de polícia.

Inquérito que apura morte
deve terminar amanhã

O inquérito que apura o assassinato do conferente Mário José Josino deve ser encerrado nesta sexta pelo delegado Mitiaki Yamamoto, do 2 distrito policial de Diadema. Yamamoto indiciou (acusou formalmente) seis policiais militares pela morte de Josino. Otávio Lourenço Gambra, o Rambo, é apontado como autor do crime.

O cabo Ricardo Luís Buzeto e os soldados Maurício Gomes Louzada, Nélson Soares Silva Júnior, Demontier Carolino Figueiredo e Adriano Lima Oliveira foram indiciados como co-autores. Todos eles devem responder a processo por violação do artigo 121 do Código Penal (homicídio), que prevê de 12 a 30 anos de prisão.

Os seis PMs mais o soldado Rogério Neri Bonfim também foram indiciados por tentativa de homicídio contra Jefferson Santos Caputi e Antonio Carlos Dias, que estavam no mesmo carro de Josino. Dez policiais foram indiciados por formação de quadrilha ou bando armado e abuso de autoridade. Além dos sete já citados, são acusados o terceiro-sargento Reginaldo José dos Santos, o cabo João Batista de Queirós e o soldado Paulo Rogério Garcia Barreto.

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SomOuça protestos da população de Diadema (trecho da reportagem de Lúcia Soares, de 02/04/97, da Rede Bandeirantes)
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