Porto da Pedra é a primeira favorita

Tijuca joga pétalas na platéia; Império esbanja luxo

Brasil Online/Agência Folha 11/02/97 01h35
De São Paulo e do Rio de Janeiro

CarnavalO Grupo Especial do Rio de Janeiro começou o seu primeiro dia de desfile às 19h41, com a entrada da Acadêmicos da Rocinha. A primeira parte da maratona do samba carioca tem como atrações principais Mangueira, Imperatriz e Salgueiro, as últimas três a desfilar.

Jorge Araújo/Folha Imagem
Visao
Visão geral do desfile da Rocinha, que trouxe a Disney como tema
A bateria da Acadêmicos da Rocinha fez uma pequena apresentação para os espectadores do setor 1, na concentração. O carnavalesco Flávio Tavares estava bastante nervoso com a arrumação da escola. O principal motivo era o atraso na fantasia da rainha da bateria, a ex-paquita Bianca Rinaldi. Sua fantasia só chegou minutos antes da Rocinha começar oficialmente o desfile.

A Rocinha entrou na avenida homenageando os 25 anos da Disneyworld. Técnicos norte-americanos e holandeses vieram assessorar a escola a produzir efeitos especiais para o desfile. "A Viagem de Zé Carioca à Disney". O carnavalesco dividiu o enredo em três partes. Zé Carioca será agente de viagens e Mickey Mouse o anfitrião. A Rocinha é a única representante da zona sul do Rio no desfile principal neste ano. O início do desfile foi precedido por queima de fogos de quase cinco minutos.

Com fantasias luxuosas e carros bem acabados e de iluminação sofisticada, a Rocinha não ficou a dever a nenhuma grande escola. No entanto, a direção de harmonia da escola errou na medida do ritmo do desfile. A escola teve de ser segurada "artificialmente" no final para que conseguisse cumprir o tempo mínimo de 65 minutos. O tempo foi respeitado -a apresentação terminou aos 68 minutos-, mas os jurados que ficam naquele ponto do desfile devem tirar pontos da Rocinha.

Um dos espectadores do desfile da Rocinha foi o bicheiro Luizinho Drumond, patrono da Imperatriz Leopoldinense, que cumpriu a promessa de vir ao sambódromo. Acompanhado da família e de amigos, Luizinho se instalou em seu camarote e foi logo recebendo deferências. O presidente da Liga Independente das Escolas de Samba, Jorge Castanheira, fez questão de apertar a mão do bicheiro. É a primeira vez que um dos bicheiros presos em 1993 aparece na avenida do samba.

O desfile da Rocinha teve problemas também no início com o princípio de incêndio no carro abre-alas. A escola tinha oito geradores com um total de 620 quilowatts de potência. O óleo do gerador começou a vazar, aumentando o risco de incêndio. Um fiscal da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) acompanhou todo o desfile com um extintor de incêndio. Logo atrás vieram dois bombeiros, já que o material do carro era altamente inflamável. Em função do princípio de incêndio, os efeitos especiais preparados para o abre-alas não funcionaram.

"Não havia o menor risco de incêndio", disse Flávio. No entanto, o carnavalesco ficou preocupado com a alegoria, já que a parte de trás do carro ficou totalmente preta.

Os efeitos especiais foram os principais destaques da Rocinha. Fogos de artifício, confetes, bolhas de sabão, além da iluminação do produtor Robert Sexton, que veio especialmente da Disney para cuidar do espetáculo visual. "Fizemos o possível para integrar as luzes da Sapucaí com os carros alegóricos", disse Robert, que está no Rio há três semanas. A vinda dos técnicos em efeitos especiais foi a única ajuda que a Disney forneceu à escola. "Os primeiros carros não têm muita iluminação, porque achávamos que a escola desfilaria à tarde".

Outro problema da Rocinha aconteceu durante a apresentação da comissão de frente aos jurados. Um dos integrantes ficou com o esplendor preso na grade paralela à passarela, deixando um buraco e prejudicando a coreografia do grupo.

Este ano não houve o tradicional derrame de credenciais falsas, comum em desfiles anteriores. Porém, houve exceções, como um homem completamente bêbado que acompanhava o desfile da Rocinha sem credencial e sem colete de imprensa. O homem foi interpelado pelo próprio presidente da Liga, Jorge Castanheira, que pediu que ele se retirasse. No entanto, o homem apresentou um bilhete assinado pelo presidente da Rocinha, Izamilton Góes, autorizando o desconhecido a acompanhar toda a escola. "Quando acabar o desfile ele vai ter de sair", disse Jorge Castanheira.

Os empresários também invadiram a Sapucaí desde as primeiras horas do desfile. No camarote da revista Rio, Samba e Carnaval, executivos de vários bancos, montadoras e agências de publicidade se divertiam ao som do samba da Acadêmicos da Rocinha. Outro camarote badalado foi o da cervejaria paulista Kaiser, onde os destaques foram os acionistas da empresa. Cerca de 40 deles desembarcaram no sambódromo pela primeira vez. Até o excêntrico Eric Egan, ex-presidente da empresa e atual assessor do conselho de administração, decidiu conferir de perto a beleza das escolas de samba cariocas. A Kaiser é a patrocinadora oficial do sambódromo.

Mas foi o camarote do caubói-empresário Beto Carrero - homenageado este ano como enredo do Império Serrano -o mais movimentado do começo do desfile. A atriz Tônia Carrero e o presidente dos Correios, Amílcar Gazaniga, estiveram lá.

A passarela serviu também para a tradicional troca de farpas e acusações. O presidente da Unidos da Tijuca, Fernando Horta, por exemplo, acusou a rival Grande Rio de ter danificado fantasias de sua escola. Ele, porém, não identificou nominalmente quem teria provocado o prejuízo.

Na organização da passarela, o espetáculo começou bem. Os acessos foram ostensivamente policiados. A área de circulação também recebeu tratamento caprichado. Vários trechos que até o ano passado não tinham calçamento foram revestidos. O mau cheiro também foi espantado: empregados contratados pela Liesa ficaram encarregados de espalhar essência de eucalipto pelas áreas próximas aos banheiros.

Unidos da Tijuca
emociona avenida

A segunda escola a se apresentar, a partir das 21h, a Unidos da Tijuca. Com um dos sambas mais bonitos do carnaval, a escola prestou uma homenagem ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro: "Viagem pitoresca pelos cinco continentes num jardim". Com 3.800 componentes, a escola apresentou harmonia e evolução de alta qualidade, uma vez que intérprete e bateria se entenderam muito bem.

A Unidos da Tijuca mostrou logo de cara que seu desfile seria inovador. A comissão de frente era heterogênea. Havia um D.João VI (autor do decreto de criação do parque), duas crianças representando seus filhos d.Pedro e d.Miguel e várias mulheres representando Carlota Joaquina, cada uma com uma fantasia diferente.

O abre-alas da escola era um pavão voltado de frente para a escola, convidando as pessoas a viajarem pelo Jardim Botânico. Embaixo do pavão gigante, as palmeiras reais que são a marca do parque. As fantasias e alegorias originais foram o tom de todo o desfile.

Mas o momento de maior emoção ocorreu quando um helicóptero sobrevoou a Passarela do Samba derramando pétalas sobre a avenida. As arquibancadas vibraram. No final, duas homenagens também agradaram. Em um dos carros veio Graziela Barroso, uma funcionária do parque que tem 80 anos. Na última alegoria, um piano lembrava que Tom Jobim adorava o Jardim Botânico. Como dizia a letra do samba: "E o mesmo som/que ao longe parece uma sinfonia/inspirou Tom que fez as lindas melodias/em meus recantos hei de ouvir eternamente".

Com o desfile, a escola dificilmente corre o risco de ser rebaixada, fato que quase aconteceu no ano anterior.

Porto da Pedra prova
por que quer ser grande

A terceira escola a entrar na avenida Marquês de Sapucaí foi a Unidos do Porto da Pedra, com o enredo "No reino da folia, cada louco com a sua mania", do carnavalesco Mauro Quintaes, sobre a loucura. A escola investiu pesado para mostrar que a loucura nem sempre é sinônimo de tristeza. Revelação do carnaval passado, os 3.800 componentes da Porto da Pedra prometiam vir este ano para brigar pelo título.

A Porto da Pedra trouxe uma comissão de frente liderada por Sigmund Freud, que no refrão do samba virava um passista. Anunciava uma escola com fantasias caras de soluções originais e tons quentes. Os carros também eram de um detalhismo comum à Imperatriz, como o que representava a loucura do Fantasma da ópera, alusão ao personagem do famoso espetáculo da Broadway.

Em todos os carros havia uma performance, como no carro que falava da loucura do bailarino Nijinski pela sua dança. As fantasias se integraram muito bem ao enredo e seu sentido era ainda mais fácil de compreender porque sempre vinham acompanhadas de um carro alegórico que sintetizava o assunto.

A bateria veio vestida de d.Quixote, personagem de Miguel de Cervantes, cuja "loucura idealista fez lutar até a morte" -como cantava o samba. Os refrões fortes ajudaram a escola a manter a harmonia firme, sem perder a animação, o que empolgou a avenida.

O enredo falava não só da loucura como doença. Um carro com o menino maluquinho, no qual passou Ziraldo, lembra as loucuras da infância. O humor ficou marcado pela ala dos garis ou "loucos varridos".

Império se apresenta
com muito luxuoso

A escola que precedeu a Porto da Pedra foi a primeira grande escola a desfilar neste carnaval, a Império Serrano, que comemorou na avenida o cinquentenário da sua fundação. O tema, no entanto, foi motivo de muita polêmica na fase pré-carnavalesca. A escola, que iniciou seu desfile às 23h52 resolveu homenagear o empresário e dono de um parque de diversões, Beto Carrero.

Por conta da homenagem, a escola teve recursos, em parte doados pelo próprio Beto Carrero, para fazer um carnaval com luxo que há muito não tinha chance de apresentar.

Respeitando muito as suas cores verde e branco nas fantasias, o Império Serrano desfilou, conforme o anunciado com muito luxo. A da ala das baianas era extremamente rica, utilizando materiais nobres e caros como renda e paetê. O penúltimo carro da escola, Águas Dançantes, custou R$ 300 mil e tinha uma fonte que lançava gua a pelo menos três metros de altura.

O homenageado Beto Carrero veio no último carro, que reproduzia um brinquedo do parque, com muitas luzes e fumaça.

A bateria do Império foi um dos pontos altos do desfile, mantendo por todo o tempo a cadência de samba, levantando o povo e ajudando a harmonia e a evolução da escola.

O enredo de fácil leitura, passou por todos os setores do parque de Beto Carrero, depois de mostrar a cidade onde fica (Penha, em Santa Catarina). A cada setor do desfile uma placa indicava o desenvolvimento. Este era um recurso antigo que é raramente usado atualmente.

Apesar de a escola ter desfilado com garra, recordando os seus melhores anos, o público não foi contagiado e reagiu com frieza à apresentação do Império. Perante os jurados, a escola deve conseguir boa colocação.

Grande Rio mostra
desfile sobre Rondônia

A quinta escola a desfilar, a Grande Rio, apresentou um enredo sobre a construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, na região amazônica. O abre-alas era uma locomotiva "transparente", uma vez que o projeto nunca foi concluído apesar de ter custado muitas vidas.

Com muito luxo e criatividade nas alegorias e fantasias, o carnavalesco Alexandre Louzada conseguiu desenvolver com clareza o enredo. No entanto, a escola teve alguns problemas de evolução deixando buracos na pista, que devem tirar da Grande Rio pontos importantes.

O samba-enredo, considerado pelos críticos como o melhor do ano, começou a ser cantado e tocado pela bateria em ritmo muito veloz. Do meio para o fim do desfile, a cadência foi corrigida e a platéia recebeu com menos frieza a apresentação da escola de Caxias.

Na dispersão houve um momento de tensão quando um componente foi atingido por um carro alegórico e desmaiou.

Mangueira emociona
com enredo olímpico

A Mangueira balançou a Marquês de Sapucaí com o seu enredo que faz parte da campanha pela realização dos jogos olímpicos no Rio em 2004. Desde os primeiros acordes do samba "O Olimpo é verde de rosa", a avenida se encheu de bandeiras nas arquibancadas. A alegria durou os 75 minutos em que os 5 mil mangueirenses mostraram a história das Olimpíadas, os esportes e o trabalho esportivo que a escola realiza com as crianças da comunidade.

A escola desfilou com muita alegria e garra, o que compensou alguns buracos deixados no meio da apresentação e a comissão de frente com uma coreografia sem graça. Mas a Mangueira não viveu só de empolgação e, como gostam de dizer seus componentes ilustres, "samba no pé". Num ano em que o luxo é a tônica, a verde e rosa apresentou fantasias caras e alegorias de bom gosto, com efeitos de iluminação e neón, o que não é comum.

A platéia dançou praticamente durante toda a apresentação da Mangueira que terminou por volta de 4h30. O desfile contou com a presença de vários atletas olímpicos como Gustavo Borges e Fernando Scherer e até o nadador russo Alexander Popov. Aliás uma das alas mais aplaudidas foi a da natação. Um manto de selofane azul fez as vezes de uma piscina em que cerca de trinta pessoas faziam coreografia, parecendo um grande grupo de nado sincronizado.

Popov esquece timidez
e acaba sambando com a Mangueira

O nadador russo Alexander Popov caiu no samba na madrugada desta segunda-feira no sambódromo do Rio de Janeiro. Desfilando no alto de um carro alegórico da Mangueira, ele esqueceu a timidez que marcou seus primeiros dias na cidade.

No início, o recordista mundial dos 100m nado livre e medalha de ouro nas Olimpíadas de Atlanta (1996) e Barcelona (1992) ainda tentou manter a seriedade: entrou na avenida com as mãos na cintura e olhar sério. Ao seu lado estavam os nadadores Gustavo Borges e Fernando Scherer, a jogadora de vôlei de praia Sandra e o jogador de vôlei Maurício. A animação dos quatro e a empolgação do público do Sambódromo, que agitava 50 mil bandeiras com as cores da Mangueira, distribuídas pela escola, fizeram Popov mudar.

Nos primeiros 50 metros, o nadador já arriscava alguns passos de samba. Mais alguns metros e começou a agitar os braços, acompanhando o ritmo com palmas. Um pouco mais e ele já pulava abraçado com os companheiros do carro alegórico, agitava uma bandeira da escola e atirava bolas de futebol para o público.

Ao final do desfile, um Popov bem mais sorridente dizia que a experiência de desfilar numa escola de samba era "maravilhosa". "Acho que me saí bem. Pensei que não soubesse sambar, mas consegui fazer alguma coisa. Depois do que vi, sei que vai ser ótimo se o Rio for sede da Olimpíada", disse, ao sair do carro alegórico.

Imperatriz homenageia
Chiquinha Gonzaga

A Imperatriz entrou na avenida como uma das favoritas ao título, sobretudo pelo fato de ser a escola com melhores resultados nesta década. A escola verde e branco trouxe uma homenagem à compositora Chiquinha Gonzaga, primeira mulher que compôs música popular.

Com muito luxo e organização, a escola fez uma apresentação para não ter erros "técnicos". A comissão de frente com teclados de piano estilizados deu o tom de bom gosto que dominou as fantasias e alegorias da Imperatriz, concebidos pela carnavalesca Rosa Magalhães. A personagem principal do enredo, Chiquinha Gonzaga, foi interpretada pela atriz Rosa Maria Murtinho.

A evolução e harmonia da escola foram facilitadas pelo bom andamento do samba. No final um carro quebrou no meio da pista e deu um susto na escola que conseguiu terminar o desfile dentro do tempo regulamentar. A Imperatriz terminou seu desfile por volta de 6h.

Salgueiro encerra 1
dia com desfile animado

O Salgueiro, que entrou na avenida na hora do alvorecer, trouxe para a avenida um enredo sobre a loucura, assim como a Porto da Pedra. "De carnavalesco e louco todo mundo tem um pouco" enfocou a "loucura" que existe na criação artística.

O enredo foi bem desenvolvido, com alegorias de concepção original, como a que transformou em elementos tridimensionais a pintura de Miró. No entanto, exigia profundos conhecimentos de pintura, o que pode explicar a frieza com que o público recebeu a escola no início.

A bateria segurou bem o ritmo e o samba-enredo foi cantado com energia pelos componentes, mais empolgados que os da Imperatriz. Sem correr ou pular, a escola passou com tranquilidade e se credenciou para brigar pelo título, encerrando um primeiro dia de desfile com novidades como há algum tempo não se via. O Salgueiro acabou sua apresentação por volta das 7h30.

Carla Perez estréia
no sambódromo carioca

Sob assovios e gritos de "gostosa", a dançarina Carla Perez, do grupo "É o Tchan", fez na madrugada desta segunda-feira sua estréia no sambódromo do Rio de Janeiro. Requebrando no alto do carro alegórico "Salvador Dali", parte do enredo "De Poeta, Carnavalesco e Louco... Todo Mundo Tem Um Pouco", ela desfilou na escola de samba Acadêmicos do Salgueiro.

"Vou mostrar que uma baiana pode sambar como carioca", prometeu Carla, antes do desfile. Vestindo um minúsculo biquíni, Carla sorria o tempo todo. Antes que o desfile começasse, sua mãe, Ivone, que, no asfalto, a acompanhava, rezou, acompanhada de outros parentes. Aparentando algum nervosismo, a dançarina enxugou duas lágrimas.

A recepção do público das arquibancadas dos primeiros setores do sambódromo, porém, foi fria. Os aplausos cresceram à medida que o carro avançava em direção à praça da Apoteose. Dos camarotes, alguns jogavam beijos, outros imitavam a coreografia protagonizada pela dançarina na música "Segura o Tchan".

Encerrado o desfile, Carla foi cercada de fãs que lhe pediam autógrafos. "Saí onde eu queria, foi emocionante, muito bom", afirmou. Ela precisou ser escoltada por até 16 guardas na Apoteose: dezenas de homens a cercavam, querendo uma foto, um autógrafo ou simplesmente alguns segundos de atenção.

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