r e l a t o

Coletivas, quebra-quebra e eufemismos

ESTANISLAU MARIA

Especial para a Folha Online

Foi uma quinta-feira agitada em Belém. Havia menos de 24 horas que a Polícia Militar do Pará acabava de praticar o maior massacre fundiário da história da República. Até aquela manhã, eram 19 mortos pelas tropas de Marabá e Parauapebas, comandadas pelo coronel Mário Colares Pantoja e pelo major José Maria Oliveira.

Digo até aquela manhã, porque havia uma guerra de acusações, supostas testemunhas, muitas mentiras, muitos desmentidos e muitas informações omitidas. O MST e a CPT (Comissão Pastoral da Terra) acusavam haver corpos escondidos na mata em Eldorado do Carajás. Uma suposta camionete teria carregado uma dezena deles sob um plástico preto, logo após o massacre.

O Exército seria chamado para fazer uma varredura na região do massacre para localizar mais corpos.

O número foi confirmado depois, nunca apareceu nenhum outro corpo. Os mortos dão, hoje, nome às 19 ruas do assentamento "17 de Abril", que foi a Fazenda Macaxeira, ocupada pelos sem-terra e pivô do massacre.

Mas, naquela quinta-feira 18 de abril, não se falava sobre outra coisa em Belém: confronto em Eldorado do Carajás, PM, sem-terra, 19 agricultores mortos, nenhum PM.

Foi uma semana de entrevistas coletivas, muitas. Só governador tucano Almir Gabriel concedeu três, o secretário da Segurança Pública, Paulo Sette Câmara, também, integrantes do MST, advogados dos policiais acusados. De Brasília, foram a Belém o presidente do Incra, na época, Raul Valle, e o então ministro da Justiça Nelson Jobim.

Eu saía de uma entrevista e ia escrevendo feito louco a matéria no táxi já a caminho de outra coletiva. Não sei se era de propósito, mas o pessoal do governo dava entrevistas em cantos distantes da cidade em horários praticamente seguidos, às vezes, simultâneos: o governador, na residência oficial; o ministro, no palácio do governo; o secretária da Segurança, no prédio da secretaria; e o presidente do Incra, em um hotel próximo ao aeroporto.

E tinha de acompanhar a repercussão entre o MST e entidades de direitos humanos e ainda as entrevistas surreais do advogado dos PMs, o coronel aposentado Abdoral Lopes.

"Esses bandidos, desocupados, invasores de terra atacam os pobres dos PMs e vocês queriam que eles ficassem parados? Foi tudo em legítima defesa." Apesar da gravidade da situação, as entrevistas de Abdoral sempre arrancavam risos dos jornalistas. Um mês depois do confronto saíram os laudos que apontavam quatro mortos por armas brancas, ou seja, pessoas dominadas pela PM e mortos com os próprios instrumentos (facões, foices e machados), e outros mortos com até três tiros na cabeça ou tiros nas costas. Quero ver se Abdoral vai sustentar, no julgamento, a tese da legítima defesa.

Ele defendia os "soldadinhos", porque o grande acusado, o coronel Pantoja, tinha um advogado só para ele, o melhor criminalista do Pará, Américo Leal, que cobra pelo menos R$ 50 mil por fase de inquérito e processo. Os honorários dele nesse caso de repercussão mundial e que se arrasta já há mais de três anos nunca foram divulgados. Houve rumores, na época, nunca provados e sempre negados pelo governo, de que o Estado pagaria a conta. Seria o bônus ao coronel Pantoja, por se transformar no bode expiatório governamental. Alguém teria de levar toda a culpa, antes que a bomba estourasse no colo do governador_pela Constituição, comandante supremo da PM_, candidato à reeleição em 98, e com pretensões de eleger um homem seu na eleição municipal daquele ano. A reeleição, Almir conseguiu, mas o candidato dele a prefeito, Ramiro Bentes, perdeu a prefeitura para o petista Edmílson Rodrigues, no segundo turno de 1996.

Nas ruas, o clima era tenso e pairava indignação. Os fantasmas dos sem-terra assombravam os quartéis da PM, que além de desmoralizada, ficou imobilizada.

Numa das manifestações de rua, que reuniu cerca de 5.000 pessoas, um grupo de estudantes extrapolou e depredou a Secretaria da Justiça. Eles invadiram o prédio, "lincharam" aqueles quadros oficiais do governador que existem em toda repartição, picharam paredes, quebraram portas, móveis e janelas. E a polícia o que fez? Nada.

Passando em frente ao 2º Batalhão, no centro de Belém, os mesmos manifestantes jogaram pedras no quartel e nos PMs e até um coquetel Molotov. E o que fizeram os colegas dos PMs que, um dia antes, mataram 19 em Eldorado? Nada.

Ordem do governador Almir Gabriel. Ele não queria mais a PM envolvida em violência em manifestações ou com sem-terra. Tanto que, ao longo daquele ano, pouquíssimas reintegrações de posse de terra invadida foram feitas. Eram os fantasmas de Eldorado assombrando cada ação policial.

Da indignação das ruas, entrávamos num clima que misturava meias-verdades, cinismo, arrogância e muitos eufemismos nas entrevistas oficiais.

O então ministro da Justiça, Nelson Jobim, não tinha muito o que dizer. Foi ao Pará "pagar o mico" que Fernando Henrique Cardoso preferiu empurrar a um ministro.

Com a arrogância que lhe é característica, deu duas ou três respostas curtas e se esforçou em humilhar jornalistas que faziam perguntas embaraçosas, do ponto de vista político, mas não mostravam notório saber jurídico, como o ministro. Ele chegou ao requinte de, antes de responder a uma repórter de TV, dizer que ela precisava estudar mais.

Almir Gabriel era a imagem do abatimento. Sem controle sobre a PM herda­ da dos tempos da ditadura e de dois governos Jáder Barbalho, tentava mostrar autoridade ao determinar o afastamento imediato dos comandantes da operação e dizer que era o primeiro interessado a ver tudo investigado.

Antes porém, a fita da repórter Marisa Romão, que estava com uma equipe de TV no momento do massacre, só foi devolvida após horas de apreensão pela polícia de Marabá.

Assisti a essa fita com um dos juízes do caso. Havia várias seqüências em que as imagens sumiam, feito uma TV sem sintonia. Talvez fosse imperícia do cinegrafista diante do pânico...

Duas frases tornaram-se recorrentes nas entrevistas de Almir: "Em nenhum momento autorizei o uso da violência. Mandei liberar a principal rodovia do Estado, sem usar a violência. O coronel Pantoja descumpriu as ordens e perdeu o controle", era a sua preferida. A outra alfinetava seu colega tucano o presidente Fernando Henrique Cardoso: "Uma coisa tem de ficar clara, o que aconteceu foi um problema 'no' Pará e não 'do' Pará. Afinal, a questão da reforma agrária é um problema do país".

O cinismo ficava por conta das voltas lingüísticas que éramos obrigados a dar para tratar do assunto nas perguntas. "Confronto em Eldorado", "operação policial", "violência que saiu do controle", "fatos lamentáveis na PA-150", eram os eufemismos mais comuns. A palavra "massacre" dava calafrios nos marketeiros de Almir e quase fez o comandante da PM, coronel Fabiano Lopes, encerrar uma entrevista. "Se você vai começar a entrevista, nesses termos, acabamos aqui", disse ríspido Lopes.

Justo naquela semana, o governo tucano começava uma campanha de mídia que dizia: "Isso é mudança". No rádio e TV a campanha foi retirada. Na maioria dos outdoors do centro de Belém, sobre a palavra mudança foi pichada "matança".

Para evitar um desgaste ainda maior do governador, depois de um mês, o procurador do Estado Pedro Bentes foi nomeado interlocutor para assuntos do massacre, ops!, do confronto, e Almir saiu de cena.

Antes foi torpedeado pelo próprio vice o "menino maluquinho" Hélio Gueiros Jr. (PFL), filho do ACM do Pará, Hélio Gueiros (PFL), ex-prefeito, em governador, que apoiou Almir contra Jáder Barbalho (PMDB) em 1994, a quem chamou de ladrão. Detalhe: Gueiros foi candidato ao Senado na chapa de Jáder, no ano passado, com Gueiros Jr., na suplência.

Gueiros Jr. disse que o governador fez uma operação toda errada e, se fosse Almir, demitiria o secretário da Segurança e o comandante da PM, mantidos nos cargos.

Depois, para tentar explicar o que as imagens da televisão e os 19 caixões saindo de Curionópolis e Marabá já explicavam, o governo Almir Gabriel gastou em publicidade mais do que os sem-terra pediam para prosseguir a marcha e não ocupar a PA-150.

Publiquei essa notícia, depois de ouvi-la, duas semanas após o massacre, do marketeiro do governo na época, Orly Bezerra _na realidade, uma figura sem cargo, uma eminência-parda na área de comunicação de Almir, um publicitário que fez suas campanhas eleitorais.

Dias depois, o sujeito veio tirar satisfação comigo, após um concerto no Teatro da Paz, no centro de Belém.

"Pô, você publicou a aquele nosso 'bate-papo'?!", esbravejou o homem do marketing tucano no Pará.

Bate-papo? Mais de mil trabalhadores sem terra acampam na mais importante rodovia paraense e pedem ônibus e cestas básicas para chegar a Belém; o governador nega e manda a PM, que promove um massacre; depois, para explicar o inexplicável, o governador gasta em publicidade mais do que os sem-terra pediam? E Bezerra quer segredo? E diz que foi um bate-papo?...

Mas essa era uma prática comum no governo Almir, sobretudo dos assessores e puxa-sacos do governador. Boa parte da corte paraense sofria _como a turma é basicamente a mesma, acho que ainda sofre_ da chamada síndrome de Ricupero: "O que é bom a gente mostra; o que é ruim, esconde."

Foi assim depois com o escândalo dos coronéis dessa mesma PM que matou os sem-terra. Alguns dos altos oficiais com salários acima de R$ 10 mil criaram pensões alimentícias para as respectivas mulheres, com quem ainda estavam casados, a fim de reduzir "no papel" os próprios salários e escapar da lei que definia R$ 4,4 mil como teto salarial do Estado. Também foi assim com o estádio Mangueirão, que caía aos pedaços e foi reformado com dinheiro do Estado para receber o circo da CBF de Ricardo Teixeira e o jogo Brasil x Marrocos. E também foi assim com o Salobo, um megaprojeto de R$ 1,5 bilhão da Companhia Vale do Rio Doce estatal _quase metade do valor da privatização de toda a empresa, que o governo (ven)deu por R$ 3,2 bilhões. O Salobo foi anunciado com pompa, festa e claque trazida do interior pelo governo e engavetado, depois, por Benjamim Steinbruch, principal acionista da Vale privatizada.

Para não esquecer, dois líderes sem terra, que participaram da ocupação da antiga Macaxeira e da marcha de 1996, foram assassinados, ano passado, em Parauapebas, na região de Eldorado do Carajás.

O jornalista Estanislau Maria era repórter da Agência Folha em Belém à época do massacre e hoje está na Revista da Folha.

Se quiser escrever para ele, clique aqui

abertura | álbum de fotos | cronologia | enquetes
entenda o conflito | mural | reconstituição | relato de Marabá


  Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo
desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso,
sem autorização escrita do Universo Online ou do detentor do copyright.