Como a Folha noticiou a queda de 15% da Bolsa em 1998

Números da Bolsa brasileira desta segunda foram os piores do século

São Paulo

A Bolsa brasileira teve sua maior queda do século nesta segunda-feira (9). O Ibovespa, maior índice acionário do país, despencou 12,17%, a 86.067 pontos, menor patamar desde 26 dezembro de 2018.

Os mercados financeiros de todo o mundo viveram dia de pânico. O dólar disparou, apesar da intervenção do BC (Banco Central). O risco-país teve uma das maiores altas da história e os juros futuros subiram.

O circuit breaker, que interrompe as negociações na Bolsa, foi acionado pela manhã.

O pessimismo sinaliza principalmente uma piora nas perspectivas de impacto econômico com a disseminação do coronavírus. A desaceleração da economia global por causa da doença já é considerada inevitável. A deterioração nos mercados sofreu impacto ainda da guerra comercial entre Arábia Saudita e Rússia que fez desabar o preço do petróleo.

O tombo desta segunda é a maior queda diária, em termos percentuais, desde 10 de setembro de 1998, quando a Bolsa caiu 15,8%, em período marcado pela crise financeira russa.

No dia seguinte, sexta-feira 11 de setembro de 1998, o jornal estampou a seguinte manchete: “Governo eleva juros a 49,75% para tentar segurar dólares”.

O texto logo abaixo da manchete resumia o panorama econômico daquela época.

“O Banco Central anunciou às 22h25 de ontem que os juros foram aumentados de 29,75% para 49,75% anuais, em nova tentativa de interromper a saída de dólares. A taxa é superior à adotada durante a crise de outubro (cerca de 43%).

Até as 19h45 de ontem, pelo menos US$ 1,974 bilhão havia deixado o Brasil. Com isso, as reservas internacionais recuaram para US$ 53 bilhões, contra US$ 74 bilhões no início da crise. Isso significa perda de US$ 21 bilhões, o equivalente ao arrecadado com a privatização do Sistema Telebras.

Cerca de nove horas antes do anúncio da nova taxa de juros, o presidente Fernando Henrique Cardoso havia descartado outra elevação -na sexta-feira passada, o BC havia aumentado a taxa de 19% anuais para 29,75%. “Os juros já foram aumentados, não posso sacrificar o país por causa de ganância que não tem base em uma situação real”, afirmou. Ele disse também que o governo “chegou ao limite máximo” de cortes de despesas no Orçamento que podem ser feitos “sem comprometer o funcionamento do país”.

Devido à saída de dólares e a uma nova queda em Nova York, a Bolsa paulista fechou em baixa de 15,82%, a maior desde março de 90, na implantação do Plano Collor, e quarta pior de sua história. O “circuit breaker”, que interrompe o pregão para evitar quedas muito fortes”, foi acionado duas vezes no mesmo dia -fato inédito desde a criação do mecanismo, em outubro de 97, no auge da crise asiática. Sobre o pico do mercado, em 8 de julho de 97, a Bolsa acumula queda de 65%. Neste ano, o tombo chega a 53,32%.

O diretor de Política Monetária do Banco Central, Francisco Lopes, disse que comprou ações na semana passada e recomendou a todos que façam o mesmo. “Não tenho dúvida de que agora é hora de comprar na Bolsa”, afirmou.

A agência de classificação de riscos Standard & Poor´s anunciou que mudou de neutra para negativa a sua perspectiva futura dada ao Brasil."

Reprodução da capa da Folha de 11 de setembro de 1998
Reprodução da capa da Folha de 11 de setembro de 1998 - Reprodução

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