Descrição de chapéu Humanos da Folha

Editora da Ilustrada fez caderno 'da cultura e da frescura' nos anos 70

Helô Machado quis dar voz à novidade, ao inusitado e à criatividade

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São Paulo

Quando se tornou editora da Ilustrada, em 1976, a jornalista Heloísa Maria Machado, conhecida por todos como Helô Machado, levou a sério a diretriz dada por Otávio Frias de Oliveira (1912-2007), o seu Frias.

Para o então publisher da Folha, o caderno de cultura do jornal deveria ser um "verdadeiro saco de gatos", um espaço para dar voz à novidade, ao inusitado e à criatividade.

Helô Machado vestida de preto com colar prateado enfeitado com borboleta
Helô Machado durante sessão para convidados do espetáculo "Alma Despejada", no Teatro Folha - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Essas características descrevem também a própria Helô, que gesticula rápido enquanto transita entre décadas e histórias que envolvem de Juscelino Kubitschek à Brigitte Bardot, de Ronald Reagen a Clodovil, passando por Hebe Camargo e tantos outros nomes familiares.

A jornalista se recorda, sorrindo, da sua época como editora. "Foi bárbaro!". Com frases pontuadas pelo tilintar dos penduricalhos das pulseiras, ela conta que sua editoria era como ela: "Cultura e frescura!"

Para a Ilustrada sob seu comando, a década de 1970 foi "efervescente". A Redação era aberta a todos, e artistas e leitores frequentemente a procuravam no jornal.

"Um dia chegaram dois rapazes, direto na minha mesa, com uma gravação demo. Sabe quem eles eram? Chitãozinho e Xororó."

Ela escreveu uma nota no jornal sobre a dupla e agradece o próprio tino. "Lavei a alma. Imagina se eu tivesse recusado? Ia me arrepender até hoje."

Não era incomum naquele tempo que jornalistas e artistas fossem amigos. "Tinha uma ligação gostosa. Hoje em dia os grandes artistas são astros, estão acima do bem e do mal". Ao lado do marido, o crítico de música Adones Alves de Oliveira, ela vivia em meio entre amigos, ídolos e colegas da Folha.

Em suas muitas anedotas, estão almoços com Caetano Veloso e Maria Bethânia, que vinham buscar os jornalistas na Redação. "O Adones é quem pagava a conta", lembra-se.

Segundo Helô, foi em uma festa promovida pelo casal de jornalistas que Belchior, sentado em uma cadeira de balanço e com Elis Regina ao seu lado, terminou de compor a clássica "Como Nossos Pais". Foi também nessa ocasião que Elis anunciou que mal podia esperar para gravar a canção de Belchior, versão que imortalizou a composição.

A amizade com Elis, que teria feito 75 anos neste dia 17 de março, marcou profundamente a jornalista.

A proximidade delas se revelava nas piadas internas —elas brincavam de trocar a letra T pelo P no verso de "Trem Azul": "Apesar do velho tênis e da calça desbotada...". Helô chegou a amamentar um dos filhos da cantora, por causa de uma alergia do bebê.

Poeta, Helô publicou o livro "Gato de Cachimbo" aos 15 anos. Enquanto o pai gostaria que a filha escritora e falante se tornasse diplomata, ela sentiu que o jornalismo era seu caminho, mesmo que fosse à época uma profissão majoritariamente masculina.

Em 1968, quando começou a trabalhar na Folha, pouquíssimas mulheres atuavam no jornal. Em visita recente à Redação, Helô apontou para as jornalistas que passavam ao lado dela: "Naquela época, a gente não usava calça comprida. Éramos cinco ou seis saias."

Como era a única mulher em um cargo de edição em todo o jornal, o seu Frias a apresentava como "minha menina". Quando assumiu a Ilustrada na década de 1970, era a única mulher do caderno.

Equipe da Ilustrada na redação em 1980
Equipe da Ilustrada em 1980, da esquerda para a direita, os jornalistas Moacir Amâncio, Gabriel Priolli (sentado, de barba), Jair de Oliveira (diagramador), Helô Machado (editora), Flávio Rangel, Dirceu Soares (atrás), Orlando Fassoni, Fernando Morgado, Lígia Sanches, Cláudio Pucci, Vera Artaxo (atrás), Cida Taiar e José Antonio - Arquivo pessoal Heloísa Machado

"Eu peguei uma fase deslumbrante. Deslumbrante e horrorosa!", ela brinca, comentando a adaptação às máquinas de videotexto que lhe renderam alguns perrengues, como o súbito desaparecimento do caderno especial "100 anos de Chanel".

Nessa hora, não havia outra solução que não fosse gritar pela Maria Antônia, funcionária que conhecia bem as "novas máquinas".

Nas crônicas de Flávio Rangel, "minha editora Helô" era uma personagem recorrente, com seus looks sempre descritos pelo jornalista —"minha editora Helô, hoje de cabelinho pantera", "minha editora Helô, hoje de verdinho chique e tomara que caia".

Carismática e exuberante, nossa editora Helô é grata pelas "bagunças" que fez na Ilustrada, como a criação da seção "As novelas, ontem", em que leitores publicavam seus próprios resumos de capítulos.

Depois da Folha, a jornalista trabalhou na televisão, em quadros de entrevistas e moda no programa TV Mulher, da Rede Globo, e como figurinista de minisséries como "Avenida Paulista" (Globo) e " O Grande Pai" (SBT).

Na ocasião de nosso encontro, Helô usava uma camisa branca de botão, delineador preto nos olhos e calça social elegante —daquelas que não se usava, ou não se podia usar, nos anos 1970.

Este texto faz parte do projeto Humanos da Folha, que apresenta perfis de profissionais que fizeram história no jornal.

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