Murilo Felisberto se destacou pelos textos com criatividade e humor

Jornalista mineiro trabalhou na Folha de 1959 a 1962; anos mais tarde, ele se dedicou à publicidade

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São Paulo

Nascido em Lavras, o jornalista e publicitário mineiro Murilo Agostini Felisberto (1939-2007) começou no dia 1º de janeiro de 1959 como repórter na Folha da Manhã, jornal que em 1960 fundiu-se à Folha da Tarde e à Folha da Noite, consolidando a Folha de S.Paulo.

homem de cabelos grisalhos e óculos sorri enquanto segura o queixo com a mão
O jornalista Murilo Felisberto em 23 novembro de 1967 - Arquivo Pessoal

Segundo seu colega de Redação da Folha, o jornalista José Hamilton Ribeiro, “Murilinho era um ótimo repórter, mas, por ser um excelente artista plástico, gostava mesmo da ‘cozinha’ do jornal”, apelido para os departamentos de composição e montagem nos quais eram diagramadas as matérias.

Murilo tinha sempre jornais, livros e revistas debaixo de um dos braços. “Ele sabia de cor vários expedientes de jornais e revistas estrangeiras, além de conhecer muito sobre tipologia, diagramação, artes, música e as ‘leis’ do jornalismo”, lembra o colega.

Entre os textos feitos pelo companheiro de profissão, Ribeiro se recorda do perfil que Murilo escreveu, no início dos anos 1960, sobre o humorista Juca Chaves. “O Juca era pouco conhecido na ocasião, mas o Murilinho sacou que ele era bom e o entrevistou nos degraus da escada do viaduto do Chá, que leva até o vale do Anhangabaú.”

Para Ribeiro, os perfis escritos por Murilo eram diferentes dos feitos naquela época. “O Murilinho rompeu com o jornalismo burocrático. Havia seriedade, mas com criatividade e humor”, disse Ribeiro.

Em 1962, Murilo pediu demissão da Folha. Em 1964, mudou-se para o Rio de Janeiro, já casado com a artista plástica Yolanda de Almeida Bessa, 80, para chefiar o Departamento de Pesquisa e Documentação, do Jornal do Brasil.

Voltou a São Paulo um ano depois para participar da publicação do número zero da revista Realidade, marco da imprensa brasileira. Em 1966, criou o Jornal da Tarde (JT), com Mino Carta e outros colegas.

“Ele desenvolveu o logotipo, as seções, a paginação, e escolheu jornalistas e profissionais certos para trabalhar no Jornal da Tarde”, diz Yolanda, citando, entre outros, Fernando Mitre, Fernando Moraes, Luiz Fernando Mercadante (1936-2012), Walter Firmo (fotógrafo), Ivan Ângelo e Alberto Helena Júnior.

Murilo foi editor do JT de 1968 e 1978. Em 1984, enveredou pela publicidade, ingressando como diretor de criação na agência de propaganda DPZ, onde também arrebanhou talentos, como o publicitário paulistano Rafael Urenha, 46, atualmente líder de criação da agência DPZ&T. Em 1996, aos 21 anos, Urenha entrou na empresa após mostrar seu portfólio para Murilo.

“Além de generoso, era uma fonte de consumo constante de cultura, que se alimentava de coisas além da publicidade, como filmes, concertos, livros. E passava tudo para nós”, lembra o publicitário.

Em 2000, Murilo retornou ao JT como editor-chefe no intuito de reestruturar do jornal, onde permaneceu até 2003.

Segundo Carlota Bessa Felisberto, 55, única filha de Murilo, embora generoso, o pai fazia tudo à sua maneira e tinha suas manias e diversões. “Ele era um Google ambulante e amava ouvir fofoca. Ia sempre ao [restaurante] Ritz para ouvir conversas das mesas ao lado. No Spot, ia todas as quintas-feiras e pedia capelletti in brodo, sem capelletti”, disse, rindo.

homem de cabelos brancos sentado à mesa em salão de jantar de restaurante
O jornalista Murilo Felisberto - Arquivo Pessoal

Sérgio Abdala Kalil, 58, proprietário desses dois restaurantes frequentados por Murilo, conta que durante anos o “supersimpático e inteligente” jornalista sentava-se na mesma cadeira da mesa 31 do Spot, para receber amigos. Sempre às quintas-feiras. “Uma noite, por um descuido de um gerente em treinamento, a mesa dele estava ocupada, e Murilo, sem dizer nada, foi embora. Ficou um tempão sem ir ao Spot, mas retornou como se nada tivesse acontecido.”

Amante de música clássica, tocava bem piano e deixou uma coleção com cerca de 5.000 itens, entre vinis e CDs, além de várias partituras e dois pianos, um Bechstein e um Steinway. “A única vez que vi meu pai chorar foi quando houve uma inundação no apartamento dele que danificou vários livros e partituras”.

Murilo quase não chorava, mas fez muita gente chorar com sua morte, aos 67 anos, no dia 11 de maio de 2007. Seu corpo foi cremado, com um exemplar de jornal colocado debaixo do braço, e suas cinzas foram espalhadas em um parque da cidade de Lavras.

RAIO-X

Murilo Felisberto (1939-2007)

Nascido em Lavras (MG), trabalhou como repórter na Folha e no Jornal do Brasil, entre outras Redações, antes de participar, em 1966, da criação do Jornal da Tarde. Nos anos 1980, trocou o jornalismo pela propaganda, atuando como diretor de criação na agência DPZ. Em 2000, retornou ao jornalismo como editor-chefe do Jornal da Tarde para reestruturar o jornal, onde permaneceu até 2003. Ajudou a formar pessoas talentosas no jornalismo e na propaganda.

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