Descrição de chapéu Folha Mulher

Conheça Narcisa Amália, poeta e primeira jornalista brasileira

Em 1952, crítica da Folha Maria de Lurdes Teixeira celebrou centenário da escritora

Maria de Lurdes Teixeira Naná DeLuca
São Paulo

Ocorre o sistemático esquecimento de mulheres na memória da literatura e do jornalismo no Brasil. Em 1952, a escritora e crítica da Folha Maria de Lurdes Teixeira apontou esta prática na ocasião do centenário de Narcisa Amália, iniciando seu texto com o alerta de que a poeta, jornalista e tradutora "deveria ser mais frequentemente lembrada".

Assim como Teixeira, primeira mulher a integrar a Academia Paulista de Letras, Narcisa Amália foi uma pioneira. Gozou de reconhecimento e repercussão em sua época, fosse por seus versos que equilibram lirismo e comentários políticos, fosse pelos ideais progressistas que defendeu.

Narcisa Amália foi a primeira mulher a se tornar jornalista profissional no Brasil, como apontou Teixeira em seu crítica. Na Gazetinha, de Resende (RJ), publicou artigos em defesa de ideais republicanos, democratas, abolicionistas e feministas, temas que também figuram em sua poesia. 

Ela dialogou abertamente com a poesia de Castro Alves e, como ele, teceu críticas sociais, sem ignorar o rigor literário. Quando Castro Alves morreu, Amália lhe dedicou um poema, em que se consolava na imortalidade dos poetas, afinal "não morreste, que não morrem Goethes" nem Camões, nem Dantes. 

Por esta visão crítica de sua literatura, ficou conhecida como "a poeta dos livres", ao mesmo tempo em que se juntou aos demais românticos do século 19 para cantar a identidade nacional, exaltando a natureza brasileira e o amor à pátria.

Em 1872, após a publicação de seu primeiro e único livro, "Nebulosas", composto por 44 poemas, o imperador Dom Pedro 2º fez questão de conhecê-la pessoalmente, e Machado de Assis lhe dedicou linhas elogiosas na imprensa —embora inicie sua crítica ressaltando que "não sem receio" abriu "um livro assinado por uma senhora.” ​

No transcorrer do tempo, contudo, ela foi deixada de lado, diferentemente de seus contemporâneos, o que Teixeira enfatizou em 1952. Seu texto sobre Narcisa Amália é um pedido para que lembremos não só da qualidade e do vigor de seus versos, mas também dos caminhos que abriu. 

Se houve a escritora, jornalista e tradutora Maria de Lurdes Teixeira e sua coluna literária nesta Folha​, é porque antes houve a poeta, jornalista e tradutora Narcisa Amália, seus versos e sua Gazetinha.

Para atar essas pontas da vida e da história (Teixeira, Amália e a própria Folha, prestes a completar 100 anos), esse texto merece ser republicado, especialmente agora, às vésperas do 8 de março, Dia Internacional da Mulher

Afinal, não morreste, que não morrem nem Teixeiras, nem Amálias, continuam por aí —nas Redações dos jornais, nas estantes das livrarias. E onde mais desejarem. 

Reprodução da página do jornal em que a crítica foi publicada
Texto da escritora e jornalista Maria de Lurdes Teixeira sobre o centenário de Narcisa Amália, poeta, tradutora e primeira mulher jornalista profissional do Brasil - Acervo

Comemora-se no dia 5 de abril o centenário de nascimento de uma escritora brasileira que deveria ser mais frequentemente lembrada —a poetisa e jornalista fluminense Narcisa Amália. Ao enunciar este nome duma sonoridade sugestiva, imediatamente, surge em nossa lembrança, em plena juventude, o seu belo rosto, conforme mostra o único retrato que dela dela conhecemos, lembrando um pouco aquelas estranhas admiráveis [Charlotte, Emily e Anne] Brontë, suas irmãs mais felizes: o corpete justo cingindo o busto delicado, o veludinho segurando um medalhão rente ao decote, a farta cabeleira escura, ondulada e brilhante levantada na testa, despenhando-se pelos ombros e servindo de moldura ao rosto oval iluminado por esplêndidos olhos negros. 

Retrato antigo, em preto e branco, de uma jovem de cabelos escuros, cacheados e longos. Ela usa uma gargantilha no pescoço e um vestido com laço no decote.
Retrato da poeta, jornalista e tradutora Narcisa Amália - Acervo

E, porém, uma figura romântica, delicada e essencialmente feminina, bem adequada à poetisa daqueles versos: "Meu nome arremessei às ventanias", esta imagem de antiga miniatura ou daguerreótipo aristocrático, e não o da batalhadora feminista que lutou valentemente na imprensa por ideais avançados e corajosos. 

Sabemos que Narcisa Amália, a esquecida autora das "Nebulosas", nasceu na cidade de São João da Barra, tendo ido residir com sua família em Resende quando contava 11 anos. Filha de um casal de professores, natural é que tivesse recebido uma educação cuidada, bem acima da que era comum entre as meninas do seu meio e do seu tempo no Brasil. Seu pai, Jacomé de Campos, agraciado por Pedro 2º com o Hábito de Cristo, era homem de certa cultura e dedicava-se a atividades jornalísticas e literárias, enquanto a mãe, uma senhora do Faial, lecionava particularmente a crianças das famílias mais abonadas da cidade. 

Bonita, inteligente, precoce, vivaz, aos 14 anos incompletos inicia-se o romance verídico dessa grande romântica. Apaixonando-se loucamente por um ator de companhia teatral ambulante —João Batista da Silveira— com ele se casa Narcisa Amália, para dentro em pouco ver-se sozinha, já que o artista prosseguia as suas vagabundagens através do Brasil, como galã do chamado "mambembe" de que fazia parte, enquanto a recém-casada continuava no lar paterno. Quatro ou cinco anos depois se separaram definitivamente, sem que se apagasse contudo na alma da moça a saudade do boêmio e errante esposo.  

Abandonada pelo marido e tendo que prover a sua subsistência, começou então a desenvolver-se mais intensamente a atividade intelectual de Narcisa Amália, que dentro em pouco faria jus ao título de primeira jornalista profissional do Brasil. Pois na Gazetinha, de Resende, passou a acumular funções de redatora, tradutora do folhetim e revisora, colaborando também com assiduidade em jornais do Rio e de São Paulo. Assim, não apenas os seus versos se foram tornando familiares a um grande público. Seu nome começou também a aparecer subscrevendo artigos de cunho político e social, combatendo na vanguarda das ideias do seu tempo, lutando principalmente por uma situação melhor para a mulher e, em pleno regime monárquico, alçando-se até os ideias republicanos. 

Em 1872 viajou para a Corte, a fim de tratar da publicação da sua coletânea de versos —as "Nebulosas" —que foi editada nesse mesmo ano pelo livreiro Garnier, granjeando para a escritora uma notoriedade ainda maior. Para a época e tendo em vista a estreiteza do ambiente literário, verificamos que o livro realmente teve grande repercussão. A imprensa do Rio e de São Paulo se referiu ao seu nome com abundantes adjetivos laudatórios: a excelsa poetisa, a laureada poetisa, a grande escritora, a ilustre jornalista, eram expressões frequentes a seu respeito até mesmo em publicações de Portugal. No prefácio que Pessanha Povoa escreveu para as "Nebulosas" encontramos algumas frases que atestam a importância atingida por Narcisa Amália em seu tempo: "... a primeira brasileira de nossos dias, a mais ilustrada, a primeira poetisa desta nação." 

Mas, afinal de contas, que espécie de poesia escrevia a moça de Resende, para despertar esse movimento da crítica, geralmente tão parca em palavras ao tratar de livros femininos? 

Para o nosso senso crítico atual, é claro que os versos de Narcisa Amália perderam o interesse, como acontece, aliás, com Casimiro [de Abreu], Álvares de Azevedo, Junqueira Freire e outros representantes tardios do romantismo brasileiro, desde que ela foi bem uma romântica, embora escrevendo já em plena reação contra essa escola, ao tempo em que os epígonos do parnasianismo começavam a dar um trato mais cuidado aos temas poéticos e a dominar a exaltação das imagens byroneanas e condoreiras. Todavia, o que hoje importa, não é estudá-la à luz do gosto evoluído e exigente de nossos dias, que repudia as estéticas ultrapassadas e que já então, ao tempo das "Nebulosas", iam despertando alguns protestos veementes, como é o caso de Sílvio Romero em nos seus "Estudos de Literatura Contemporânea" e num ensaio intitulado "Uns versos de Moça", em que se rebela contra o excesso de tristeza e de suspiros em nossa literatura. 

O que cumpre notar é a nota profundamente lírica e panteísta dos versos de Narcisa Amália, a sensibilidade que supre as imperfeições de sua musa espontânea e ardente. Ezequiel Freire, seu entusiasta admirador, entre outros conceitos sobre a autora de "Nebulosas", escreveu esta frase que bem resume um juízo crítico: "Narcisa Amália era uma natureza artística admiravelmente equilibrada, em todas as suas faculdades.". Enfim, seja nos versos líricos, seja nos poemas panteístas e descritivos, seja naqueles de intenção social e política, se notamos um excesso de imagens redundantes nem sempre originais, além de muitas imperfeições de forma, o que não podemos deixar de reconhecer sem grave injustiça é que neles não mínguam também as belas imagens, os ritmos musicais, enfim todas as qualidades que definem, indicam e atestam a existência de verdadeiros dons poéticos, como era o caso dos três românticos citados —Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Junqueira Freire, de que Narcisa Amália é bem uma irmã. 

Mas não se pense que só o amor, a natureza, a saudade e as desilusões foram cantadas por esta voz comovida e por vezes tão feminina. Também no campo social e político, foi ela a buscar os temas de seus versos. Assim, com grande escândalo de certos críticos, entre os quais C. Ferreira (tratar-se-á de Carlos Ferreira?) que lhe dedicou rodapé num jornal do Rio, Narcisa Amália canta as revoluções, "apostrofando os reis e endeusando as turbas", "Há o que quer que seja desconsolador, quando se escuta a voz delicada duma senhora aconselhando as revoluções". É ainda o escandalizado articulista quem fala, continuando de maneira inefável: "Eu por mim desejaria que a poetisa estivesse sempre em colóquio com flores, com primaveras e com Deus." Pobre Narcisa Amália! Em que tempo se desenrolou seu drama! 

Não resta a menor dúvida, realmente, quanto ao caráter de pioneira de ideais avançadas em prol da melhoria da situação da mulher na sociedade e do aperfeiçoamento das condições de vida do povo em geral, que desempenhou, na medida das suas forças —tão precárias diante das barreiras da sua época! —a denodada batalhadora que foi Narcisa Amália. Com inteira justiça cabem-lhe as expressões de Lindolfo Gomes: "...voz feminina e desassombrada, precursora da liberdade e da democracia em nossa pátria, emula Castro Alvos e Teófilo Dias."

Tudo isto prova que, nas vizinhanças dos 30 anos, a escritora era o que se poderia dizer um nome consagrado. Foi quando, viúva do artista ambulante, resolveu casar-se pela segunda vez. E com quem se teria casado essa derradeira romântica, a linda poetisa a quem os nossos maiores poetas dedicavam fervorosos poemas e cujo nome se projetava além das fronteiras nacionais? Casa-se com um certo Cleto Rocha, português, conhecido em Resende pelo epíteto de Rocha Padeiro, visto ser proprietário da Padaria das Família. 

É claro que não poderia durar esse matrimônio extravagante e absurdo. Na realidade, durou pouco. E Narcisa Amália, que antes tentara por diversas vezes fixar-se no Rio, mas que acabava sempre por voltar à sua querida cidade, ao separar-se do segundo marido, viu-se coagida a retirar-se dela para sempre, tangida pelas campanhas maledicentes que lhe moveu o despeitado padeiro. Mudou-se então para o Rio e ingressou no magistério municipal, como meio mais seguro de tornar-se independente. Tão rudes golpes, porém, haviam sido excessivos para a sua sensibilidade. De então em diante perdeu todo o estímulo literário e, praticamente, deixou de escrever, a não ser uma ou outra linha para a imprensa em circunstâncias especialíssimas, um ou outro poema que poucos e dedicados amigos tinham a alegria de conhecer. Viveu assim, discreta, retirada e triste, até os 72 anos, falecendo quando já era uma ruína, paralítica e sem vista. 

Machado de Assis, tão sóbrio em louvores, ao analisar o livro de Ezequiel Freire, escreveu: "'As Flores do Campo', volume de versos dado em 1874, tiveram a boa fortuna de trazer um prefácio devido à pena delicada e fina de dona Narcisa Amália, essa jovem e bela poetisa que há anos aguçou a nossa curiosidade com um livro de versos e recolheu-se depois à torre de marfim da vida doméstica."

Esta foi, em suas linhas gerais, a vida dessa escritora quase esquecida e cujo centenário deverá ter a repercussão que merece. Se em certa época o seu nome se tornou familiar aos meios literários, hoje bem pouco resta dessa atividade comprovante de um grande espírito, corajoso e nobre, absolutamente acima de seu tempo no Brasil. 

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