Descrição de chapéu Humanos da Folha

Niels Andreas fotografou massacre do Carandiru e 50 anos de Israel

Fotojornalista paulistano também registrou ascensão e queda de Collor, e a Cúpula do Rio, em 1999

São Paulo

O paulistano Niels Andreas Glogowski diz que é um filho da guerra.

Seu pai, Holger Bondorff, um dinamarquês aficionado por fotografia, hoje com 100 anos, veio visitar o Brasil em 1939 e não pode retornar à Europa devido ao bloqueio do oceano Atlântico, no início da Segunda Guerra Mundial.

homem calvo de óculos usa camisa cinza e está em pé, sorrindo, me meio a várias estantes de livros
O fotógrafo Niels Andreas no lançamento do livro "Cásper Líbero: Jornalista que Fez Escola", na Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo (SP) - Mathilde Missioneiro - 05.dez.2019/Folhapress

Durante sua estada forçada no Brasil, Bondorff conheceu a imigrante judia austríaca Suzanne Glogowsky, com quem se casou e viveu até o início dos anos 1950, quando voltou à Dinamarca. Desse encontro, nasceu Niels, em dezembro de 1947.

Seu amor pela fotografia, que lhe abriu o caminho para a profissão, veio do pai biológico e também do padrasto, com quem sua mãe se casou anos depois.

“Desde pequeno, eu ia com meu padrasto, a quem chamo de pai, nas lojas da rua Conselheiro Crispiniano comprar equipamentos”, lembra.

Aos 19 anos, em 1967, enquanto cursava artes plásticas na Faap, Niels se juntou a um grupo de universitários de origem judaica e viajou a Israel para ajudar na reorganização do país depois da Guerra dos Seis Dias.

Acabou ficando por lá durante dez meses, período em que morou num kibutz e trabalhou dirigindo caminhão e colhendo tâmaras e melões. Tinha a câmera sempre ao seu lado, uma Olympus Pen.

Em 1972, Niels se casou com a jornalista Marcia Glogowski e, juntos, foram morar em Israel. De volta ao Brasil, ele começou a fazer trabalhos de fotografia como freelancer para jornais da imprensa alternativa e para veículos profissionais, como Veja e Estado de S. Paulo. Em maio de 1984, conseguiu uma vaga na Folha, no turno da madrugada.

Poucos dias depois, conseguiu emplacar uma foto na Primeira Página, não da Folha, mas do extinto Notícias Populares (conhecido como NP), também do Grupo Folha.

“Cheguei à avenida Giovanni Gronchi, que estava meio deserta e escura, e vi o corpo. Fotografei com flash, mas mal vi o que tinha fotografado. Dei uma capa enorme no NP. O cara estava com uma faca atravessada no pescoço”, conta.
Um dos pontos altos de sua carreira na Folha foi a cobertura do massacre do presídio do Carandiru, em outubro de 1992, quando 111 detentos foram mortos por policiais.

“Fiz parte do primeiro grupo de jornalistas a entrar no Pavilhão 9. O chão estava vermelho, e as paredes cheias de balas”, lembra o fotógrafo.

Em 1998, Niels voltou a Israel para acompanhar as celebrações dos 50 anos do país ao lado do repórter Jaime Spitzcovsky. Conseguiram nessa ocasião uma entrevista exclusiva com o líder palestino Mahmoud Abbas em Ramala, capital da Cisjordânia.

O encontro com Abbas só aconteceu depois de horas de viagem pelo Líbano. “Pegamos um táxi e resolvemos ir ao sul do Líbano, na divisa com Israel, reduto do [grupo xiita] Hizbollah. A viagem, que já era tensa, ficou mais ainda quando eu percebi que estava com a carteirinha do Clube Hebraica no bolso”, recorda-se Niels, rindo.

Anos depois, ele e Spitzcovsky retomaram a parceria ao lançar o livro “As Sinagogas do Brasil”.

Outro episódio inusitado aconteceu na Cúpula do Rio, em 1999, que reuniu presidentes de países da América Latina e da Europa. “No encerramento do encontro, todos os presidentes se reuniram para a foto oficial, e nada do Fidel Castro. A foto acabou sendo feita sem ele”, diz. “Minutos depois, Fidel apareceu dizendo: ‘Me fui al baño’”.

Niels fez, então, a foto de um Fidel desconcertado no meio dos outros presidentes que deixavam a formação para a foto oficial.

Atuante em coberturas políticas, ele se lembra de dois episódios com o ex-presidente Fernando Collor.

“Em uma carreata de campanha, quando Collor era candidato nas eleições de 1989, entrei por engano na caçamba da caminhonete do próprio Collor. O segurança tentou me empurrar para fora do carro com o veículo em movimento. Fui salvo pelo Ubirajara Dettmar, fotógrafo que trabalhava para a equipe do Collor”.

Em outra ocasião, Niels foi acompanhar o então presidente em uma viagem ao redor do mundo.

“A grande foto dessa cobertura foi a do Collor junto com [Mikhail] Gorbachev, no Kremlin, na época de abertura da União Soviética”, rememora.

A imagem ganhou repercussão mundial porque aquela foi uma das primeiras vezes que Gorbachev falou sobre a abertura política em seu país para a imprensa internacional.

Niels também guarda boa memória de fotos de figuras marcantes da cultura, como o bailarino Mikhail Baryshnikov em visita ao Brasil, o escritor Jorge Amado e Pietro Maria Bardi, um dos criadores do Masp.

Ele ficou na Folha até o ano 2000, quando foi convidado para ser editor de fotografia do jornal Valor Econômico.

Hoje, aos 72 anos, Niels se dedica a trabalhos corporativos e projetos pessoais, dando toques artísticos em fotos de seu acervo.

Niels Andreas, 72

Nascido em São Paulo em dezembro de 1947, cursou artes plásticas na Faap e, em 1972, começou sua carreira de fotógrafo como freelancer para a imprensa alternativa e para publicações profissionais, como Veja. Ingressou na Folha em 1987, onde trabalhou por 13 anos. No jornal, registrou o massacre do Carandiru e acompanhou viagens internacionais dos presidentes Collor e Fernando Henrique Cardoso, além de ter fotografado para o caderno especial de 50 anos de Israel.

Este texto faz parte do projeto Humanos da Folha, que apresenta perfis de profissionais que fizeram história no jornal. ​ ​

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