Descrição de chapéu Humanos da Folha

Ilustrações de Mariza levaram o horror do cotidiano para as páginas do jornal

Com estilo delirante e intenso, ilustradora misturava técnicas para desenhar os monstros do dia a dia

São Paulo

As ilustrações que acompanham as colunas da contracapa do caderno Ilustrada ocupam um espaço nobilíssimo deste jornal. Mas, em geral, são vistas como o descrito na frase anterior: são acompanhantes de um texto.

Não com Mariza Dias Costa (1952-2019), que conseguia constantemente romper essa barreira: suas ilustrações eram tão impactantes, delirantes e originais que se tornavam uma obra independente dos escritos para os quais foram produzidas.

retrato em preto e branco de marilza dias costa vestindo roupas pretas e de cabelo curto, sorrindo em frente a uma mesa de trabalho
A ilustradora Mariza Dias Costa na Redação da Folha, em São Paulo, em 1988 - Bettina Musatti - 24.mai.1988/Folhapress

E olha que a concorrência era bravíssima: Mariza foi ilustradora de algumas das colunas mais importantes da Folha. De 1978 a 1990, ela ilustrou “O Diário da Corte”, do jornalista Paulo Francis (1930-1997). E, após um hiato de quase uma década, voltou ao jornal direto para o espaço do psicanalista Contardo Calligaris, com quem trabalhou de 1999 a 2019.

No livro “...E Depois a Maluca Sou Eu” (ed. Peixe Grande, 2013, 224 págs, R$ 69), que reuniu centenas de suas obras e alguns textos biográficos, Contardo psicanalisou o trabalho de sua colega: “A ilustração ideal interpretaria o texto, ou seja, diria algo que estava no texto, mas que talvez eu mesmo ignorasse”.

Ou ainda: “Escrevo, salvo raras exceções, de maneira bem comportada, no tom de um diálogo amistoso. Mesmo quando me indigno, tento não falar alto. A ilustração de Mariza, comparada com o tom médio do texto, parece gritar. Não há nisso contradição alguma, pois a ilustração não repete minha opinião em um volume mais alto: ela grita, em geral, um desconforto esquecido atrás da coluna”.

Esse grito ou desconforto presente no trabalho de Mariza é muitas vezes traduzido em imagens de olhos arregalados e dentes arreganhados. Suas figuras parecem monstros saídos das sombras de filmes de terror, mas, ao mesmo tempo, são executivos, donas de casa e gente comum. É o horror do cotidiano que Mariza estampava nas páginas do jornal.

No perfil que a repórter Laura Capriglione escreveu sobre a ilustradora, no mesmo livro citado, há um trecho que dá dicas de onde veio isso tudo: “Ocupava o tempo que as meninas de sua idade usavam para namorar estudando história da arte, a Idade Média, a Roma Antiga. Mas, nesse universo, sua atenção ia para as criaturas antípodas que, imaginou-se um dia, habitavam as beiras, as proximidades dos precipícios em que o mundo plano supostamente acabava. E elas materializavam-se nos relevos das igrejas pré-góticas, na arquitetura gótica”.

“Mariza viu as criaturas em suas idas e vindas atrás do pai globe-trotter, representadas nos lintéis, nos relevos da frente das catedrais românicas. Ela enumera: ‘Tinham os cinocéfalos, que eram as criaturas com cabeça de cachorros, os panótios, com orelhas enormes, que iam até os pés e serviam para voar. Havia as criaturas com olhos na altura dos ombros e a boca na altura do umbigo. Eu era fascinada por essas criaturas, saídas de uma pastelaria do inconsciente’, afirma.”

Outro aspecto marcante de seu trabalho eram as texturas e objetos que introduzia nas ilustrações. Para isso, pedia emprestadas gravatas e saias do pessoal da Redação, as quais xerocava. Certa vez, uma de suas figuras tinha pedaços enrolados de uma fita cassete colados no lugar do cabelo.

E, falando em pai globe-trotter, Mariza era filha de um diplomata e, como tal, viveu em diversos países. Nasceu numa dessas viagens dos pais, na Guatemala —sim, Mariza era guatemalteca.

Entre os 18 e os 21 anos, viveu na Cité Internationale des Arts, uma instituição-residência para artistas estrangeiros em Paris. Aos 22, mudou-se para Bagdá e participou de uma expedição arqueológica no deserto desenhando os artefatos encontrados.

Falava, com diferentes níveis de sapiência, oito idiomas: francês, inglês, italiano, português, espanhol, guarani, grego e árabe. Por outro lado, nunca terminou o secundário, largando a escola aos 17 anos.

Curtiu drogas, rock e cigarro, mas não suportava maconha. Experimentou LSD, Mandrix e Artane, mas não encontrou sua praia. Transitou livremente pela cocaína, crack e heroína, até que, finalmente, viciou-se nos opiáceos.

O vício lhe rendeu meia dúzia de internações voluntárias, a primeira delas em 2001, quando acabou num verdadeiro hospício. Ela relatou essa experiência sem reservas num texto em primeira pessoa, com altíssimo nível literário e humorístico, chamado “E Depois a Maluca Sou Eu”, reproduzido no livro homônimo.

De vez em quando, já nos anos 2000, Mariza passava na Folha para pegar a coluna da semana. Carregava debaixo do braço uma pasta com seus originais e os vendia aos amigos, designers, fotógrafos e jornalistas para conseguir pagar as contas. Os novos repórteres arregalavam os olhos, entre surpresos e assustados, ao verem aquela figura magérrima, de cabelos pintados vermelho fogo e um tênis de cada cor.

mulher de certa idade com cabelos curtos e vermelhos segura um livro nos braços e posa para foto
A ilustradora Mariza Dias Costa, autora de "...E Depois a Maluca Sou Eu" e "Os Incríveis Seres Fantásticos" - Reprodução

Jamais soube lidar bem com dinheiro e, segundo seu amigo Orlando Pedroso, organizador do livro citado e que a ajudou de diversas formas nos últimos anos, “na manhã do dia 10 ela estava no banco para descontar seu salário. Na tarde do mesmo dia, já estava pedindo emprestado.”

Mariza morreu aos 66 anos na noite da última quinta-feira de março do ano passado. Saiu para comprar jornal às 23h e passou mal no caminho. Uma ambulância a socorreu ao Hospital das Clínicas, mas ela não resistiu.

Não era casada. Teve um filho, Diogo, que nasceu em 1977 com má formação cardíaca e morreu dois anos e meio depois.​

Mariza Dias Costa (1952-2019) ​

Nascida na Guatemala, filha de diplomata brasileiro, morou em diversos países antes de se radicar no Brasil e passar a ilustrar colunas na contracapa do caderno Ilustrada, da Folha.

Este texto faz parte do projeto Humanos da Folha, que apresenta perfis de profissionais que fizeram história no jornal. ​ ​

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.