Descrição de chapéu Como chegar bem aos 100

Precisamos do SUS para envelhecer melhor

Para que o sistema de saúde sobreviva, sociedade deve defendê-lo

Marília Louvison

Professora de políticas de saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP e representante do Centro Internacional da Longevidade (ILC) em São Paulo

Com frequência, nós nos perguntamos como prosseguir na longa maratona em que a vida se transformou. Não sabemos quando e onde ela acaba, mas queremos chegar bem ao final.

três pessoas idosas na beira do mar com trajes de surfista e as pranchas espetadas na areia - eles sorriem para a foto
Maria do Carmo de Jesus, Francisco Aguiar e Elza Oliveira, alunos da Escola Pública de Surf, em Santos (SP) - Adriano Vizoni - 22.jan.2014/Folhapress
Para usufruir desse longo caminho, a saúde é capital, inclusive para tornar viável o envelhecer, sempre a melhor de duas opções —só nos resta outra, a morte prematura.

Pode não ser fácil, exige constância e propósito. Saúde para continuarmos caminhando bem. É um dos pilares do envelhecimento ativo. Do meu? Do seu? De todos. Fortalecer a saúde não é uma tarefa solitária, requer um esforço coletivo.

Saúde é criada no contexto do dia a dia: onde vivemos, trabalhamos, nos locomovemos, divertimos, brincamos, amamos. Logo, escolhas mais saudáveis devem ser as mais acessíveis, fáceis e baratas.

Nossa tarefa coletiva é lutar por políticas públicas que promovam a saúde de todos. Que possam diminuir o fosso injusto entre os envelheceres, permitindo velhices dignas para todos.

Para isso, as políticas públicas devem estar alinhadas aos princípios do envelhecimento ativo: saúde, educação ao longo da vida, participação e segurança. Assim, serão mais amigáveis para todas as idades.

Nesta pandemia do Covid-19, vimos nossa velhice ameaçada. Muitos não teriam sobrevivido sem o SUS, o sistema universal, público, de saúde É preciso proteger os mais velhos, os mais vulneráveis, os que vivem só ou em instituições.

Utilizar a ciência e a tecnologia de acordo com as necessidades, sem barreiras cronológicas, pode impedir o abreviar da vida dos idosos.

Por ser financiado por todos, o SUS não impõe distinções de idade, raça, cor, gênero ou renda. Para que possa sobreviver, o sistema exige o reconhecimento e defesa da sociedade.

Precisa também de mais investimentos e controles, em particular, na atenção básica, nos territórios de toda a cidade, articulando e compondo as políticas sociais que salvam vidas. Requer a escuta aos idosos para dar respostas às necessidades de uma sociedade que envelhece, muito além dos desejos do mercado ou do próprio estado.

O SUS é amigo de todas as idades por incorporar os princípios de universalidade: políticas públicas de saúde para todos; integralidade e integração dos serviços; e equidade —condições de igualdade e inclusão. Constrói redes de cuidados, seja para os mais ativos ou para os mais dependentes, promovendo autonomia e independência.

Precisamos, sim, de um SUS para envelhecer e viver melhor. Um sistema de saúde e não da doença, articulado a um sistema forte de proteção social, compromissado pela igualdade.

Nosso bom envelhecer pressupõe escolhas acertadas, do nosso comportamento no dia a dia à que fazemos na hora de votar. Quais são as suas?

Envelhecer e ter um sistema público de saúde não é benefício, é direito —e direito se conquista a cada dia. O caminho se faz caminhando.

Seção discute questões da longevidade

A nova seção Como Chegar Bem aos 100 é dedicada à longevidade e integra os projetos ligados ao centenário da Folha, a ser celebrado em fevereiro de 2021.

A curadoria da seção é do médico Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade (ILC) no Brasil e ex-diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde).

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