Descrição de chapéu Humanos da Folha tecnologia

Engenheiro ajudou Folha a se modernizar e atravessar transições tecnológicas

Pedro Pinciroli Júnior foi diretor-superintendente da empresa que edita o jornal por duas décadas

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

No início da década de 1980, quando os primeiros computadores foram instalados na Redação da Folha, o engenheiro Pedro Pinciroli Júnior logo percebeu que um dos obstáculos que precisaria enfrentar era a resistência dos jornalistas que preferiam continuar com suas velhas máquinas de escrever.

Elas pareciam insubstituíveis para os veteranos. Na máquina de Cláudio Abramo, que chefiara a Redação nos anos 1970 e agora era colunista do jornal, havia uma tecla quebrada que ele martelava pensativo sempre que a inspiração fugia. "Não posso abrir mão da minha máquina", dizia o jornalista a Pedro.

homem branco de cabelos grisalhos veste terno preto e posa para retrato
Pedro Pinciroli Jr., engenheiro que foi superintendente da Folha por mais de duas décadas - Zanone Fraissat - 29.out.2020/Folhapress

Diretor-superintendente da Empresa Folha da Manhã, o engenheiro não tinha motivo para se surpreender. Em três décadas de trabalho na empresa que edita o jornal, ele acompanhou de perto a introdução de várias novas tecnologias e acreditava que as desconfianças iniciais acabariam superadas com o tempo.

"As pessoas sempre se assustam com a evolução tecnológica num primeiro momento, mas assimilam as novidades e logo se engajam no processo quando veem as vantagens que elas trazem para o seu trabalho e ganham autoconfiança para fazer as coisas de um jeito novo", afirma Pedro, hoje com 76 anos.

Ele começou a trabalhar na Folha assim que se formou na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, em 1967. Começou como engenheiro de manutenção das máquinas de uma gráfica comercial que pertencia à empresa, a Companhia Lithographica Ypiranga, e logo foi transferido para o jornal.

O empresário Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), que adquirira o controle da Folha cinco anos antes, o chamou para modernizar a área industrial. O plano era não só investir em maquinário novo, mas introduzir métodos de administração mais eficientes, incluindo metas para avaliação de resultados e controle de custos.

A renovação do parque gráfico era uma prioridade, para aumentar a qualidade da impressão do jornal e multiplicar sua circulação. No ano em que Pedro chegou à empresa, a Folha foi o primeiro jornal do país a ser impresso pelo sistema offset, que permitia alcançar tiragens maiores e imprimir a cores.

Em 1971, a empresa deu outro salto ao abandonar a composição das páginas com tipos de chumbo e adotar o sistema eletrônico de fotocomposição, ganhando agilidade. Operários especializados na composição manual das páginas foram substituídos por profissionais capazes de operar os computadores.

Três anos depois, o jornal resolveu acabar com os revisores que conferiam os textos antes da publicação. "Levamos algum tempo para convencer a Redação das vantagens do novo sistema, porque muitos jornalistas temiam que seus erros seriam expostos no jornal com a mudança", conta o engenheiro.

O crescimento da Folha nesses anos também tornou necessária a reorganização dos fluxos de produção do jornal, com a antecipação dos horários de fechamento e a definição de prazos diferentes para as várias seções, com o fim de evitar que o trabalho na gráfica se acumulasse nas últimas horas do dia.

"Era uma bagunça", lembra Pedro. "As páginas desciam para a gráfica todas ao mesmo tempo, sufocando o pessoal, e às vezes os jornalistas iam até lá para mexer nos textos na composição." Com os novos fluxos estabelecidos, foi possível organizar o trabalho de forma mais eficiente, reduzindo atrasos.

O engenheiro passou a integrar a diretoria corporativa do grupo em 1979 e deixou a empresa no fim de 1999, quando se aposentou. Pedro tinha sob sua responsabilidade como diretor-superintendente todas as áreas da empresa, incluindo o Datafolha e o banco de dados do jornal, com exceção da Redação.

homem branco de cabelos pretos sentado em uma mesa de escritório; ele veste camisa branca e gravata e faz anotações em uma folha de papel
O engenheiro Pedro Pinciroli Jr., diretor-administrativo e industrial da Folha, em sala na sede do jornal, em São Paulo (SP) - Jorge Araújo - 05.fev.1986/Folhapress

Um episódio que marcou sua trajetória foi a invasão do prédio da Folha por agentes da Polícia Federal em março de 1990, poucos dias após a posse de Fernando Collor como presidente da República. Os agentes investigavam suspeitas de irregularidades no faturamento de anúncios publicitários do jornal.

Pedro e o então diretor financeiro da empresa, Renato Castanhari, foram levados à PF para depor. "Aquilo foi um golpe baixo, e a exposição indevida nos causou muita indignação", diz o engenheiro. "Nossos procedimentos eram os mesmos que outros jornais adotavam na época e não havia nada de errado".

Ele ainda estava na Folha quando a internet surgiu. Pouca gente vislumbrava a profundidade das transformações que ela provocaria nos jornais, mas Pedro foi um dos primeiros representantes da empresa a ter contato com o novo mundo que nascia, ao ser enviado numa missão aos Estados Unidos em 1995.

Junto com o jornalista Caio Túlio Costa e um engenheiro de sua equipe que conhecia a área, Pedro visitou algumas das maiores empresas de tecnologia da época, em busca de parceiros para desenvolver um novo negócio que explorasse as potencialidades da rede e a posição vantajosa da Folha no mercado.

O portal UOL foi criado em 1996, por iniciativa de Luiz Frias, atual publisher da Folha. Pedro foi o primeiro presidente do conselho de administração da nova empresa, acumulando a função com suas atividades no jornal, até se aposentar e deixar o grupo. A Folha tem participação minoritária e indireta no UOL.

PEDRO PINCIROLI JÚNIOR, 76

Engenheiro formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, começou a trabalhar na Folha em 1967. Responsável pela área industrial da empresa, passou a integrar a diretoria corporativa em 1979 e foi seu diretor-superintendente até 1999, quando se aposentou e deixou o grupo. Presidiu a Associação Nacional de Jornais e o conselho de administração do UOL. Jogou na seleção brasileira de polo aquático.

Este texto faz parte do projeto Humanos da Folha, que apresenta perfis de profissionais que fizeram história no jornal.

Humanos da Folha

Conheça a história de profissionais que trabalharam no jornal

  1. Com 50 anos de carreira, Passarelli ganhou Prêmio Esso de Fotografia inédito para a Folha

  2. Fotógrafo se consagrou com imagem das Diretas-Já que foi capa da Folha

  3. 'Era elogiada por fotografar igual a homem', lembra Renata Falzoni

  4. Entre patos e formigas, obra de Ciça compõe fábula política do Brasil

  5. Fotógrafo da Folha se consagrou com imagem histórica do general Costa e Silva

  6. Morre o jornalista Celso Pinto, criador do jornal Valor Econômico, aos 67 anos

  7. Fotógrafo da Folha escondeu filme para retratar sessão de eletrochoque em manicômio

  8. Morto há uma década, Glauco unia humor ácido e carinho por personagens

  9. Editora da Ilustrada fez caderno 'da cultura e da frescura' nos anos 70

  10. História de êxito de Mauricio de Sousa começou como repórter policial na Folha

  11. Clóvis Rossi estaria indignado com a realidade brasileira, diz filha

  12. Me viam como 'patricinha', diz Joyce Pascowitch, que inovou o jeito de fazer coluna social nos anos 80

  13. Elvira Lobato revelou poço para teste de bomba atômica e império da Igreja Universal

  14. Fortuna se consagrou como 'o cartunista dos cartunistas'

  15. Com estrela de xerife, Caversan ocupou diversos cargos de edição na Folha

  16. Erika Palomino inovou na cobertura da noite paulistana

  17. Niels Andreas fotografou massacre do Carandiru e 50 anos de Israel

  18. Natali foi correspondente em Paris e uniu música e trabalho

  19. Dona Vicentina trabalhou como secretária na Folha durante mais de 5 décadas

  20. Fotógrafo se destacou nas coberturas do massacre de ianomâmis e da prisão de PC Farias

  21. Cláudio Abramo ajudou a renovar Folha nos anos turbulentos da ditadura

  22. Ilustrações de Mariza levaram o horror do cotidiano para as páginas do jornal

  23. Irreverente, Tarso de Castro criou o histórico Folhetim nos anos 1970

  24. Veemência das charges de Belmonte irritou até o regime nazista

  25. Boris assumiu Folha na fase mais tensa e conduziu travessia do jornal para o pós-ditadura

  26. Engenheiro ajudou Folha a se modernizar e atravessar transições tecnológicas

  27. Lenora de Barros promoveu renovação gráfica na Folha nos anos 1980

  28. Antônio Gaudério colecionou prêmios com fotos voltadas às questões sociais

  29. Bell Kranz levou temas considerados tabus para a Folhinha e o Folhateen

  30. Com poucos recursos, Olival Costa fundou Folha da Noite em 1921

  31. Sarcástico e culto, Bonalume cobriu ciência e conflitos pelo mundo por mais de 30 anos

  32. Coletti foi 'carrapato' de Jânio e teve prova de fogo na cobertura da visita de De Gaulle

  33. Apaixonado por cinema, seu Issa foi um precursor dos anúncios de filme no jornal

  34. João Bittar foi o editor que ajudou a levar fotógrafos da Folha para o mundo digital

  35. Pacato, Lourenço Diaféria publicou crônica que gerou crise com militares

  36. Moacyr Scliar fantasiava realidade em crônicas inspiradas em notícias da Folha

  37. Pioneiro na divulgação científica, José Reis incentivou presença de pesquisadores na mídia

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.