Ininterrupto, jornalismo da Folha não fecha os olhos nem de madrugada

Edição em papel fica pronta no fim da noite; a digital é uma obra em eterno andamento

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Rio de Janeiro

Meia-noite. Bocejando, você espia seu celular pela última vez antes de dormir e ali está, como de costume, mais uma breaking news estralando nas redes sociais. Você abre o site da Folha e, de repente, está conectado com o mundo, este viralizante mundo em que vivemos.

Guerras. Debates políticos. Indicadores econômicos. Big Brother Brasil. Uma pandemia. E o presidente do seu país sugerindo que jornalistas enfiem uma lata de leite condensado numa cavidade do corpo.

Às 23h da véspera, Cristina Camargo, a repórter responsável por não deixar o jornal fechar os olhos nem de madrugada, toma um café para começar uma jornada que vai até 7h. Checa recados no email, monitora redes sociais, consulta sites do Ministério Público, vê se a concorrência deu alguma notícia relevante que Folha não tenha publicado.

Charge Fido para especial 100 anos. Nela uma pessoa sentada enfrente um notebook, de dentro dele saindo varias coisas.
Política, desastres, BBB, economia, Covid-19: cobertura jornalística da Folha é ampla e ininterrupta - Fido Nesti

Foi a altas horas, em janeiro de 2020, que ela detectou a internet agitada. Roberto Alvim, então secretário de Cultura do governo Jair Bolsonaro, protagonizava um vídeo em que parafraseava Joseph Goebbels, ministro da propaganda da Alemanha nazista. Publicou a informação antes de o sol raiar.

Terminado o expediente, Cristina vai para o cômodo ao lado e desaba na cama. Como a maioria dos cerca de 300 profissionais que compõem a Redação da Folha e do Agora, ela trabalha em home office desde o começo da pandemia de Covid-19.

É de casa que os editores que cuidam do site da Folha avaliam que reportagens têm relevância e potencial de audiência o suficiente para ganharem a manchete. É como decidir o que vai na capa do jornal impresso. “Só que ocorre a cada cinco minutos, o tempo todo, ‘non stop’, 24h por 7”, diz a editora de Digital e Audiência, Camila Marques.

Nove e meia da manhã. Reunião, a primeira de duas que a chefia do jornal (a secretaria de Redação, abaixo apenas do diretor de Redação) comanda ao longo do dia. Nesta, com os editores, faz-se uma rápida avaliação do último ciclo noticioso e se discute a produção do próximo.

Todos os jornalistas da casa recebem depois, no email, uma autocrítica interna, produzida diariamente pela secretaria, sobre o ofício. Um segmento, chamado “fomos bem vs. fomos mal”, lista gols e bolas foras. Outro levanta conteúdos interessantes que concorrentes publicaram, e nós, não.

Não é a única reflexão diária sobre nosso desempenho: há os boletins matutinos e vespertinos em que a ombudsman da Folha disseca a produção da véspera e do dia, em todas as plataformas. Você, leitor, lê aos domingos a análise de Flavia Lima a respeito do trabalho que vem sendo publicado.

A notícia não marca hora para chegar. Os veteranos lembram de uma certa reunião em que se debatia o espaço a ser dado para o assassinato, na noite anterior, do prefeito de Campinas, o Toninho do PT.

Era a manhã seguinte ao crime, 11 de setembro de 2001. A TV na sala onde essa conferência matutina acontecia exibiu um prédio em chamas em Nova York. Em tempo real, a equipe assistiu boquiaberta à segunda aeronave atingir mais uma torre do World Trade Center. A morte de Toninho quase que desapareceu do noticiário.

“A rotina em um jornal é não ter rotina, e isso faz parte do fascínio da profissão. Mesmo que muitas vezes tenhamos a sensação de que os problemas se repetem, a verdade é que estamos diariamente lidando com diversos assuntos e sendo desafiados a relatá-los da maneira mais clara e interessante possível”, diz Roberto Dias, um dos dois secretários de Redação.

Esta sala, com paredes de vidro no meio da Redação, não abriga mais as reuniões, pelo menos enquanto o coronavírus não der trégua. A rotina ficou mais barulhenta para alguns, com filhos pequenos que cismam em ser coadjuvantes nas reuniões por Zoom, e menos doce para outros, sem as delícias que a confeiteira Aninha vendia pela Redação. Um dos hits: Delação Premiada, um brownie recheado com Nutella.

Às vezes, os planos definidos nessas teleconferências azedam. Jornalistas costumamos brincar que os dias são tranquilos “até cair um avião”. Em geral, metáfora para um acontecimento bombástico. Até o dia em que é literal.

Roberto Dias lembra da queda do bimotor que transportava o ministro Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal. Era ele mesmo? Morreu? Ainda não estava claro. A apuração dos repórteres foi chegando, “e o negócio foi crescendo durante a reunião, até todo mundo sair correndo”.

A rotina em um jornal é não ter rotina, e isso faz parte do fascínio da profissão

Roberto Dias

Secretário de Redação da Folha

Os dias são corridos e, nessa manada noticiosa, erros podem acontecer. O jornal tem uma seção só para corrigi-los perante o leitor. Como quando, em vez de chamar Val Marchiori de socialite, a repórter escreveu socialista. A Folha errou, o leitor riu.

Os tempos digitais aceleraram a forma de fazer jornalismo. A repórter especial Cátia Seabra acompanhou essa guinada. Ela fala com meio mundo político: presidentes, ministros, parlamentares. Hoje, muitas vezes, pelo WhatsApp. Antes, quando nem celular existia, ligava para o telefone da casa de suas fontes, como definimos a pessoa que nos repassa uma informação a ser checada e, só aí, publicada.

Em 1992, quando Fernando Collor estava prestes a tombar, foi Cátia quem se estrepou. A irmã desligou o despertador, e ela perdeu a hora para uma entrevista coletiva de Itamar Franco (1930-2011), o vice do presidente às vias de sofrer um impeachment.

Sorte a dela que, naquela época, o leitor não tinha outra opção a não ser esperar: o jornal só chegava às bancas no dia seguinte. Cátia teve tempo de correr atrás da entrevista perdida. Ligou para fontes, para amigos repórteres que estavam lá, falou com Deus e o mundo para remontar tim-tim por tim-tim o encontro de Itamar com jornalistas. Acabou escrevendo a reportagem mais completa de todas.

Nos velhos tempos, em que o jornal de papel era soberano, o macete era possível. Hoje, Cátia (que nunca mais se atrasou para uma entrevista) produz o material o mais rápido que pode, equilibrando agilidade com acuidade. Se estiver na rua, digita direto do celular.

Algum editor pega o texto, revisa e publica. Desta vez é sobre outro impeachment, um processo contra o governador afastado do Rio, Wilson Witzel. Logo a notícia está no site da Folha, nas redes sociais, em grupos de WhatsApp.

Tudo passa pelo Gutenberg. É o nome da ferramenta do jornal para publicar textos, montar sua homepage e editar as centenas de imagens que recebe todos os dias, dos seus repórteres fotográficos ou de agências parceiras. É também nome do alemão Johannes Gutenberg, o “pai da imprensa”, que inventou, no século 15, a técnica de impressão que possibilitou a publicação em massa de textos.

A publicação em massa, hoje, é virtual. Em média, a Folha coloca no ar cerca de 200 conteúdos por dia, entre reportagens, colunas, podcasts, fotos, galerias e webstories. Cabe a José Henrique Mariante, à frente de um time de 13 pessoas, cuidar da versão impressa do jornal, ou seja, escolher o que vale a tinta a partir de um cardápio oferecido pelas editorias.

“Em um bom dia, temos mais de uma manchete. Em um ruim, nenhuma. É um exercício diário, administrar fartura e escassez”, conta Mariante.

Exemplo de dia bom: 11 de fevereiro de 2021, em que havia uma história exclusiva (“Ministério usou Fiocruz para produzir cloroquina”) e um fato relevante (autonomia do Banco Central aprovada). Dia ruim: 9 de fevereiro, “com manchete honesta, mas talvez de digestão complicada para o leitor” (“Valorização de ações se torna desafio a investidor”).

A edição em papel está pronta no fim da noite. A digital é uma obra em eterno andamento. Em 2001, quando a Folha completou 80 anos, o escritor Moacyr Scliar (1937-2011) escreveu um texto sobre 24 horas na vida deste jornal, ainda filhote no meio virtual, com atenção voltada ao chumaço de folhas que chegava na porta do assinante pela manhã.

Às 23h15, quando a plantonista da madrugada estiver a postos para uma nova jornada, todo o conteúdo que chegará às bancas no dia seguinte, e que não tiver sido publicado no dia anterior, já estará disponível na Folha.com. Quando, à meia-noite, você checar seu celular uma derradeira vez, Cristina Camargo terá bebido seu café e já estará de olho nos últimos acontecimentos porque, afinal de contas, o show tem que continuar.

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