Descrição de chapéu Fuga para a frente

'A gente não vê no jornalismo as coisas boas do Brasil', diz Luiza Trajano

Presidente do conselho do Magazine Luiza fala de fake news, cotas, política partidária e memes

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São Paulo

A empresária Luiza Helena Trajano, presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, sente falta de boas notícias em jornais e revistas, incluindo a Folha.

“Sei que dá mais ibope a notícia ruim, mas hoje a notícia boa também está dando ibope. A primeira vacina, por exemplo, que era uma notícia positiva, deu muito ibope”, diz ela, que ostenta o título de mulher mais rica do Brasil, segundo a revista Forbes.

mulher branca de cabelos pretos penteados em um coque está sentada em poltrona branca posando para retrato
A empresária Luiza Trajano em seu apartamento no bairro Jardim Paulista, em São Paulo - Eduardo Knapp - 05.nov.2020/Folhapress

Para ela, as pessoas têm buscado cada vez mais os veículos de imprensa para confirmar a veracidade de uma informação compartilhada nas redes sociais. “Acho que as fake news são um movimento que está começando a declinar", afirma a empresária em entrevista que integra a série Fuga para a Frente, parte dos projetos do centenário da Folha.

Trajano foi notícia em 2020 especialmente quando o Magazine Luiza anunciou que iria fazer um programa de treinamento voltado apenas para pessoas negras. Agora, ela quer fazer um processo seletivo voltado apenas para pessoas com mais de 50 anos. “Dá uma coisa legal a experiência com a juventude, mas isso é uma coisa minha ainda.”

Leia a entrevista ou assista ao vídeo.

Quais são os principais problemas do jornalismo brasileiro? 

Primeiro, é um prazer participar desse momento. Não é fácil fazer 100 anos e continuar na ativa como a Folha.

Eu vou falar primeiro do que é positivo. Sou muito agradecida ao jornalismo brasileiro. São guerreiros que trazem a informação e estão sabendo, depois de um momento difícil, trabalhar com o digital. Porque não é fácil você mudar toda a sua forma. Tanto a Folha quanto os outros órgãos estão se reinventando e conseguindo se reinventar.

Comecei falando das coisas boas, agora vou dizer o problema. Os veículos precisam aprender a fazer uma boa notícia. Sei que dá mais ibope a notícia ruim, mas hoje a notícia boa também está dando ibope. A primeira vacina, que era uma notícia positiva, deu muito ibope. Tem muita coisa boa que a gente não vê nos noticiários. Essas coisas boas do Brasil a gente não vê no jornalismo.

Além dessa questão da boa notícia, o que mais a senhora sente falta? 

Vocês até tentam ouvir os dois lados e nem sempre dá e nem sempre é tão transparente. Como eu sou muito conciliadora, acho importante escutar os dois lados. Essa poderia ser uma meta. Mas eu gosto muito e fico muito feliz com as notícias no Brasil. Eu tenho dois filhos que moram fora e vejo que a gente tem um noticiário rápido, preciso e consistente.

É interessante que agora tenho escutado cada vez mais assim: “Isso não é fake news porque eu li na Folha ou no Estadão”.

As pessoas voltaram a buscar informações nos veículos oficiais. Essa semana escutei umas oito vezes isso. Aquelas fake news, que eu tinha muita raiva, estão chegando ao fim.

Como combater as fake news? 
Como tudo, acho que é uma onda. É uma onda pesada, com uma inteligência atrás, que sabe o que está fazendo e que entrou muito forte na política com o ex-presidente [dos EUA Donald] Trump. Ele foi um dos precursores dessa mídia política.

Mas parece que começa a ter uma linha de declínio. Eu nunca espalhei nem fiquei espalhando aquilo que eu não tinha certeza. É um mal muito sério para a sociedade, informação ruim, montada, que até destrói.

Mas eu estou sentindo que as pessoas estão buscando fontes oficiais. Então, eu estou achando que está começando a declinar.

Já foi vítima?

Eu já fui meme. E é muito interessante. A primeira vez faz uns oito anos. Dei uma entrevista ao [programa] Manhattan Connection.

Eu tenho muito respeito pelo Diogo [Mainardi, um dos apresentadores], até porque eu sei como ele é como pai. Ele disse que segundo o Serasa a inadimplência ia aumentar e eu disse que tinha acabado de ver no relatório que não tinha aumentado. Nem falei Serasa para não desfazer. E perguntei se ele queria que eu mandasse um email e ele disse: ‘Me poupe’. No dia seguinte, estava em todos os veículos que o Serasa mostrava menor inadimplência.

Foi a primeira vez que eu me vi nessa situação. O que eu mais fiquei assustada na época, sem saber que era meme, eram as pessoas escrevendo e mandando cartas para ele no meu nome. Eu queria ter ligado para ele para dizer que não mandei nada. Me arrependo até hoje. Esse foi o primeiro fake que eu vivi, nem sabia que era fake.

Depois, vieram coisas legais. Eu caindo com a tocha [olímpica, em julho de 2016] foi divertido. Quando comprei a Netshoes, pegaram uma foto minha experimentando um tênis e escreveram: ‘Ela se empolgou e comprou a Netshoes’. Eu nunca me defendi de nada. Não sou de me defender nem de me irritar.

As redes sociais deram voz para pessoas que não tinham. Hoje toda pessoa pode ser um potencial gerador de conteúdo. Isso também contribui para essa propagação das fake news?

No interior, as pessoas falam: ‘Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza’. Quando abriu o conteúdo para todo mundo, todo mundo podia aparecer e se tornar protagonista.

Eu tenho dois filhos que moram fora e vejo que a gente tem um noticiário rápido, preciso e consistente

Luiza Trajano

Presidente do conselho do Magazine Luiza


Agora, eu estou percebendo que as pessoas começaram a selecionar o que estão vendo. Porque enjoa também. Ainda vai levar um tempo para equilibrar esse tipo de informação. Quando saiu o rádio, a minha família falava que era um fanatismo pelo rádio. Quando saiu a TV, ter uma notícia na TV era verdade. As coisas vão evoluindo, caindo no lugar. São movimentos que começam alto e depois caem no equilíbrio.

Em 2020, vocês ganharam o noticiário por conta do programa de trainees voltado apenas para negros. Como foi esse processo? 

Quebrar paradigmas era um costume nosso e a gente ia pagar o preço. Só a primeira porta que baixou o nível e foi o nível de inglês. Os outros critérios e dificuldades foram os mesmos.

O Frederico [filho de Luiza e atual presidente do Magazine Luiza] falou que estava impressionando pelo nível intelectual, com a capacidade de comunicação e resiliência. Muitas vezes ele teve que tirar o vídeo porque se emocionou ao ver que as pessoas ganhavam muito menos do que a capacidade. Agora ele tem que levantar a bandeira e mostrar o que sentiu. Ele é um jovem, técnico, digital, dizendo que se emocionou, dizendo que viu o nível intelectual.

Existe o projeto de continuar exclusivo só para negros neste ano?

Não sei. Estou querendo fazer um para a terceira idade. O pessoal está me pedindo muito. Não sei nem se é trainee, mas um movimento desse tipo para pessoas acima de 50 anos, gosto desse equilíbrio. Mas isso é uma coisa minha ainda.

Ainda é raro encontrar mulheres em cargos de liderança e nos conselhos das empresas. O Grupo Mulheres do Brasil, liderado pela senhora, tem trabalhado para isso?

Toda vida fui a favor de cota. Temos 7% de mulheres em conselho de empresa. Se tiver herdeira ou dona, como eu, cai para 4%. Falo para os meus amigos que se não houver mudanças, nem a bisneta deles vai estar no conselho se não for dona ou herdeira. Então vamos lutar.

Por outro lado, quando o financeiro abraça é muito importante. Quando o banco Goldman Sachs, em janeiro, falou que só ia abrir IPO de empresas que tivessem uma mulher no conselho, você não imagina como mudou. Quando o [mundo] financeiro abraça, dá um salto. Agora, estão procurando o grupo para indicação de mulheres para conselho. Mudou um pouco mais de dois anos para cá.

A senhora falou que é a favor de cotas. Quais as porcentagens ideais para equalizar essas diferenças? 

Cota é um processo transitório para acertar uma desigualdade. Sou a favor de cota porque quando saiu para pessoas com deficiência, nós já estávamos há 10 anos entre as melhores empresas para trabalhar, eu sempre fui voltada para o RH, mas nunca tinha olhado as pessoas com deficiência. Precisou de conta para que eu visse.

No começo, é difícil e hoje nossos deficientes dão exemplo nos momentos difíceis. É um processo transitório. Eu quero 40% de cota de mulheres, que é o que eu tenho no Magazine Luiza.

A gente vive um momento de polarização extrema. Falta diálogo com o governo atual? 

Eu sempre tive com qualquer governo do estado, da minha cidade. Sou apaixonada pelo país. Posso não votar no candidato, não quero nem saber se votei ou não, o que me interessa é o Brasil. Quando sou a favor de Bolsa Família, sou esquerda; quando sou da privatização, sou de direita. Nunca me filiei a nenhum partido e sempre procurei manter o diálogo e tenho até hoje.

A gente viveu no Brasil um período de muita esquerda, depois veio de muita direita e agora eu acredito que começa a entrar num equilíbrio. Não é que eu sou de um lado ou do outro, mas eu acho que tudo que é radical não é bom. Temos que ter um diálogo que conecta. As grandes transformações surgiram de sociedades civis organizadas e é essa a minha luta.


RAIO X

Luiza Helena Trajano

Formou-se na Faculdade de Direto de Franca, em 1972. Começou a trabalhar na empresa, então administrada pela sua tia, Luiza Trajano, aos 12 anos. Assumiu a Magazine Luiza em 1991, da qual é hoje presidente do conselho de administração.


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