Descrição de chapéu
Antonio Prata

Aqui pega bem falar mal da Folha

Darei um pouquinho desta alegria aos meus patrões: o que mais me irrita no jornal é a postura ranzinza

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Antonio Prata

Colunista da Folha, escritor e roteirista, é autor de “Nu, de Botas”.

Pediram-me para escrever uma crônica sobre a minha relação com a Folha. Disclaimer 1: quem me pediu foi a Folha. Disclaimer 2: eles pagam o meu salário. Disclaimer 3: em se tratando da Folha, talvez pegue bem falar mal do jornal. Disclaimer 4: mesmo com o emprego em risco, não darei esta alegria aos meus patrões.

Quer dizer, darei um pouquinho. Minha relação com a Folha é complexa —mas com que instituição não é? Se eu fosse descrever a relação com minha mulher, meus filhos, a Claro ou a padaria da esquina, também seria complexa.

Ilustração mostra jogador de beisebol em preto e branco em frente a um círculo rosa
Ilustração de Adams Carvalho para crônica de Antonio Prata para o especial de 100 anos da Folha - Adams Carvalho

Talvez porque o mundo tenha ficado muito desesperador, ler o jornal é a última coisa que eu faço, lá pelas duas da madrugada. Então, meu primeiro pensamento em relação à Folha é: a luz azul do iPad vai impedir a produção de melatonina e eu não vou conseguir dormir.

Meu segundo pensamento é: as notícias dos absurdos deste governo —muito bem cobertos pela Folha, diga-se de passagem— não me deixarão dormir. O terceiro, é: não vou conseguir dormir porque estarei escrevendo mentalmente uma coluna rebatendo o Pondé. Ou o Fernando Schüler. Ou o genial Demétrio Magnoli, com quem eu concordo sempre que não fala sobre questões raciais ou isolamento social.

Quando a Folha contratou o Reinaldo Azevedo, eu escrevi uma crônica chamada “Guinada à direita”, parodiando o discurso de uma direita raivosa que havia surgido na esteira dos governos Lula e Dilma. (O Marcelo Coelho, sempre brilhante, escreveu uma bem melhor, anos antes, sobre este mesmo tema).

Muita gente entendeu a paródia ao pé da letra e acabei sendo processado por racismo. A Folha me defendeu e tive que escrever ao juiz o texto mais absurdo e cômico que já redigi, esclarecendo que se tratava de ironia, que as cotas raciais não tinham levado os homens brancos brasileiros à mendicância, enquanto os cotistas lotavam as mesas do Fasano, que as vinhetas da Globeleza não tinham sido substituídas por drops de filosofia da Marilena Chauí e que os indígenas não haviam inviabilizado nosso agronegócio. Hoje o Reinaldo é meu amigo. Não sei se eu endireitei, se ele esquerdou-se ou se simplesmente amadurecemos.

Tenho um grupo de Zap com alguns colunistas da Folha. Em mais de uma noite o Thiago Amparo avisou por ali que no dia seguinte, em sua coluna, vinha chumbo grosso contra mim. Mentira, o Thiago nunca é grosso, mas ele bate de frente, sem deixar a ironia de fora.

Não acho prazeroso, mas acho bonito, porque é muito comum e nocivo o compadrio entre intelectuais e artistas brasileiros: é uma forma de corrupção. Thiago me lembra que a gente tem que falar a verdade quando não gosta de um texto, um filme ou matéria de um amigo.

Sempre que discordo da Folha, mando textão pro amigo Sérgio Dávila, diretor de Redação. A resposta dele, invariavelmente, é: “Escreve sobre isso." Bem, é o que eu estou sendo pago para fazer aqui.

O que mais me irrita na Folha é uma postura ranzinza, às vezes, como se não gostar fosse mais inteligente do que gostar. Como se notícia fosse descobrir o defeito da realidade.

E todo ano sou convidado a falar isso para os trainees, que em breve integrarão a Redação do jornal. Digo que se a Folha cobrisse a performance do John Lennon e da Yoko, deitados na cama contra a guerra do Vietnã, a manchete seria: “Com pés chatos e calcanhares sujos, Lennon e Yoko protestam contra a guerra”.

Também escrevo ao Sérgio quando concordo com um editorial pela descriminalização do aborto, da maconha, contra a violência policial, a desigualdade. A série especial sobre muros pelo mundo, a série sobre imigrantes, o amarelo pela democracia, a cobertura espetacular do coronavírus. As tiras da Laerte.

Pela Folha vi o Corinthians ser campeão mundial no Japão, vi Bolt correr nas Olimpíadas de Londres e presenciei a comédia dell’arte dos 7 x 1. A Folha me emprestou seu prestígio, me abriu portas, me trouxe amigos pro resto da vida.

Acredito que a soma de Guilherme Boulos com Marcos Lisboa pode nos levar a um país melhor. Por isso seguirei aqui, batendo e apanhando (às vezes assoprando, também), matando a melatonina com a luz azul do iPad, até que me substituam por um novo cronista de doze anos de idade. (A Folha tem dessas, também.)

Agradeço ao Sérgio pelo convite para escrever no jornal, às redatoras do Cotidiano que semanalmente me salvam da humilhação pública, corrigindo meus “erroz hortográphicos”, aos leitores e aos jornalistas da casa, que fazem todo dia o jornal mais importante do Brasil, mantendo aceso um fosforozinho de esperança na borda deste buraco negro que tenta engolir o país. Se os próximos 100 anos forem mais luminosos, a batalha diária da Folha certamente terá contribuído para isso.

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