Descrição de chapéu Como chegar bem aos 100

Como chegar bem aos 100

Longevidade depende de escolhas, conhecimento e preparação

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Alexandre Kalache

Médico gerontólogo, presidente do Centro Internacional de Longevidade no Brasil (ILC-BR)​

São Paulo

A Folha atravessou seus 100 anos testemunhando a Revolução da Longevidade. Em 1920, a esperança de vida ao nascer (EVN) no Brasil não passava de 40 anos. Chegamos hoje a 77. Quase o dobro. São 37 anos a mais de vida, não de velhice.

Em tão pouco tempo, um estalar de dedos em relação à história da humanidade. Revolucionário. Afinal, Houaiss define revolução como “uma grande transformação, mudança sensível de qualquer natureza provocando mudanças profundas na sociedade”.

Para contextualizar, dos tempos do Império Romano até 100 anos atrás a EVN tinha aumentado meros dez anos. E o filósofo romano Cícero (106 a.C.-43 a.C.) já nos avisava então: “Não há nada de errado quanto ao envelhecimento ou as pessoas idosas, e sim nossa atitude em relação a eles”. E acrescentou: “Os jovens têm diante de si o desafio de talvez envelhecerem. Os idosos já o ultrapassaram”.

As dezenas de 0 a 100, embaralhadas e sobrespostas. São em cor azul, sendo o número 100 mais forte. O fundo é azul claro.
O homem nunca viveu tanto tempo como agora. Há chance verdadeira de chegar a comemorar um centenário, como a Folha - Núcleo de Imagem

Nisso, estamos, nós os idosos, em vantagem absoluta. Mas é preciso ver-se como “idoso”. Passaram-se mais de 2.000 anos desde Cícero para que outro livro seminal abordasse o envelhecimento de forma abrangente. E haveria de vir de uma feminista, observando seu companheiro Sartre, envelhecido.

Simone de Beauvoir, em “A Velhice”, nos ensina a importância da ressignificação das etapas de vida. O velho tem dentro de si o jovem de ontem. E o jovem, o velho de amanhã.

Abaixo o preconceito contra os idosos, o idadismo. E, da mesma forma que não basta não ser racista, é preciso ser antirracista, é preciso também ser anti-idadista. Sermos ativistas, denunciarmos toda manifestação que nos infantilize, que nos tire a autoestima, que nos bote para baixo.

Para isso é necessário busca de conhecimento, discernimento, revisão de nossos valores. Nada fácil em um país onde se cultua a juventude, o hedonismo, o prazer imediato. Em que o elogio maior a uma pessoa é perguntar-lhe a idade e logo declarar “não parece”.

Chegar bem à longevidade depende de escolhas, conhecimento e preparação. Comece já. Quanto mais cedo melhor, nunca é tarde demais. Quem começa o processo cedo terá maiores ganhos, mas sempre haverá algum ganho.

Década após década, há muito que pode ser feito rumo à maratona em que a vida humana se transformou. Antigamente se acreditava que a longevidade em boas condições dependia de “escolher bem seus pais”. Hoje sabemos que a genética só contribui com um quarto da chance de bem envelhecer.

Nossas escolhas e estilos de vida pesam muito mais. No entanto, em um país tão desigual, não culpemos aqueles que não puderam se cuidar, escolher onde morar, usufruir de um trabalho digno. São vítimas, não culpados.

O que fazer, década por década, para chegar bem aos 100

  1. Até os 10 anos

    Você já nasce nove meses velho. Portanto, tudo começa com um pré-natal bem feito. Até os cinco anos, é tempo de brincar, de ter estímulos cognitivos, muitos! Na escola começa o aprendizado que deve seguir ao longo da vida. Nada de “não gosto de verdura”. E sem perder nenhuma vacina.

  2. Dos 10 aos 20 anos

    Década delicada. Os hábitos e estilos de vida se consolidam. Cuidado com as drogas, inclusive álcool e tabaco. Sua estrutura física se forma agora. Atividade física e olho na balança. As amizades para o resto da vida se criam agora.

  3. 20 a 30 anos

    Sabemos que está difícil, mas tente entrar com o pé direito no trabalho. O mundo anda violento. Cuidado, inclusive com acidentes. E, se vai se casar... escolha bem!

  4. 30 a 40 anos

    Complicado, não? Os conflitos, filhos e carreira. Múltiplas demandas —as mulheres nesta década sabem bem. Não pare de aprender (nunca). Trabalho anda precarizado, então amplie as opções.

  5. 40 a 50 anos

    Opa, está caindo a ficha... ”Já não sou tão jovem”. As mulheres percebem logo, a menopausa vem aí. Enquanto isso, os homens se iludem: não são máquinas indestrutíveis.

  6. 50 a 60 anos

    O ninho ficou vazio, a aposentadoria está chegando e eu joguei todas as fichas nisso. Está na hora de buscar novos interesses. Continue curioso e siga aprendendo. Aprender a aprender, sempre.

  7. 60 a 70 anos

    O melhor lugar para um aposentado é sair do aposento. Não há nada mais moderno do que envelhecer. Para muitos, vai ficar difícil virar pai (ou mãe) dos próprios pais. Calibre o pneu: faça exames médicos regularmente.

  8. 70 a 80 anos

    Agora você tem o que sempre se queixou faltar: tempo. Se tiver recursos e vitalidade, realize seus sonhos. Caso contrário, reveja seu estilo de vida. Está na hora de adaptar sua casa... nunca se sabe. E, lembre-se, vacinas não são só para as crianças.

  9. 80 a 90 anos

    Mantra: envelhecer é bom, morrer cedo é que não presta. Lute contra a solidão: amplie suas atividades sociais e de aprendizagem. E outro mantra: prepare-se para a longevidade, quanto mais cedo melhor, mas nunca é tarde.

  10. 90 a 100 anos

    Você chegou lá, apesar das perdas pelo caminho. Mostrou resiliência. Muitos amigos se foram, sua energia já não é a mesma, as opções diminuem. Mas, lute por seus direitos, sobretudo não permita que te infantilizem. Segure firme na autoestima.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.