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De 'teen' a 'saia justa', Folha inventou e popularizou expressões

Colunas de Joyce Pascowitch, Erika Palomino e Paulo Francis inauguraram termos usados até hoje

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São Paulo

Há 30 anos, Ayrton Senna levava o terceiro mundial, tinha início a Guerra do Golfo, e a banda R.E.M. promovia o hit “Losing my Religion”. Um mundo tão prolífero em manchetes demandava alguém que as entregasse a um público que já não lia o suplemento infantil do jornal, mas que também ainda não era cativo dos outros cadernos.

Nascia, então, o Folhateen, que, de 1991 a 2011, cuidou dos leitores jovens do jornal —adolescentes, em português; “teens”, no idioma dos EUA. O empréstimo tomado do inglês foi motivo de forte debate na época do lançamento.

Entre aqueles que ajudaram a colocar o caderno de pé estavam Suzana Singer, hoje editora do Núcleo de Treinamento/Debates, Álvaro Pereira Junior, repórter de ciências que se tornou colunista, e o atualmente repórter Thales de Menezes. E todos eles lembram: Folhateen foi um nome difícil de emplacar com a chefia.

A escolha não era anglófila a troco de nada. Queria-se, antes de tudo, fazer um trocadilho, mesclando o termo gringo ao nome Folhetim, suplemento de ideias publicado pela Folha até 1989. Como resultado, Folhateen não só foi aprovado como também cunhou um termo de maneira definitiva fora do jornal.

“Antes de 1991, não existia ‘teen’ para falar de adolescentes. Começou o suplemento, e o termo se popularizou tanto que virou nome de revista, virou substantivo e adjetivo usado por todo o mundo. Foi um sucesso danado, algo que a Folha espalhou pelo Brasil inteiro”, lembra Thales de Menezes.

Colunista social do jornal por 14 anos, Joyce Pascowitch também já vinha criando e popularizando expressões desde sua estreia, em 1986. Ficaram famosas as suas designações de membros da família dos presidentes da República, como “primeiro-filho” e “primeiro-genro”, por exemplo.

“Lasanha” classificava homens bonitos. “Saia justa” já definia o climão bem antes de haver programa na TV com o mesmo nome.

Os substantivos “culturette”, “milionette” e “dasluzette” serviam para falar, respectivamente, de quem era assíduo em exposições e concertos, dos ricos, e das vendedoras e clientes da butique Daslu, templo high society da época, e que fechou as portas em 2016.

Joyce garante que os retratados não se aborreciam. “Não era algo debochado, era apenas enquadrado de uma outra maneira, um outro olhar. Eu acho que a criação de vocábulos ou palavras é algo sempre saudável e bem-vindo”, avalia.

“Embora dê ampla liberdade para colunistas, o jornal não pode abrir mão de sua responsabilidade jornalística. O ‘Manual da Redação’ indica quais situações são problemáticas: basicamente, erros factuais e conteúdos que possam dar margem a processo judicial. Expressões que estejam dentro dos limites da crítica social e política, por exemplo, não são um problema”, explica Uirá Machado, secretário-assistente de Redação e coordenador da Comissão do Manual da Redação.​

Para ele, uma das expressões que o jornal ajudou a consagrar é o “outro lado”, que é o registro dos argumentos da parte potencialmente afetada por uma reportagem.

“Essa expressão era ausente da paisagem do jornalismo brasileiro até os anos 1980. Uma vez criada e adotada pela Folha, a expressão, que é também uma prática, logo passou a ser utilizada por outros veículos de comunicação. Esse princípio representou um ganho de qualidade para a imprensa brasileira”, lembra.

Até onde se sabe, o ex-governador Geraldo Alckmin nunca pediu um “outro lado” pelo “picolé de chuchu” de José Simão, apelido famoso que, segundo o colunista, já foi mal interpretado pelo leitor. “Muitas pessoas acham que é sinal de fraqueza. Mas é porque ele é sem graça, não tem carisma nem sabor”, esclarece.

Simão é pai de várias expressões que nasceram nas páginas da Folha. “Buemba, buemba”, talvez a mais célebre delas, é uma adaptação do bordão de outro antigo colunista.

“Eu copiei do Ibrahim [Sued]. Nos anos 1960 se usava muito isso, de dizer que as notícias eram uma bomba. Dei uma escrachada, uma latinizada. Daí pegou. Eu estou na rua e as pessoas gritam ‘Buemba!’. Durante 20 anos, essa expressão foi só da Folha, depois levei para o meu programa da Band News”, diz Simão.

É dele também o “Esculhambador-Geral da República”. “Este foi um título pomposo que me dei”, resume. E, sempre que as coisas estão surreais, como Simão define, ele saca do teclado o “colírio alucinógeno, o melhor para enxergar o Brasil”.

Morto em 1997, aos 66 anos, Paulo Francis publicava em sua coluna “O Diário da Corte” notinhas sobre assuntos diversos, que iam do cenário político aos bastidores do teatro. Um dos nomes mais famosos da Folha entre 1977 e 1990, Francis tinha como bordão o “Waaal”, aplicado sempre que achava algo absurdo.

Erika Palomino, por sua vez, conduziu a coluna “Noite Ilustrada” de 1992 a 2005, na qual imprimia muito do que ouvia na comunidade LGBTQIA+. “Para mim era muito orgânico, porque era o jeito que a gente falava. Eu queria trazer o léxico das pessoas da noite. Uma hora, todo mundo absorveu”, recorda.

Nas páginas dela, tinha sempre um “ferver”, um “lesado”, “carão”, “sair do closet”, “tombar”, “trucão”, “uó”, e, duas das expressões mais assíduas, “montada e, por consequência, montação”. “A palavra ‘clubber’ eu tive que dar uma entrevista para explicar”, conta, rindo.

“Foi transformador para o país, porque foi uma mudança do comportamento jovem que o jornal estava acompanhando. A Folha sempre teve esse perfil de dar lugar para o novo, uma personalidade jovem e irreverente.”

Expressões que nasceram ou se popularizaram na Folha

Buemba

José Simão

Substantivo feminino, usado como interjeição. 1. Versão latina do “Bomba” do jornalista Ibrahim Sued (1924-1995); 2. Aviso de notícia urgente. Convém repetir, “Buemba, Buemba”, para frisar o caráter extraordinário.


Colírio alucinógeno

José Simão

Expressão. Fórmula especial de colírio para aplicação exclusiva em solo brasileiro, diante de qualquer notícia considerada surreal.


Culturette

Joyce Pascowitch

Substantivo. Aquele que frequenta assiduamente exposições, concertos, balés e outras manifestações artísticas.


Dasluzette

Joyce Pascowitch

Substantivo. Nome aplicado àqueles que trabalham ou são clientes da antiga boutique Daslu.


Esculhambador-Geral da República

José Simão

Substantivo composto. Cargo oficial e autoproclamado do colunista José Simão na República do Brasil.


Ferver

Erika Palomino

Verbo intransitivo. 1. Divertir-se; 2. Sair à noite; 3. Aproveitar um evento social sem se preocupar com o amanhã.


Lasanha

Joyce Pascowitch

Substantivo masculino. Homem bonito.


Montada

Erika Palomino.

Adjetivo. Relativo à pessoa que se arrumou e/ou se maquiou com afinco, às vezes de maneira extravagante.


Milionette

Joyce Pascowitch

Substantivo. Pessoa rica.


Outro lado
​Expressão. Registro jornalístico dos argumentos da parte potencialmente afetada por uma reportagem.


Picolé de chuchu

José Simão

Locução substantiva. Forma como o colunista José Simão se refere ao ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin.


Primeiro-filho

Joyce Pascowitch

Substantivo composto. Diz-se do filho de um presidente da República.


Primeiro-genro

Joyce Pascowitch

Substantivo composto. Diz-se do genro de um presidente da República.


Saia justa

Joyce Pascowitch

Expressão. Situação embaraçosa, constrangedora.


Sair do closet

Erika Palomino

Expressão. Ação de assumir publicamente a homossexualidade.


Teen
Substantivo (estrangeirismo). 1. Termo usado para se referir a adolescentes; 2. Na Folha, passou a ser usado com a criação do caderno Folhateen, em 1991.


Tombar

Erika Palomino

Verbo intransitivo ou transitivo direto. Destacar-se, humilhar adversários, impressionar os outros.


Erika Palomino

Adjetivo. Algo ou alguém insuportável, desagradável.


Waal

Paulo Francis

Interjeição. Modo de demonstrar assombro diante de fatos absurdos.


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