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Folha, 100 Cartas para o futuro

Filmes em casa, museus online e artistas distantes geram pessimismo inevitável

Plataformas virtuais podem prevalecer, mas não substituem experiências in loco

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Úrsula Passos

Repórter da Ilustrada, coordena o Clube de Leitura Folha e o Encontro de Leituras, parceria do jornal com o português Público, e é mestre em filosofia pela USP.

Este texto faz parte da série Cartas para o Futuro, em que colunistas, repórteres e editores da Folha imaginam os cenários das suas respectivas áreas de atuação em 2031

Cara leitora, caro leitor de 2031,

Já faz quase um ano que não vou ao cinema. Você tem ido? Eu amava ir aos cinemas de rua de São Paulo, tomar um café antes da sessão, encontrar sem querer um conhecido na fila da bilheteria. Mas veio a pandemia, e eu só vi filmes em tela grande em drive-ins, formato que, esquecido por anos, voltou a dar as caras. Duraram pouco, porém. Imagino que agora os cinemas de rua sejam ainda mais raros do que são em 2021, tentando sobreviver à pandemia e ao sofá.

ilustração de busto neoclássico com óculos de cinema 3D
Com cinemas, museus e teatros fechados, é difícil ser otimista em relação à cultura - Catarina Pignato

Vocês ainda vão ao cinema em 2031? Ou desistiram de enfrentar os celulares e relógios iluminados numa sala cheia de gente e resolveram comprar uma televisão maior e ver os filmes em casa, pausando para o xixi ou para fazer uma pipoca? O sob demanda venceu, não foi, leitor? Uma maravilha, tudo como você quer, na hora que você quer, não é leitora?

Para que sair de casa se é possível assistir a qualquer filme no conforto do seu lar? Mas, pergunto, aqui de 2021, está fácil ver um Hitchcock? Ai, leitor, me diz que em 2031 vai ser mais fácil encontrar os filmes do Jia Zhang-ke ou do Wong Kar-wai no streaming, legalmente, sem pirataria. Essa sim aposto que não mudou, a pirataria, uma forma ilícita de tentar driblar a curadoria de serviços sob demanda que, para lucrar, precisam atender à demanda da maioria.

Daqui de quando escrevo, em pandemia, sem visitar um museu há quase 12 meses, sem assistir a uma peça, sem ver um show ou um concerto, sem abraçar meus amigos, eu vislumbro um 2031 mais medroso e mais egoísta, no qual o compartilhamento, não simultâneo, será de carros, de casas, mas não de momentos de fruição de uma música, não de sentimentos diante da arte, porque simultâneos.

As bibliotecas emprestarão mais arquivos para aparelhos digitais de leitura do que livros. Acabou o desafio de ler um volume já todo grifado por um irresponsável que o antecedeu.

Daqui de quando escrevo, em pandemia, sem abraçar meus amigos, eu vislumbro um 2031 mais medroso e mais egoísta

Úrsula Passos

Repórter da Ilustrada e coordenadora do Clube de Leitura Folha

Está caro viajar para fora do país, imagino, então ver a Monalisa no Louvre ou um Caravaggio na galeria Borghese é ainda mais difícil do que já era para o brasileiro dos anos 2010. O fim da aura se completou, e tudo bem conhecermos as grandes obras da humanidade por visitas online, quem sabe usando óculos de realidade virtual.

Proliferam eventos em grandes galpões com projeções de detalhes bruxuleantes de pinturas das quais nunca nos aproximamos “de verdade”. Música de elevador ao fundo. O que importa, afinal, é a experiência, clamam os críticos, que atacam o elitismo dos que defendem os museus com obras “de verdade” —se a verdade e o real já não são mais tão importantes em 2021...

Os museus dependem de seus defensores, e de poucos da elite, para seguirem abertos ao público e com seus acervos após a pandemia —a pandemia acabou, né, leitor?— já que venderam e leiloaram importantes peças para uma outra elite, que as guarda a sete chaves em palácios e barcos.

Sabe, leitora, o Brasil tinha entrado há alguns anos na rota das principais turnês de grandes músicos.

Paul McCartney vinha quase todo ano, Elton John esteve aqui algumas vezes, estávamos na crista da onda, com festivais de vários dias cheios de bandas famosas —mas a preços bastante salgados a bem da verdade. Com a pandemia, porém, a galinha dos ovos de ouro ficou sem ouro e o país, pobrinho, pobrinho, voltou a invejar os shows dos Estados Unidos e da Europa.

É, leitor, só resta a você seguir seu artista favorito numa plataforma de música online. Ou colecionar pôsteres e CDs com belos encartes voltou à moda?

Entenda, leitor, que daqui de quando escrevo, está difícil ser otimista.

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