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Leia discurso de homenagem de Otavio Frias Filho ao pai, Octavio Frias de Oliveira

Tenho um pai iluminista sem saber que é, disse jornalista em evento em 2002

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Em 25 de fevereiro de 2002, o jornalista Otavio Frias Filho fez um discurso em homenagem ao seu pai, Octavio Frias de Oliveira —publisher da Folha de 1962 até sua morte, em 2007— durante a inauguração da Cátedra de Jornalismo Octavio Frias de Oliveira na Fiam (Faculdades Integradas Alcântara Machado), em São Paulo.

Leia a íntegra do discurso.

Falar sobre o próprio pai é uma tarefa difícil. Quase todo filho idealiza seu pai. Um filho que faz ressalvas em relação ao pai bem merece o epíteto de "ingrato". E um filho que, ao contrário, elogia seu pai não faz mais que a obrigação.

Falta-lhe, além disso, isenção para elogiar alguém tão querido e tão próximo. Repetirá os lugares-comuns que todo filho diz sobre o pai. Se o pai em questão é alguém que adquiriu notoriedade em sua área de atuação, como é o caso, então a tarefa se mostra quase impossível.

O então publisher da Folha, Octavio Frias de Oliveira, ao lado do diretor de Redação, Otavio Frias Filho, no nono andar do prédio do jornal, em São Paulo - João Wainer - 24.mar.06/Folhapress

Não é por acaso que Cordélia, a filha exemplar de Shakespeare, quando perguntada sobre o que tinha a dizer sobre seu pai respondeu: “Nada." Instada uma segunda vez a se pronunciar, repetiu ainda: “Nada."

Shakespeare, que não desperdiçava falas, quis deixar bem clara a natureza moral da negativa de Cordélia. Felizmente não sou Cordélia e meu pai é quase o exato oposto do pai que dá seu nome àquela tragédia. Não é rabugento, como aquele, nem nunca foi despótico. Nada tem da melancólica mistura de vaidade e ingenuidade do pai de Cordélia. Não ambiciona o ócio como ele e uma aposentadoria tranquila e caprichosa. Ao contrário.

Penso que a admiração que hoje em dia cerca meu pai, atravessando de uma ponta a outra o espectro de opiniões, tem a ver com sua vitalidade, com sua disposição para continuar a trabalhar, a se interessar pelas coisas e a aprender.

Meu pai está hoje com 89 anos e segue seu ritmo de trabalho habitual. Participa de reuniões, acompanha planos de investimento, controla orçamentos, dá ideias de pautas, lê e copidesca editoriais. Até há poucos anos, ele seguia montando a cavalo, hábito ao qual somente renunciou depois de um apelo coletivo da família.

Como não é tarefa fácil falar sobre ele, vou me esquivar de discorrer sobre sua atuação como empresário, como personalidade da imprensa, como figura pública. De sua conduta pessoal, vou me ater a destacar dois aspectos apenas. Esses aspectos, além de me fascinarem, sempre me deixaram quase intrigado. É em tom de confidência, portanto, estranha confidência em público, que eu os abordo aqui.

O primeiro deles é que meu pai é um puritano. Essa definição soaria para um homem como ele um insulto. Meu pai despreza os puritanos, por achá-los hipócritas, e seria difícil alguém menos hipócrita que meu pai. Estou vendo daqui a cara de aborrecimento dele, entediado com nossa homenagem e agora contrariado por ser, ainda por cima, chamado de puritano e pelo próprio filho.

Meu pai fala palavrões, considera-se agnóstico e não é indiferente aos prazeres da mesa. E, às vezes, demora-se eventualmente a observar uma mulher que passa pelo recinto. O tema ainda é objeto de admoestações por parte da minha mãe. Não posso dizer que eles não briguem muito, sempre brigaram aliás. Mas outra coisa que me intriga é como é possível que duas pessoas tenham superado as vicissitudes do casamento a ponto de atingirem um estágio de comunhão e, não há outra palavra, de amor, que a maioria de nós dificilmente chegará a conhecer.

E, no entanto, ele é um puritano. É puritano nos hábitos austeros, quase espartanos. É puritano no apego à verdade, apego que só não é obsessivo porque é nele algo espontâneo e natural. É puritano em seu horror de causar dano a quem quer que seja e no costume, rigorosamente observado, de jamais falar mal de ninguém, mesmo de um outro desafeto.

O outro aspecto que pretendo mencionar é que sua inteligência viva e concreta, atributo que ninguém foi capaz de lhe negar, não se contém nas convenções. Não cabe nas hierarquias. Meu pai sempre foi irônico em relação a padres e militares. Peço perdão pela gafe se houver algum na sala.

Ele não acredita em nada exceto no mérito pessoal. Estruturas burocráticas, para ele, tendem a ser incompetentes. Ordens hierárquicas servem apenas para fomentar a mais tola vaidade. Verdades estabelecidas são quase sempre fantasias. Toda retórica, para ele, é ilusão.

Exibicionismo, no estilo narcisista tão em voga em nossos dias, é algo que ele desconhece. Nem mesmo a preocupação com a própria imagem, que em proporções razoáveis é normal em todo ser humano, tem um lugar importante na vida do meu pai.

Ele sempre gostou de fazer coisas. Coisas práticas e úteis. Conheceu altos e baixos na vida, ficou mais sábio por causa disso. Respeita o saber, a cultura e os livros, sou testemunha disso. Embora nunca tenha escondido que essa não é a área em que ele vai melhor. Sua ideologia, se posso chamá-la assim, sempre foi: Encontre sua vocação e faça o melhor que puder. Seja livre para ser feliz.

É o conselho que ele sempre teria dado aos filhos, se ele fosse de dar conselho. Não é.

Cedo, aprendi a conviver com a dúvida e o debate porque tenho um pai que é iluminista sem saber que é. É duro ser filho de um pai assim. Meus irmãos e eu ainda estamos tentando. Felizmente, ele continua conosco, cheio de amor pela vida e entusiasmo por qualquer novidade.

Quase todos os pais são, por definição, o melhor pai do mundo. Desculpem-me tomar o tempo de vocês para dizer duas, das várias razões, pelas quais o meu é.

Em 25 de fevereiro de 2002, o jornalista Otavio Frias Filho (1957-2018) fez este discurso em homenagem ao seu pai, Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), na inauguração da cátedra de jornalismo com o nome do então publisher do jornal na Fiam (Faculdades Integradas Alcântara Machado), em São Paulo.

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