Descrição de chapéu Humanos da Folha

Moacyr Scliar fantasiava realidade em crônicas inspiradas em notícias da Folha

Autor gaúcho manteve coluna Cotidiano Imaginário, em que escrevia 'histórias que esqueceram de acontecer'

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Porto Alegre

Um menino em situação de rua, órfão e faminto decidiu imitar o som de gatos para conseguir comida. Chamava-se Miau. Ele escutou a história de uma senhora que alimentava felinos esfomeados e o garoto viu uma oportunidade de matar a fome.

“Foi até o parque, escondeu-se atrás de um arbusto. Pouco depois, apareceu uma senhora, trazendo um cesto. É ela, pensou, e de imediato começou a miar, um miado inspirado, o melhor miado que já produzira. A senhora deteve-se; olhou em direção ao arbusto, não viu gato algum, mas convencida de que ali deveria estar um felino faminto depositou no solo uma generosa ração. Miau esperou que ela se afastasse e mais do que depressa atirou-se ao alimento. Era comida para gato, claro, mas muito saborosa”.


O escritor gaúcho Moacyr Scliar (1937-2011), imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), escreveu o trecho acima em uma das suas colunas publicadas na Folha.

Judeu, filho de imigrantes, Scliar foi médico e autor do romance “O Centauro no Jardim”, um dos seus livros mais elogiados pela crítica, e de coletâneas de contos, como “O Carnaval dos Animais”.

Suas crônicas na Folha eram publicadas nas segundas-feiras, na editoria de Cotidiano, na seção “Cotidiano Imaginário”, que estreou nos anos 1990 e seguiu até pouco antes da morte do autor.

Os textos fantasiosos de Scliar, porém, eram inspirados em notícias reais publicadas na Folha. A crônica sobre o garoto de rua que se passava por um gato para comer, por exemplo, foi inspirada em uma notícia sobre uma moradora de São Paulo que alimentava bichanos no parque Trianon e chegava a gastar R$ 800 mensais, em valores de 2004, para manter os felinos de barriga cheia.

Descobri que, atrás de muitas notícias, ou nas entrelinhas destas, há uma história esperando para ser contada, história essa que pode ser extremamente reveladora da condição humana

Moacyr Scliar

Escritor e autor da coluna Cotidiano Imaginário

Dois meses antes da sua morte, em dezembro de 2010, escreveu um texto natalino baseado na notícia da editoria de Mercado sobre a valorização do cachê dos Papais Noéis com barbas verdadeiras, contratados para eventos de final de ano.

Scliar, então, imaginou um homem que decide deixar a barba crescer e é rejeitado pela mulher com quem era casado há mais de 30 anos. “Um dia ele voltou para casa triunfante. ‘Você sempre detestou a minha barba’, disse, ‘pois fique sabendo que existe alguém que a admira’. Esse alguém era a dona de uma loja de brinquedos”, escreveu.

Na crônica, a bonita dona de loja acabou seduzindo o homem para roubar sua barba. Um final surpreendente como aquele de muitos dos seus contos.

Deonício Brunette (esq.), 72, representante de venda e Antônio Noronha, 58, motorista se vestindo como Papai Noel na Cia do Bafafá; a foto ilustrou reportagem de 2010 que inspirou coluna de Moacyr Scliar na Folha
Deonício Brunette (esq.), representante de venda, e Antônio Noronha, motorista se vestindo como Papai Noel na Cia do Bafafá; a foto ilustrou reportagem de 2010 que inspirou coluna de Moacyr Scliar na Folha - Carlos Cecconello - 8.dez.2010/Folhapress

Scliar definiu suas crônicas na Folha como “histórias que esqueceram de acontecer”. “Em geral acreditamos que existe uma nítida linha divisória entre o real e o imaginário, entre o fato e a ficção: territórios claramente demarcados em nossas vidas”, escreveu em 2009, no prefácio do livro “Histórias que os jornais não contam” (L&PM, 2017), com 54 de suas crônicas publicadas no jornal.

O autor gaúcho contava que apesar de comumente se inspirar em algum episódio ou personagem real para seus textos ficcionais, “não estava preparado para a verdadeira aventura que teve início” quando foi convidado pela Folha para escrever as crônicas baseadas em notícias.

“Descobri que, atrás de muitas notícias, ou nas entrelinhas destas, há uma história esperando para ser contada, história essa que pode ser extremamente reveladora da condição humana”, escreveu.

A viúva do escritor, Judith Scliar, conta que o marido escrevia com muita velocidade e pontualidade, muitas vezes entregando seus textos antes do prazo. “O texto fluía do cérebro dele direto para o teclado. Claro, depois ele revisava. Tinha de repente ideias, aqui e ali, a partir de coisas que ele vivia e fazia. No início, ele sempre anotava algumas coisas importantes. Depois, ele se deu conta de que o que era importante, ficava, o assunto chamava o escritor”, disse Judith.

De acordo com ela, Scliar não tinha um ritual de escrita, como muitos autores. Além de escritor, Scliar era médico. “Ele não era disciplinado, escrevia em qualquer lugar, no aeroporto esperando voo, ele pegava o laptop. Quando íamos para a praia com nosso filho e a casa ficava cheia de crianças, ele se concentrava. Tinha uma viagem interior e o entorno não atrapalhava”, revela a viúva, responsável pela divulgação e preservação da obra do marido.

“Scliar tinha uma linguagem despojada e criou um estilo próprio, o que nem sempre os escritores conseguem. Ele usou uma linguagem elíptica, que sempre deixa um espaço em branco para o leitor, o texto não fica totalmente sugerido”, explica Sergius Gonzaga, professor de literatura brasileira da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e coordenador de literatura da Secretaria de Cultura de Porto Alegre.

Aos novos leitores que querem conhecer Scliar, Gonzaga sugere o romance “Centauro no Jardim”. “Acredito que tenha sido seu maior êxito como romancista, traduzido em inúmeros países. É emblemático dessa tendência fantástica que muitas de suas obras apresentam, uma vinculação com o mundo kafkiano”, diz o professor.

Ele estaria muito indignado e até revoltado com o que está acontecendo no Brasil, que tem longa experiência em vacinação em massa. Ele trabalhou muito com saúde pública. Ele estaria estarrecido, sem acreditar no que está acontecendo

Judith Scliar

Viúva do escritor

Quando a Folha completou 80 anos, em 2001, Scliar acompanhou e descreveu 24 horas da rotina do jornal. “Sete horas da manhã. Bocejando, você abre a porta do apartamento e ali está, como de costume, o seu exemplar da Folha. Você senta à mesa, xícara de café na mão e, de repente, você está conectado com o mundo, este trepidante mundo em que vivemos”, escreveu.

Médico, diante da pandemia de Covid-19, certamente escreveria sobre o tema. “Ele estaria muito indignado e até revoltado com o que está acontecendo no Brasil, que tem longa experiência em vacinação em massa. Ele trabalhou muito com saúde pública. Ele estaria estarrecido, sem acreditar no que está acontecendo”, diz a viúva.

Em 2001, Scliar descreveu o ambiente da Redação com “reproduções de históricas primeiras páginas e suas manchetes”. “Jânio renunciou. Anunciado o acordo de paz no Vietnã. Polícia federal invade Folha. Impeachment! Acidente mata Ayrton Senna. Brasil é tetra... A História, com H maiúsculo, está ali, há 80 anos", escreveu. Agora, em 2021, a história está ali, há 100 anos.

Este texto faz parte do projeto Humanos da Folha, que apresenta perfis de profissionais que fizeram história no jornal. ​ ​

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