Repórter narra Erramos cômico que cometeu na Ilustrada há mais de 20 anos

Há 38 anos Folha corrige sistematicamente erros de informação; veja casos excêntricos

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São Paulo

Lá se vão 38 anos que a Folha faz correções sistemáticas de erros, desde o início do projeto de modernização concebido por Otavio Frias Filho, o Projeto Folha, iniciado em 1983.

Naquela década, as correções ainda eram feitas nos próprios cadernos onde se originavam. Foi a partir do aniversário de 70 anos do jornal, em 1991, que as notas foram reunidas na página 3, abaixo do Painel do Leitor, sob o nome de Erramos.

Reprodução da primeira seção Fixa do Erramos, de 17 de fevereiro de 1991. Há erratas para três textos do jornal. A primeira diz "O Guia do Leitor, em sua primeira página, erra ao indicar a Ilustrada como 6º caderno e Esporte como 5º. A Ilustrada é o quinto caderno e Esporte hoje circula como sétimo caderno". A segunda, "Está errada a data de nascimento da prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, publicada hoje na Revista'd, à pág. 13, no "clip". A prefeita nasceu em 1934 e não em 1943, como está publicado. Por fim, a terceira diz "Em reportagem no caderno Cidades, edição do dia 12/02, pág. C-5, a Folha extraiu trechos de um documento com o logotipo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que fora enviado ao seu correspondente em Manaus, e indevidamente os atribuiu a d. Augusto Rocha. De fato, d. Augusto Rocha nunca prestou declarações sobre, o assunto à Folha".
Primeira publicação da seção fixa Erramos, em 17 de fevereiro de 1991, como parte do novo projeto editorial e gráfico da Folha - Acervo Folha

À parte erros mais comuns, como os de grafia, contas malfeitas e trocas de nome, desfilaram pela seção correções das mais curiosas e engraçadas. A mais famosa, provavelmente, é a do jornalista da Ilustrada que escreveu, em 1994, embalado pela correria do fechamento, que Jesus Cristo havia morrido enforcado.

Pois eu também, quando repórter daquele caderno, fui responsável por um Erramos digno de figurar na galeria dos mais ridículos: “Em parte dos exemplares da Ilustrada da edição de 22/3/1999, na pág. 6-1, sob o título ‘Repercussão’, o cineasta Rogério Sganzerla foi erroneamente identificado como sendo protagonista do filme ‘Laranja Mecânica’”.

É um erro muito estranho mesmo... Como é possível achar, mesmo por um momento, que um cineasta do movimento paulistano conhecido como Boca do Lixo tenha sido o ator principal de uma das obras-primas do norte-americano Stanley Kubrick? Um personagem, aliás, que ficou famosíssimo na pele do inglês Malcolm McDowell?

O ator Malcolm McDowell em cena do filme 'Laranja Mecânica' (1971), dirigido por Stanley Kubrick. Ele usa chapéu coco preto. Seu rosto está levemente inclinado para baixo, seus olhos azuis claros olhando para cima. Tem cabelo castanho claro cobrindo as orelhas. Tem pele branca, veste camisa branca e suspensório cinza. Um de seus olhos está maquiado.
O ator Malcolm McDowell em cena do filme 'Laranja Mecânica' (1971), dirigido por Stanley Kubrick - Divulgação

Vou tentar explicar. O dia 22 de março de 1999 era o seguinte à entrega do Oscar e, naquele ano, estávamos orgulhosamente concorrendo em duas categorias: ao Oscar de filme estrangeiro com Central do Brasil, de Walter Salles, e ao de melhor atriz, com Fernanda Montenegro, em atuação pelo mesmo filme.

Perdemos os dois, mas a expectativa era tamanha que montamos uma operação de guerra para o caso de vencermos. Eu e outros dois repórteres ligamos previamente para algumas personalidades e combinamos que voltaríamos a ligar, lá pela 1h da madrugada, para que comentassem a respeito da vitória ou derrota dos brasileiros.

Rogério Sganzerla foi uma delas e, anunciados os dois prêmios, lá estava eu telefonando para o cineasta. Ele declarou: “Estava torcendo pelo nosso. ‘A Vida é Bela’ tem um tipo de sentimentalismo cômico e patético. A gente viu na comemoração do Benigni a papagaiada que ele fez, subiu nas cadeiras”.

Rogério Sganzerla aparece sentado em um sofá estampado. Ele é branco, tem cabelos escuros penteados para trás, veste blaer claro, camisa rosa clara, calças cinzas. Ele aparece falando e gesticulando com a mão. Seu colarinho da camisa está aberto até quase o meio do peito. Ele está em uma varanda. Ao fundo, vê-se a encosta de um morro com floresta e prédios.
O cineasta Rogério Sganzerla - Publius Vergilius - 01.dez1998/Folhapress

Ao lado da de outras oito pessoas, essa frase entrou num quadro chamado repercussão na capa da Ilustrada. Mas era preciso identificar quem era quem, e Sganzerla era “cineasta”.

Acontece que, no software de texto que a Folha usava (ainda hoje é assim), era preciso inserir manualmente comandos diferentes e relativamente complexos para cada estilo: o nome da pessoa era em negrito, sua ocupação vinha em outro estilo de letra, depois a frase em outro ainda, e por aí vai.

Para facilitar esse processo e não errar, nós costumávamos copiar outro texto que já tivesse esses estilos todos já digitados, bastando então escrever por cima o nome, a ocupação e a frase dos entrevistados. Foi o que fiz.

E que texto eu fui copiar? O da repercussão da morte de Stanley Kubrick, que havia ocorrido 15 dias antes do Oscar. Naquele texto, havia uma declaração de Malcom McDowell, protagonista de “Laranja Mecânica”, lamentando a morte do diretor.

Na correria do fechamento, com a secretária de Redação gritando nas minhas costas “desce!” (jargão para a página ser encaminhada para a gráfica), eu enviei o texto tendo tido tempo apenas de mudar o nome do entrevistado. Minutos depois, enviei o texto correto, mas não houve tempo para trocar as chapas de impressão.

E, em parte dos exemplares daquele dia, o erro foi publicado –e corrigido em um cômico Erramos cinco dias depois. ​

Reprodução da seção de correção de erros da Folha, da data de 27 de março de 1999. Nela, entre outras erratas, lê-se a seguinte: "Em parte dos exemplares da Ilustrada da edição de 22/3, na pág. 6-1, sob o título "Repercussão", o cineasta Rogério Sganzerla foi erroneamente identificado como sendo protagonista do filme "Laranja Mecânica".
Reprodução da seção erramos de 27 de março de 1999 - Acervo Folha

13 Erramos para a sua diversão

  1. Diferentemente do que foi publicado no artigo "Divina autocrítica" (Opinião, 2/1/2000, pág. 1-2), a Bíblia relata que o homem foi criado primeiro por Deus, e não a mulher. No mesmo texto, o autor escreve que o homem teria sido criado a partir de uma costela. Segundo a Bíblia, o homem foi criado a partir de uma porção de barro, e a mulher, a partir de uma costela.

  2. Diferentemente do que foi publicado em 29/11/1997, na pág. 5-7 (Folhinha), o tatu não nasce de um ovo. Ele é um mamífero placentário, que se desenvolve na barriga de sua mãe.

  3. Identificação de foto à pág. 3-12 (Esporte) de 25/7/1997 descreveu uma paisagem com “plantações de vinho”, o que não existe. O certo é vinha, videiras ou vinhedo.

  4. Artigo publicado à pág. 1-21 (Mundo) da edição de 24/8/1997 errou ao traduzir o nome próprio japonês Kenyo por Alberto. O nome não tem tradução.

  5. Getúlio Vargas se suicidou, e não foi assassinado, como informou incorretamente o texto “‘Getúlio’ compõe imagem do estadista que marcou o Brasil" (Ilustrada, 26/1/2015, pág. E4)

  6. O texto-legenda “Banho frio”, publicado em partes dos exemplares da edição de 18/1/2006 (Mundo, pág. A10), deu a entender que a temperatura da piscina que uma russa se banhava era de -20ºC, quando, na verdade, essa era a temperatura do ar.

  7. A reportagem “Lula critica ‘jogo rasteiro’ e diz que a verdade vencerá” (Brasil, pág. A4, 21/8/2005) reproduziu erroneamente parte de declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a preocupação de seu governo com o povo pobre. O correto é “neste momento histórico”, e não “neste momento histérico”.

  8. A espécie de tartaruga tigre-d'água-americano possui manchas vermelhas na cabeça, e não uma orelha vermelha, como informou erroneamente o texto “Tartarugas são retiradas da República” (Cotidiano, pág. C8, 9/3/2006). Tartarugas não têm orelhas.

  9. No segundo parágrafo da coluna “Mas que calor, ooô, ooô” (Opinião - 08/02/2014 - 03h30), publicada na versão impressa e no site da Folha, Alá (Deus) foi erroneamente chamado de profeta. O texto foi corrigido.

  10. Na edição do Agrofolha de 15/12/1992, a coluna “A Arte de Amolar o Boi” saiu com um erro: onde se lê “o grego Malandro”, leia-se “o grego Menandro”, em referência ao comediógrafo ateniense. Menandro (342-292 a.C.) escreveu “O Misantropo”.

  11. O nome do maestro Eleazar de Carvalho saiu grafado errado, sem a letra “v”, na edição de ontem do caderno Brasil (5/7/1994)

  12. O quadro que acompanhou a reportagem “Cirurgia forçada não tem consenso entre médicos” informou incorretamente que o bebê nascido em Torres (RS) tinha 3.650 quilos. O peso correto é 3,65 quilos. (25/4/2014)

  13. Diferentemente do que foi publicado à pág. 1-14 (Brasil) da edição de 19/3/1995, a Segunda Guerra Mundial começou em 1939, os EUA entraram na guerra em 1941, a Guerra dos Seis Dias foi em 1967, o presidente Richard Nixon (EUA) renunciou em 1974, Margaret Thatcher assumiu o poder no Reino Unido em 1979, o Muro de Berlim caiu em 1989, e o Iraque invadiu o Kuait em 1990.

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