Sem Trump, jornais vão perder audiência, afirma Seymour Hersh

Vencedor do Pulitzer fala sobre mudança de poder nos EUA e os desafios no futuro do jornalismo

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Washington

Seymour Hersh sabe que o mundo mudou, mas gosta de brigar com isso todos os dias.

Aos 83 anos, um dos jornalistas investigativos mais importantes de sua geração diz que hoje falta tempo e dinheiro para os repórteres conseguirem boas histórias.

O jornalista Seymour Hersh está sentado em uma mesa de madeira com uma lousa atrás. Ele está de camisa com manga dobrada, lê um jornal e há um copo em sua frente, sobre a mesa
O jornalista Seymour Hersh em visita à Universidade de Lehigh - Christa Neu - 3.out.2013/Lehigh University Communic

“Você precisa se encontrar com as pessoas, não dá para fazer por telefone”, sentencia Hersh ao exaltar o que chama de “era de ouro do jornalismo”, quando podia passar meses dedicado a uma mesma reportagem.

Em entrevista via Zoom, que o incomoda um pouco menos, como parte da série dos 100 anos da Folha, o jornalista americano admite que ainda não vê solução para o fortalecimento de uma imprensa séria e de qualidade, mas, apesar das transformações, acredita que o jornalismo profissional vai sobreviver.

“Ficará tudo bem. Vai ser online e vai ter reportagem investigativa. Só vai ser diferente, e o fato de eu não gostar significa apenas que sou da Idade das Trevas. Nada além disso.”

Hersh diz que não se interessou em escrever sobre Donald Trump, pois já havia muita informação disponível sobre o ex-presidente e, justamente por isso, avalia, o republicano foi “o maior benefício” para a imprensa americana nos últimos quatro anos.

“O que vai acontecer agora é que a mídia, inclusive os principais jornais, vai perder muita audiência porque Joe Biden vai acalmar as coisas. [...] Você ainda terá os problemas, mas não terá os mesmos leitores.”

No fim da década de 1960, Hersh fez história ao revelar o massacre de My Lai, durante a Guerra do Vietnã, o que lhe rendeu o prêmio Pulitzer de 1970. Ele tinha apenas 32 anos e, depois, seguiu carreira especializado em geopolítica e cobertura das áreas militar e de inteligência dos EUA, passando pelas redações dos prestigiados jornal The New York Times e revista New Yorker.

Em 2004, tornou pública as torturas em Abu Ghraib, no Iraque, e, em 2015, desmentiu a versão oficial sobre a morte de Osama Bin Laden, num artigo que saiu na London Review of Books —grandes veículos em que Hersh já tinha trabalhado não quiseram publicar a história, muito questionada pelo uso de fontes anônimas.

Em seu livro “Repórter" (ed. Todavia, 2019), o jornalista diz que a história será o juiz de seu trabalho recente.

Leia a entrevista ou assista ao vídeo.

Em seu livro mais recente, o senhor diz que é um sobrevivente da “era de ouro do jornalismo.” O que mudou e do que mais sente falta daquela época? 

Dinheiro. Eram muitas páginas por dia no jornal, com anúncios, anúncios gráficos, [verba para] vestidos e ternos... Tudo isso acabou. Era um mundo diferente. Foi uma experiência incrível meu primeiro dia de trabalho [no jornal The New York Times]. Eu já tinha feito algumas coisas boas sobre o Vietnã e os militares, trabalhava na New Yorker, um ótimo emprego, mas o New York Times era o New York Times.

E, no meu primeiro dia, em 1972, os norte-vietnamitas fizeram uma grande ofensiva contra o governo fantoche do sul e eu era o cara que conhecia as questões vietnamitas. Então, o editor veio até mim e disse: ‘Você está com o seu passaporte?’. Eu tinha acabado de chegar, ia passar uma semana me ajustando em Nova York. E eu disse que não, e ele respondeu: ‘Vá para casa e pegue [o passaporte]. Depois, vá para o escritório, eles darão tudo o que você precisa, chegue a Paris amanhã para descobrir o que está acontecendo nas conversas de paz e nessa ofensiva.’

Voei de volta para Washington, peguei meu passaporte e fiz a mala. Antes de partir, recebi cartões de crédito e uma pilha de dinheiro. Voei de classe executiva, fiquei num hotel cinco estrelas que não sabia o quão caro era até pedir um copo de suco de laranja que custava o equivalente a US$ 9 (R$ 48). Era assim que funcionava o negócio do jornal.

Ninguém nunca me perguntou nada até 2011. Eu estava na New Yorker, queria encontrar uma fonte na Califórnia e simplesmente liguei para o escritório e disse: ‘Me comprem uma passagem.’

Logo o editor me ligou e disse: ‘Você pode fazer isso por telefone?’ E eu respondi: ‘Do que você está falando?’ Ele disse: ‘Acabei de sair de uma reunião do departamento financeiro [...] O dinheiro está desaparecendo.’ Aquela foi a primeira vez que percebi que existe uma mudança. Com a internet, os anúncios e a publicidade acabaram.

Mas o maior benefício para os jornais e televisão nos últimos quatro anos foi Trump. Os jornais ainda não têm anúncios, mas conseguiram mais leitores online.

O senhor diz que não dá para ser neutro ou imparcial no jornalismo. Como isso é possível?

Não, você não pode ser neutro. Eu me lembro de estar em um painel com um homem realmente muito bom, Leonard Downie Jr., que foi editor-executivo do The Washington Post [de 1991 a 2008], e ele foi questionado se o repórter de jornal pode ser objetivo. E ele disse: ‘No The Washington Post, temos uma regra, você não pode ir a manifestações.’ E acrescentou: ‘Eu não voto porque não quero que ninguém saiba se sou democrata ou republicano.’

Eu fiquei louco e disse que aquilo era a coisa mais maluca que eu já tinha ouvido. Temos que votar, somos cidadãos e, claro, temos emoções e sentimentos. E isso funciona para mim porque eu odiava muito a Guerra do Vietnã, aprendi muito sobre isso e aprendi a odiar isso, o que me fez perceber que, quando fazia as reportagens, tinha que ser muito mais minucioso.

Em outras palavras, não há nada de errado em ter paixão por alguma coisa. Você deve ter sentimentos que conduzem a reportagem e fazem com que ela tenha um padrão ainda mais elevado porque você sabe que sua paixão pode ser vista como desvantagem.

O discurso racista de Trump abriu uma janela para a imprensa cobrir questões de raça e imigração com mais intensidade. Essa janela vai se fechar com a saída de Trump ou a imprensa e os americanos vão fazer menos pressão sobre esses assuntos durante o governo Biden?

Não acho que vai ser menos importante, acho que provavelmente haverá essa cobertura. O que vai acontecer é que a mídia, inclusive os principais jornais, vai perder muita audiência nos próximos um ou dois anos porque Joe Biden vai acalmar as coisas. Você ainda terá os problemas, mas não terá os mesmos leitores.

Avalia que a imprensa americana compartilha da responsabilidade no caos político e social sob o qual os EUA vivem nos últimos anos? 

Acho que compartilhamos, mas não o criamos. Compartilhamos ao não reportar o suficiente sobre o outro lado. Os principais jornais e emissoras de TV não nos deram informações suficientes sobre esse mundo de fascismo, extremismo, antiamericanismo, racista, anti-governo, essa incrível onda de 48%, 50% das pessoas que querem se desengajar.

Não estávamos preparados para os ataques ao Congresso [feitos por apoiadores de Trump em 6 de janeiro], não sabíamos até que ponto havia tanta alienação.

O senhor disse que não conseguiria ter feito o que fez se tivesse que trabalhar com as ferramentas do jornalismo hoje: repórteres têm menos tempo, menos dinheiro e fazem menos viagens para trabalhar. O seu tipo de jornalismo está morrendo ou ainda temos espaço para fazê-lo?

Há dois problemas com o tipo de trabalho que faço. Um é que custa dinheiro viajar e passar seis, sete ou oito meses em um projeto. Os jornais ainda fazem algumas coisas boas porque sempre há repórteres inovadores que fazem boas reportagens.

Mas há também um complicador pessoal. Na minha velhice, vamos chamar assim, me dei conta que posso entrar em uma Redação, despejar um monte de documento sobre a mesa e dizer: ‘Essa é a reportagem que quero fazer. Vai ser difícil, vai custar muito dinheiro, muito tempo para verificar e checar tudo, e vamos perder leitores, seremos processados, mas quero fazer.’ Quem precisa de alguém assim? (risos).

Sem dinheiro não é possível fazer esse jornalismo? 

Você precisa encontrar pessoas, não dá para fazer por telefone. Mas temos coisas interessantes acontecendo no jornalismo, algumas não entendo completamente porque são tão populares, como os podcasts, que têm feito jornalismo de longo prazo.

O senhor não gosta de podcasts?

Tenho três filhos adultos, conhecem todos os podcasts, conversam sobre eles, mas eu faço a pergunta: ‘O que é um podcast?’ [...] Enquanto isso, você vê os anúncios sumindo dos jornais.

Com exceção dos grandes jornais, como Washington Post, Wall Street Journal e New York Times, acho que o resto, em dez anos, será exclusivamente online.

Ficará tudo bem. Vai ser online e vai ter reportagem investigativa. Só vai ser diferente, e o fato de eu não gostar significa apenas que sou da Idade das Trevas. Nada além disso

Seymour Hersh

Jornalista

Acredita que fazer as pessoas pagarem pela informação online —via paywall, por exemplo— é um bom jeito de manter o jornalismo profissional vivo ou a gratuidade deixa tudo mais democrático? 

Odeio paywall. Quando eu estava na New Yorker, escrevia três reportagens por ano, mas trabalhava meses em cada uma e pedia que elas não tivessem paywall. Mas eu cresci num mundo diferente e acho que a geração mais jovem é mais aberta a isso. Então talvez seja uma solução, mas não sei quanto de dinheiro você consegue arrecadar com isso para que funcione. É uma estrutura totalmente diferente agora, ainda está no ar, não está pronto. Estamos passando por grandes mudanças. E todos tivemos uma pausa.

Trump deu a todos quatro anos de folga, quando não estávamos preocupados com paywall porque todo mundo queria ler sobre Trump.

Agora, quero que um bilionário compre um jornal para mantê-lo vivo? Acredito que eles vão fazer uma grande investigação sobre problemas de saúde, Covid-19 entre trabalhadores? Não. Quero que o governo seja dono do jornal? Não. Então, qual é a solução para ter uma imprensa séria e de boa qualidade? Não sabemos ainda.

O senhor avalia que a democracia é ameaçada quando líderes como Jair Bolsonaro e Donald Trump atacam constantemente a imprensa?

Isso é mais extremo do que o normal. O presidente de seu país [Bolsonaro] é extremamente radical. Vocês vão sobreviver se o próximo [presidente] não for tão fanático. Aqui [nos EUA] é a mesma coisa. Estamos num mundo completamente diferente agora [com Biden].

O autoritarismo estava crescendo no mundo, os ataques à imprensa funcionaram, com certeza, por um período, mas não pode ficar pior. A imagem tem que ser otimista porque todos podem ver agora o que não podiam ver há 30, 40, 50 anos. Não estou tão preocupado com isso.

Ficará tudo bem. Vai ser online e vai ter reportagem investigativa. Só vai ser diferente, e o fato de eu não gostar significa apenas que sou da Idade das Trevas. Nada além disso.


RAIO X

Seymour Myron Hersh, 83

Filho de imigrantes lituanos e poloneses, Hersh nasceu em 1937 na cidade de Chicago. Após abandonar a faculdade de direito, iniciou sua carreira como jornalista no City News Bureau, com passagens por diversos veículos. Em 1969, noticiou o massacre de civis no vilarejo de My Lai, durante a Guerra do Vietnã, trabalho pelo qual venceu o Prêmio Pulitzer.

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do que foi publicado, Seymour Hersh tinha 32 anos quando revelou o massacre de My Lai na Guerra do Vietnã, reportagem que lhe rendeu o prêmio Pulitzer, e não menos de 30. Nascido em abril de 1937, o texto foi publicado em novembro de 1969.  A informação foi corrigida.

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