Talentos chegam em safras anuais para renovar a Redação

Desde 1988, programa de treinamento da Folha —mais acirrado que o vestibular para medicina na USP— seleciona futuros repórteres

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São Paulo

​O Programa de Treinamento em Jornalismo Diário é uma das principais portas para profissionais, formados ou prestes a se formar em qualquer curso superior, entrarem na Folha.

O treinamento existe desde março de 1988 e já teve 64 turmas gerais, sem contar as direcionadas a áreas específicas, como saúde e fotografia.

Participantes da 17ª turma do Programa de Treinamento durante entrevista
Participantes da 17ª turma do Programa de Treinamento durante entrevista - Folhapress

No modelo atual do curso, os participantes têm aulas de jornalismo diário, dados, língua portuguesa, direito e economia por três meses, além de criarem um projeto final —espécie de TCC publicado no jornal ao fim do período.

O programa é concorrido. Na última turma, de junho a setembro do ano passado e realizada online por causa da pandemia, houve 3.388 inscrições para 20 vagas. A taxa candidato-vaga, portanto, foi de 169,4. Para efeito de comparação, a relação foi de 129,46 para o vestibular de medicina da USP, conhecido pela alta concorrência, em 2019.

As inscrições para a próxima turma, também online, estão abertas até o 21 de março. O programa será destinado a profissionais negros. O critério de cor é a autodeclaração.

Participantes da 24ª turma do Programa de Treinamento na Redação do jornal
Participantes da 24ª turma do Programa de Treinamento na Redação do jornal - Cesar Itibere/Folhapress

“Nossa preocupação no momento é, pelo programa, contribuir para aumentar a diversidade na Redação”, afirma Suzana Singer, atual responsável pelo Treinamento. Interessados podem se inscrever em treinamento.folha.com.br/programadetrainee.

Embora não haja garantia de vaga no jornal ao final do curso, a Folha frequentemente incorpora trainees em seus quadros. Dos cerca de 250 profissionais atualmente na Redação da Folha, 77 foram trainees, o que representa 31% do total. Quatro editores —de Ciência, Esporte, Ilustrada e Imagem— passaram pelo programa. Todos os quatro membros da Secretaria de Redação, cargos que ficam abaixo somente do diretor de Redação na hierarquia do jornal, foram trainees.

“A Folha é uma empresa de cultura interna muito forte, com tudo que deve ser praticado no dia a dia bem demarcado no Manual da Redação, e acho que o treinamento apresenta isso de maneira muito clara. É um ótimo choque nesse sentido”, diz Roberto Dias, secretário de Redação, membro do programa que começou no fim de 1997.

Participantes da 27ª turma do Programa de Treinamento no último dia do curso
Participantes da 27ª turma do Programa de Treinamento no último dia do curso - Jorge Araújo/Folhapress

Vinicius Mota também é secretário de Redação. Primeiro ex-trainee a alcançar o posto, em 2010, lembra-se de como o programa o ajudou a conhecer melhor o jornalismo. Ele é graduado em ciências sociais.

“Não me formei na área, então, para mim, foi uma escola para conhecer a disciplina. Nesse sentido, o programa foi muito prático, útil, aprendi técnicas de apuração, de verificação e até questões para melhorar a escrita”, diz ele, trainee entre o fim de 1998 e o início de 1999.

Formado em direito e filosofia, Uirá Machado, secretário-assistente e trainee em 2003, diz que aprendeu a ser repórter na prática, depois do programa, mas o treinamento o ajudou a ser um bom redator. “Lembro de um anúncio na São Francisco [faculdade de direito da USP]. Ali, já sabia que não queria seguir a carreira jurídica”, relembra.

Participantes da 28ª turma do Programa de Treinamento
Participantes da 28ª turma do Programa de Treinamento - Jorge Araújo/Folhapress

“Eu era leitor assíduo e estava achando tudo uma grande novidade. Tinha interesse por absolutamente tudo. O mais legal para quem estava começando era ver quem já estava lá havia muito tempo e poder trabalhar junto, ter proximidade com quem eu lia”, diz o também secretário-assistente José Henrique Mariante, da turma de 1991, então recém-formado em engenharia.

Até chegar aos atuais três meses de duração, o programa foi crescendo e incorporando disciplinas e atividades ao longo dos anos.

“Era tudo diferente. Bem focado no jornalismo em si. Não tinha aula, acho que só de português, e durava três semanas. Os exercícios eram fictícios, lembro que entrevistamos o Boris Casoy fingindo que ele era o presidente”, afirma Ana Estela de Sousa Pinto, atual correspondente da Folha em Bruxelas.

Ela participou da primeira turma, em 1988, e coordenou o treinamento durante 15 anos, de 1997 a 2012.

Participantes da terceira turma do Programa de Treinamento em Jornalismo Gráfico da Folha
Participantes da terceira turma do Programa de Treinamento em Jornalismo Gráfico da Folha - Folhapress

“Uma coisa que sempre achei fundamental foi levar os trainees para sentir o trabalho na Redação. Eles passavam cerca de dez dias alternados acompanhando um redator ou repórter. Isso é muito importante para criar laços e diminuir a insegurança, que é normal quando se é novo”, afirma.

Ana diz ainda que o jornal sempre valorizou e investiu no programa, mesmo em momentos problemáticos. “Houve várias crises nas quais ficava evidente a preocupação dos donos de não deixar o treinamento ser afetado”, relembra.

A convivência na Redação citada por Ana é considerada por Sylvia Colombo, trainee em 1993 e atual correspondente do jornal em Buenos Aires, a etapa mais importante.

“Era ótimo assistir a tudo, ver como uma ideia nascia de manhã e ia se transformando ao longo do dia. Os jornalistas experientes também davam dicas de leitura”, conta.

Participantes da 37ª turma do Programa de Treinamento
Participantes da 37ª turma do Programa de Treinamento - Pedro Azevedo

Fabiano Maisonnave, trainee em 1998 e hoje correspondente da Folha em Manaus, lembra que, quando prestou a prova, participar do programa era o maior desejo para quem queria ser jornalista. A Folha acabara de publicar reportagem de Fernando Rodrigues sobre a compra de votos a favor da emenda da reeleição, o que Maisonnave considera “talvez o maior furo do jornal”.

Quanto ao programa em si, recorda-se de um aspecto específico que julga muito positivo. “Lembro-me do meu padrinho do treinamento, que lia meus textos e depois comentava pessoalmente. Era um privilégio”, afirma. Seu padrinho (um profissional da casa que acompanha e orienta jovens jornalistas) era Marcelo Coelho, hoje colunista da Folha.

Julia Barbon, atual correspondente da Folha no Rio de Janeiro, diz que aprendeu o que era jornalismo durante o programa, na turma de 2014.

“Tinha 19 anos, estava no terceiro ano da graduação, mas não sabia o que era jornalismo. Na faculdade, víamos coisas mais acadêmicas, então o trainee realmente me ensinou. Lembro da primeira entrevista que fiz. Foi vergonhoso”, conta. Ela também diz ter gostado das aulas de direito.

Renato Essenfelder, professor de jornalismo na ESPM, foi trainee em 2001 e ficou no jornal até 2010, quando migrou para a academia. Ele diz que o programa de treinamento foi importante em sua carreira.

“Sempre quis ser professor, mas achava fundamental ter antes uma experiência sólida de mercado. A Folha foi minha verdadeira escola, aprendi muito. Não só pelo exercício do jornalismo diário, mas pelo privilégio de poder discutir com alguns dos melhores e mais experientes repórteres do país. Isso me tornou um professor melhor.”

A mais recente inovação do programa foi oferecer bolsas a quem não pode ficar sem renda. Nos demais casos, o programa não é remunerado, mas o jornal paga pela estadia dos aprovados que não moram em São Paulo.

Muitos que passaram pelo programa da Folha se destacam hoje em outras empresas. Guga Chacra, atual comentarista da GloboNews e da CBN em Nova York, fez o programa no fim de 1998.

Ele fez a prova de seleção “para ver como era”, como se fosse um treineiro. Iria tentar de novo depois, com mais preparo, mas passou de primeira. Diz ter aprendido muito e ter feito colegas que leva até hoje. Entre outros cargos na Redação, Guga foi correspondente em Buenos Aires em 2000.

Sem o trainee, posso afirmar com segurança que não teria chegado aonde cheguei

Guga Chacra

Trainee em 1998. É comentarista da GloboNews e da CBN

O programa foi fundamental. Foi meu primeiro contato com a vida real do jornalismo. Lembro das dicas que o Elio Gaspari dava, muito úteis

Pedro Dias Leite

Trainee em 1998. É diretor da rádio CBN

Uma das coisas que trago até hoje é o cuidado com a apuração. Checar, rechecar e ouvir sempre o outro lado

Julia Duailibi

Trainee em 2000. É comentarista da GloboNews

Eu achei incrivelmente bom. Um treino capaz de fazer alguém sem nenhuma formação jornalística sentar e produzir após um curto período, o que é ótimo

Álvaro Montenegro

Trainee em 1998, quando fazia mestrado em oceanografia. É professor do departamento de geografia da Universidade de Ohio (EUA)

Quando você é muito jovem, aprende conceitos e, uma vez que tem isso, eles te formam. Mais do que a faculdade, o trainee e a Folha me formaram

Daniela Pinheiro

Trainee em 1993. Ex-diretora da revista Época, hoje faz mestrado em Lisboa

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