Buscar mais de uma fonte de informação ajuda a combater 'fake news', diz escritor espanhol

Fernando Aramburu, autor de 'Pátria', discute dilemas da ficção e do jornalismo e aponta a democracia como um escudo contra a violência política

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Buenos Aires

O escritor espanhol Fernando Aramburu nasceu em San Sebastián, em 1959, no mesmo ano que o grupo nacionalista e terrorista ETA (Euskadi Ta Askatasuna, que significa Pátria Basca e Liberdade).

A violência política marcou sua vida. Quando ainda era um adolescente, assistiu ao funeral de um senador que havia sido assassinado pela guerrilha e decidiu que, um dia, escreveria sobre o tema.

O livro "Pátria", lançado no Brasil pela editora Intrínseca e transformado em minissérie, em cartaz na HBO, conta a história de duas famílias. Numa delas, há um homem que foi assassinado pelo grupo terrorista. Noutra, um combatente do ETA. O romance é um retrato dos traumas deixados pelo conflito na vida desses personagens e de todos aqueles que os cercam.

Quando a série estava prestes a estrear, na Espanha, foi feito um cartaz que causou alta rejeição. Nele, duas fotos colocadas lado a lado, uma com o homem assassinado e a outra, a de um "etarra" sendo torturado, de certo modo igualava os dois lados do conflito. Familiares de vítimas da guerrilha se revoltaram, mostrando que a reconciliação ainda é um assunto delicado na sociedade espanhola. Aramburu se posicionou contra a propaganda, que acabou sendo retirada.

Nesta entrevista, que integra a série Fuga para a Frente, um dos projetos do centenário da Folha, Aramburu fala dos valores morais com os quais trabalhou no romance, comenta o papel da ficção no combate à desinformação e trata da necessidade humana de contar histórias.

"Pátria" trata de um conflito muito espanhol, mas teve uma excelente acolhida fora da Espanha (traduzida para mais de 20 idiomas). Crê que o sucesso se deve ao fato de humanizar um conflito de uma forma como talvez não se tenha feito antes?

Sim, minha convicção do que deve ser um romance é a de que o centro dele sempre serão os personagens, a matéria-prima humana. Sempre construo minhas novelas a partir da convivência dos personagens. Não quis fazer um relato histórico ou semi-histórico. Não trabalhei com dados num primeiro plano, embora precisasse de dados para que a história fosse verossímil.

Eu queria aproximar os leitores do que é a vivência das pessoas normais em seu cotidiano quando estão em meio a um conflito dessa magnitude.

Por isso, creio que meu romance tenha sido entendido em outros países, onde há outros conflitos sociais, outras preocupações e onde também tenha havido violência.

Os leitores de outros países se emocionam porque conto histórias cotidianas, de pais e mães, de filhos, filhas e irmãos. E isso se entende em qualquer lugar do mundo.

Não vou condenar 100% a informação que recebemos hoje através dos meios de comunicação, nem vou elogiá-los 100%. Se um cidadão gastar um pouco de seu tempo em adquirir cultura, ler livros, sair um pouco de casa e perguntar sobre o que está ocorrendo, se buscar mais de uma fonte, terá a possibilidade de criar um critério próprio para interpretar e entender o que ocorre

Fernando Aramburu

Escritor espanhol, autor de 'Pátria'

Sei que uma de suas referências é Albert Camus (1913-1960). Você utilizou seu modo de se posicionar moralmente neste livro? Como tratou o tema de tentar evitar a equivalência entre a violência do ETA e a do Estado espanhol?

Eu não fiz nenhum cálculo frio e tampouco escrevi à sombra de uma tese que eu quisesse demonstrar. Aplico um filtro moral a tudo que eu faço, me considero responsável pelas palavras que faço públicas. E isso eu aprendi de diversos autores, mas fundamentalmente de Albert Camus.

Quando uma pessoa tem presença pública com seu discurso, seja falado, seja escrito, queira ou não, tem uma responsabilidade. Não é o mesmo querer espalhar valores de convivência ou de democracia do que chamar ao ódio e à violência. Isso não se pode igualar.

Eu não tenho nenhum problema em fazer literatura deixando de lado as minhas opiniões.

As reações subjetivas a fenômenos coletivos, que muitas vezes são induzidas por informação que não é adquirida de primeira mão, não são bons ingredientes para trabalhar.

Creio que, com opiniões, não se podem fazer bons romances. A tarefa fundamental de uma novela é representar o humano. Eu sei que trabalho com palavras, não com abstrações. O que quero é aproximar os leitores de cenas, conversas, tudo aquilo que nos faz humanos, e que nos fazem a cada dia, com nossas debilidades e nossos defeitos.

Isso num transcurso temporal que permite mostrar um pouco a evolução dos personagens ao longo do tempo.

Um personagem que atua moralmente mal pode resultar, por razões literárias, muito atrativo. Me permite boas páginas. Ou seja, cada um tem uma relação com seu trabalho que, ainda que tenha um condimento moral, não é apenas política.

Aí há um trabalho que, para mim, está em primeira linha e que não deve falhar, o de não expressar minha opinião pessoal sobre o tema do livro. Depois de a obra ser publicada, vêm as entrevistas nas quais, aí sim, eu me expressarei em primeira pessoa.

Não podemos usar os romances para transmitir determinados conteúdos políticos. Muito menos colocá-los a serviço do programa eleitoral de um partido ou de outro. Porque, se os escritores não são aqueles que realmente transferem um discurso imparcial, independente a seus compatriotas, então quem o vai fazer? Ninguém.

Além disso, não podemos nos esquecer do ingrediente estético. Por melhores intenções e ideias que tenha, um escritor não fará livros valiosos, nem compreensíveis, nem significativos, nem emocionantes para os demais se não houver uma preocupação com a forma.

Um escritor não fala apenas aos cérebros de quem lê seus livros, mas também aos corações, a todo um mundo de emoções que cada um leva consigo na vida.

Na época do conflito do ETA não havia o conceito de "fake news", mas havia desinformação e discursos ideológicos que deformavam a realidade. Como vê o tema da desinformação hoje?

Não vou condenar 100% a informação que recebemos hoje através dos meios de comunicação, nem vou elogiá-los 100%. Se um cidadão gastar um pouco de seu tempo em adquirir cultura, ler livros, sair um pouco de casa e perguntar sobre o que está ocorrendo, se buscar mais de uma fonte, terá a possibilidade de criar um critério próprio para interpretar e entender o que ocorre.

Mas, se ele escutar apenas uma voz, um discurso, o de sua bolha, tudo o que pensa estará determinado por essa voz.

Não satanizo todos os jornalistas. Existem os de qualidade e os que não cumprem bem seu trabalho.

O que caracteriza esse tempo atual é que qualquer coisa que ocorra no mundo já é suscetível de informação. Agora mesmo, numa ilha do Pacífico, cai um avião, e isso salta nos jornais do planeta, abarcamos uma imensa quantidade de realidades suscetíveis de gerar informação. E temos apenas um cérebro. Então, processar essas quantidades imensas de informação, que, às vezes, vêm embrulhadas numa opinião, é muito difícil.

Creio que os cidadãos devem adotar uma postura ativa para saber o que ocorre ao seu redor, e não ter uma atitude passiva diante de uma tela, esperando que lhes digam o que têm de saber, de sentir, de pensar. Porque aí sim estarão numa posição de debilidade, em que as "fake news" realmente podem ter êxito com essas pessoas.

O seu romance mostra duas famílias, mas os dois personagens-chave são mulheres. A viúva do empresário assassinado pelo ETA e a mãe de um "etarra". Por que escolheu escrever a partir do olhar feminino?

A princípio, eu não sabia que seria assim. Não havia uma atitude calculada, fria, de dizer a mim mesmo que deveria escrever a partir das mulheres.

Tenho que dizer que o papel da mulher na sociedade basca foi tradicionalmente muito forte, muito poderoso. Isso eu sei não por uma via teórica, mas porque vivi isso em casa, onde minha mãe governava, em direta rivalidade com minha irmã, a família. Enquanto meu pai e eu tomávamos menos decisões. Estávamos cômodos, porque elas faziam tudo. Mas não só no sentido do trabalho, mas também tomavam uma série de decisões que nos afetavam diretamente.

Portanto o fato de colocar como protagonistas as duas mulheres foi algo natural. Além disso, do ponto de vista literário, eu me dei conta de que essas duas personagens me davam muito material para trabalhar. Muito mais do que me teriam dado os homens. Como qualquer um que tenha lido o romance verá, eles são mais passivos, com pouca energia e que reservam a energia que têm para o espaço público, o esporte, o bar.

Também penso que, no aspecto emocional, as mulheres são mais complexas. E isso dá uma vantagem literária grande. Na época em questão tratada no livro, a ação fora de casa corresponde mais aos homens, como no caso do garoto que entra para o ETA, que é esportista, ou dos dois pais das famílias, que vão trabalhar, jogam cartas, fazem ciclismo e que, de alguma maneira, são como satélites das mulheres.

Desde as primeiras páginas do livro, vi que isso funcionava literariamente e me permitia dar uma imagem das pessoas da minha terra que me parecia bastante fidedigna.

O escritor basco Fernando Aramburu
O escritor basco Fernando Aramburu - Divulgação

Ao simplificar um pouco o livro, a minissérie passa uma sensação de que Miren, a mãe do "etarra", é má, e Bittori, a esposa do homem assassinado, é boa. O livro as mostra de modo mais complexo. Concorda?

Uma adaptação para um filme ou para uma série sempre parte da desvantagem de ser precedido de um livro. E "Pátria" tem mais de 600 páginas, ou seja, obviamente existem mais matizes porque há mais espaço para introduzi-los.

Quem analisa a história de modo mais ligeiro poderia chegar a essa conclusão de que a mulher que é vítima, a viúva, a que tem o marido assassinado, é boa. Porém, o romance mostra que, em sua convivência familiar, ela é uma pessoa muito pouco agradável, generosa ou atraente, de uma avareza evidente. No texto, não se teoriza sobre isso porque se mostra em pequenos detalhes de seu comportamento.

Já com Miren, a mãe do "etarra", eu tive muito cuidado do ponto de vista literário. Não me parece que essa mulher seja má, mas sim que se deixou arrastar pela maternidade, por uma maternidade exacerbada. Ela diz claramente que não importa a eleição de seu filho, ela não vai deixar de ser mãe de seu filho nunca, ainda que seu filho tome as armas. Isso para mim parece muito humano.

Sim, muitos dizem que Miren é uma mulher dura, mas se fizermos a conta, comprovaremos que é o personagem que mais chora em todo o romance. Mas ela faz isso escondido. Quando tem vontade de chorar, se esconde. Isso tem uma carga emocional muito grande.

Muito se tem dito sobre a teledramaturgia hoje ter ganho tanto espaço e popularidade, que seria uma competidora da boa literatura. O que acha disso?

Não creio que seja função da arte visual substituir nada. O que penso é que, desde sempre precisamos de histórias, é um ópio da humanidade, desde que somos crianças.

É por meio de histórias que lemos, vemos ou nos são contadas que temos a primeira aproximação do que seja a inveja, o mal, o que é morrer, o que é a felicidade. Claro que nos podem explicar isso teoricamente, mas é muito mais fácil e mais rico sabê-lo por meio das histórias, sejam elas faladas, escritas, sobre um palco de teatro ou por meio de uma tela.

Essa necessidade não termina nunca. Nós, mesmo depois de adultos, contamos histórias todo o tempo.

E a razão disso é que somos muito limitados, vemos e vivemos o pouco que temos adiante. Como saber, por exemplo, como se sente uma pessoa que descobre uma ilha? Ou quando se viaja pelo espaço? O que acontece quando uma pessoa se apaixona? Por isso acudimos às histórias. É nelas em que estão os herois, os vilões, os assassinos, os que salvam os outros.

Você crê que a violência política daqueles anos tem um lugar nos dias de hoje?

Não creio. Vejo as redes sociais, e ali encontro, de fato, um uso muito violento do idioma. Não gosto que me ofendam, mas tenho mais possibilidade de sobreviver a uma ofensa do que a um disparo. Chegamos a um ponto na civilização em que encontramos um mecanismo para deter a violência. É a democracia.

A violência está na natureza e não é privativa do ser humano. Mas a civilização descobriu um sistema segundo o qual podemos conviver, mesmo que não nos amemos, que é a democracia. Compartilhar regras de jogo comuns. Esse gesto de compartilhar regras já elimina a violência. A democracia não é perfeita, claro, mas é o que de menos ruim ocorreu ao ser humano. Nesse sentido, creio que avançamos muito.

Se olharmos para trás, o século 20 foi horrível com suas guerras mundiais, com suas bombas atômicas. Não me parece que estejamos retrocedendo a ponto de voltar a sociedades em que o mais forte triunfe, ou o que tem mais armas.

Eu vivo num continente em que praticamente se apagaram as fronteiras entre os países. Isso me parece um avanço muito grande. Na Europa há muitas décadas que não há guerras, com exceção da Iugoslávia, onde intervieram forças internacionais. Também há hoje esses mecanismos multinacionais que detêm as guerras contínuas que existiam em todas as partes, no século passado e nos anteriores.

A Idade Média foi uma guerra contínua, que era inclusive desejada e esperada porque era nela que os homens se promoviam. Isso, por sorte, com educação, com cultura, com colaboração internacional, parou. Mas o ser humano sempre seguirá sendo humano. Continuará odiando e insultando.


Fernando Aramburu, 62

Nascido em San Sebastián, na Espanha, em 1959, é autor de romances e contos, com os quais conquistou prêmios como o da Academia Real Espanhola. “Pátria” (ed. Intrínseca) é o seu primeiro livro lançado no Brasil. O romance foi adaptado pela HBO para uma minissérie com 8 episódios. Atualmente, Aramburu vive na Alemanha.


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