Imprensa dá pouca atenção a temas da direita, dizem debatedores

Encontro virtual com jornalistas discutiu problemas da representação conservadora na mídia brasileira

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São Paulo

A predominância de profissionais de perfil progressista leva as grandes Redações do Brasil a uma cobertura pouco sensível a temas e a personagens de vertente conservadora, indicam jornalistas.

Essa foi uma das principais conclusões de debate virtual realizado pela Folha na tarde do último dia 11. O evento integra a programação dos 100 do jornal.

Houve, porém, discordâncias entre os debatedores quando discutiram se o perfil ideológico dos profissionais resultaria ou não em uma cobertura parcial ou enviesada.

A relação dos governos com veículos de comunicação e as comparações entre mandatários à esquerda e à direita também estiveram na pauta.

Participaram do painel José Roberto Guzzo, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, da Gazeta do Povo e da revista Oeste; Ewandro Schenkel, chefe de Redação da Gazeta do Povo; e Fábio Zanini, repórter especial da Folha e autor do blog Saída pela Direita.

Existe, em uma grande maioria, um viés [de esquerda], um direcionamento natural da profissão. É um serviço hercúleo ter pluralidade dentro de uma Redação

Ewandro Schenkel

Chefe de Redação do jornal paranaense Gazeta do Povo

A mediação ficou a cargo de Catia Seabra, repórter especial da Folha.

Inicialmente, Guzzo afirmou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) acerta ao falar em perseguição da mídia ao seu governo, mas criticou a atenção despendida pelo mandatário a essa questão. “Não cabe a um presidente da República ficar entrando nesse bate-boca. Qualquer repórter que passar na frente ele quer discutir”, afirmou.

Para Schenkel, o papel da imprensa é justamente questionar autoridades públicas, que podem eventualmente escolher ficar em silêncio. “A maneira com que ele reage às perguntas, às colocações da imprensa, eu acho deplorável”, lamentou.

Para Zanini, Bolsonaro exagera no discurso e na polarização. Lembrou, porém, um episódio de 2004 em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ameaçou extraditar Larry Rother, então correspondente do New York Times no Brasil, para deixar claro que também houve hostilidade ao trabalho jornalístico em governos anteriores e considerados progressistas.

“Nenhum presidente gosta da imprensa, não existe isso. Nem no Brasil, nem em lugar nenhum no mundo”, disse Zanini.

Pode até ser que existam repórteres de esquerda demais na Redação, mas daí a dizer que a cobertura será de esquerda ou enviesada tem uma grande diferença

Fábio Zanini

Repórter especial da Folha e autor do blog Saída pela Direita

Indagado sobre medida provisória de 2019, que desobrigava empresas de publicar balanços em jornais, Guzzo se mostrou favorável. Depois de ter sido rejeitada por uma comissão de deputados e senadores, a MP perdeu a validade.

Ele acrescentou: “O governo não deve colocar nenhum anúncio, de nenhum tipo, nunca, em nenhuma circunstância”. Segundo Guzzo, “isso só serve para pressionar a imprensa, para comprar veículos.”

Zanini concordou com Guzzo, mas lembrou que a forma como o presidente comunicou a proposta favoreceu a polarização e foi muito abrupta, quando deveria ter sido implementada paulatinamente. “Até quando toma uma atitude que tecnicamente se justifica, Bolsonaro embala isso em uma moldura para perseguir a imprensa”, disse.

Para Schenkel, seria um equívoco esperar do presidente um discurso calculado. “Ele não foi eleito por causa disso”, ressaltou.

Questionado se suas posições e sua fiscalização jornalística foram igualmente firmes nos governos petistas, o jornalista da Gazeta do Povo disse ter empregado o mesmo rigor crítico em ambos os momentos.

Guzzo, por outro lado, disse ter sido mais incisivo durante os governos do PT justamente por considerá-los piores que o atual. Além disso, de acordo com ele, Lula foi mais agressivo com a imprensa do que Bolsonaro.

Nesse momento do debate, Zanini lembrou a atuação, durante os governos do PT, dos chamados “blogueiros progressistas”, que recebiam verbas públicas para apoiar o governo federal e criticar seus adversários. Ele os comparou aos youtubers de direita, que hoje são estimulados pelo Planalto a agir da mesma forma.

Na sequência, o repórter da Folha foi indagado sobre a criação de seu blog Saída pela Direita, que aborda propostas e nomes de destaque do conservadorismo no Brasil.

Zanini explicou que a iniciativa surgiu na esteira da eleição de Bolsonaro e busca suprir a ausência de espaço na grande imprensa para a cobertura de temas da direita, posição compartilhada pelos demais debatedores.

“Os veículos permitem, sim, que as pessoas escrevam com liberdade, mas precisa haver pessoas assim”, disse Guzzo.

Para Schenkel, essa predominância progressista se deve a um idealismo que é inerente —e até importante— à profissão. “Existe, em uma grande maioria, um viés [de esquerda], um direcionamento natural da profissão. É um serviço hercúleo ter pluralidade dentro de uma Redação.”

Segundo Guzzo, há um alinhamento de grande parte dos veículos a uma agenda liberal nos costumes, o que ele não vê predominar na população e nos leitores. “Se a imprensa nossa continuar assim, ela corre o risco de se isolar”, alerta.

O governo não deve por nenhum anúncio, de nenhum tipo, nunca, em nenhuma circunstância. Isso só serve para pressionar a imprensa, para comprar veículos

José Roberto Guzzo

Colunista do jornal O Estado de S. Paulo, da Gazeta do Povo e da Revista Oeste

De acordo com Zanini, a mídia precisa contemplar melhor e de forma mais respeitosa grupos como evangélicos e representantes do agronegócio e das forças de segurança.

Ele disse, porém, que um jornalista que fizesse um trabalho parcial ou que se recusasse a escrever pautas que o desagradassem por conta de sua ideologia teria vida curta em uma grande Redação. “Pode até ser que existam repórteres de esquerda demais na Redação, mas daí a dizer que a cobertura será de esquerda ou enviesada tem uma grande diferença”, diz.

Schenkel discordou de Zanini. Segundo ele, embora não haja uma recusa expressa de cobrir determinados assuntos, a falta de diversidade resulta em vieses que simplesmente não permitem que certos temas identificados como mais à direita sejam observados.

Sobre a atuação da imprensa durante a pandemia, Zanini disse acreditar que a mídia tem realizado seu trabalho da forma mais correta possível ao abraçar a ciência e a objetividade.

Não é essa a opinião de Guzzo. “Não posso considerar que a imprensa está sendo objetiva quando vejo o noticiário, quando vejo absoluto desinteresse por apresentar qualquer posição que não seja essa unanimidade que não é unânime de ‘estamos vivendo um fim de mundo’”, critica.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: José Roberto Guzzo, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, da Gazeta do Povo e da Revista Oeste; Fábio Zanini, repórter especial da Folha e autor do blog Saída pela Direita; Ewandro Schenkel, chefe de Redação da Gazeta do Povo; e Catia Seabra, repórter especial da Folha
Da esquerda para a direita, de cima para baixo: José Roberto Guzzo, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, da Gazeta do Povo e da revista Oeste; Fábio Zanini, repórter especial da Folha e autor do blog Saída pela Direita; Ewandro Schenkel, chefe de Redação da Gazeta do Povo; e Catia Seabra, repórter especial da Folha - Reprodução

Os três participantes apresentaram pontos de vista convergentes em relação ao inquérito das fake news e à prisão do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ). Para eles, ao ocupar a posição de vítima, acusador, investigador e julgador, o STF criou um processo inconstitucional e abriu um precedente perigoso.

“É um trambolho jurídico que eles criaram, que eles não demonstram como conseguir resolver porque é insolúvel”, afirmou Schenkel.

Para as eleições de 2022, todos esperam imparcialidade e rigor factual dos jornalistas, sobretudo na campanha na esfera federal, com grande chance de disputa entre Bolsonaro e Lula —neste momento, graças à decisão do ministro do STF Edson Fachin, o líder petista pode ser candidato.

“Toda vez que não estiver fazendo isso, você vai estar fazendo mau jornalismo. Ou melhor, não estará fazendo jornalismo, estará fazendo política”, concluiu Guzzo.

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