Repórter, Kotscho relatou país em transformação na fase final da ditadura

Com diversas passagens pela Folha, ele diz que reportagem é alma, coração e pulmão do jornalismo

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São Paulo

Ricardo Kotscho está de pleno acordo com a frase do colombiano Gabriel García Márquez, que definiu o jornalismo como a melhor profissão do mundo. Mas acha que ela é incompleta.

O jornalista Ricardo Kotscho, que foi repórter especial da Folha em diversas ocasiões - Eduardo Knapp/ - 20.fev.2018/Folhapress

“Dentro do jornalismo, a alma, o coração, o pulmão, a peça mais importante é o repórter. Você pode mudar a plataforma, fazer o diabo que quiser, mas não vai conseguir nada sem repórter”, diz ele, que completa 73 anos nesta terça (16) e passou a maior parte de seus 57 anos de ofício correndo atrás da notícia.

Na Folha, foram nada menos do que quatro passagens diferentes, sempre na reportagem. A primeira em 1980, indicado por Cláudio Abramo, ex-diretor de Redação do jornal, após a efêmera experiência de ambos no Jornal da República, que havia acabado de fechar.

“Quando ele [Abramo] voltou para a Folha, falou para o 'seu Frias' [Octavio Frias de Oliveira, publisher do jornal, que morreu em 2007] que tinha um pessoal do Jornal da República que ele podia trazer”, relembra.

Chamado à sede do jornal, teve uma conversa de mais de uma hora com Frias. O publisher ofereceu a ele o emprego de repórter especial e pediu que mergulhasse nas histórias de um país em marcha para a redemocratização.

“Foi uma época muito rica, estava acontecendo de tudo em todas as áreas. Eu cobria muito os movimentos sociais. Fazia matérias de periferia, que naquela época estava ganhando cidadania”, diz.

O jornal o mandou para diversos cantos do país, do interior de São Paulo à Amazônia, e são dessa época algumas das parcerias mais duradouras da carreira de Kotscho, com fotógrafos que deixaram sua marca no jornal, como Ubirajara Dettmar, Gil Passarelli e Jorge Araújo.

“Isso existia muito nos grandes jornais, a parceria do repórter e do fotógrafo, e que incluía às vezes também o motorista de reportagem”.

O ápice desta primeira passagem foi a cobertura das Diretas-Já, em 1984, que incluía conversas de fim de tarde com Frias sobre o rumo que o país estava tomando. “Ele de vez em quando me chamava para tomar um uísque na sua sala para perguntar o que eu estava achando daquele momento histórico”, diz.

Em 1985, Kotscho deixou o jornal para trabalhar no Globo Rural, da TV Globo, apenas para voltar no ano seguinte para cobrir a Copa do Mundo do México. Mas logo sairia de novo. Em 1989, deu uma guinada em sua carreira, ao virar assessor de imprensa da primeira campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de quem havia se aproximado cobrindo o movimento sindical.

Ficou longe da Folha até 2001. No início daquele ano, de férias na praia, recebeu uma ligação de Vera Lia, secretária de Frias.

“Ela me disse que o jornal estava fazendo 80 anos e o 'seu Frias' queria muito que eu fosse no evento de aniversário. Quando eu estava na fila dos cumprimentos, ele me comunicou que alguém ia ligar em seu nome no dia seguinte”.

Quem telefonou foi Eleonora de Lucena, à época editora-executiva, com mais um convite para ser repórter especial, prontamente aceito. Um ano depois, no entanto, a história se repetiria, e Lula o tirava da Folha para ser assessor de sua quarta campanha presidencial.

“Quando eu fui avisar o Frias, ele me disse: ‘você não toma jeito, vão perder de novo. Mas no dia seguinte da eleição, quero ver você de novo na Folha’. E chamou o Otavio [Frias Filho, diretor de Redação, morto em 2018] para servir de testemunha”.

A história, como se sabe, foi outra, e após a vitória de Lula, Kotscho disse, bem-humorado, ao antigo chefe: “Seu Frias, dessa vez deu zebra”.

Haveria ainda mais uma passagem sua pelo jornal, que durou de 2018 até o início da pandemia, em 2020, em que atuou como colaborador e se dedicou principalmente a perfis de anônimos e histórias curiosas da cidade. Atualmente, ele tem um blog no UOL, onde diz estar bastante satisfeito.

O futuro da reportagem, diz Kotscho, está em aberto, como praticamente tudo no pós-Covid. “O que está acontecendo agora vai mudar o jornalismo, como mudará todas as relações humanas e as relações de trabalho”, afirma.

Embora tenha certeza de que a melhor parte da melhor profissão do mundo jamais morrerá, ele demonstra uma ponta de preocupação.

Isso porque na pandemia, diz, “os jornais descobriram que dá para fazer matéria no mundo inteiro sem sair de casa”. “E lugar de repórter, como a gente sabe, é na rua”, afirma.

Ricardo Kotscho, 73

Trabalhou em veículos como Folha, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Rede Globo e TV Bandeirantes; foi secretário de Imprensa no início do governo Lula (2003-04)

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