Italiano, Gentile renovou projeto gráfico da Folha e formou jovens designers

Expansivo e exigente, ele foi editor de Arte do jornal nos anos 2000

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São Paulo

Na primeira metade da década passada, o blog Bolditalic publicou diariamente obras visuais sofisticadas e divertidas. Sua proposta era “contar e comentar as notícias visualmente”. Por trás desses trabalhos, o designer italiano Massimo Gentile, que na década anterior tinha trabalhado por sete anos na Folha, como um dos mais inventivos editores de Arte do jornal.

homem branco, de rosto redondo e barba por fazer, sorri olhando para cima. ele veste uma camisa de jeans azul e está sentado
Massimo Gentile em 2006, ano em que recebeu o Prêmio Folha de Jornalismo na categoria Arte - Eduardo Knapp - 24.fev.2006/Folha Imagem

O último desenho postado no blog foi uma ilustração que misturava um eclipse solar visto em toda a Europa, dias antes, com a capa do álbum “The Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd.

Notícias cotidianas e rock eram importantes para Gentile e se misturaram em seu trabalho derradeiro. Ele morreu no dia 30 de março de 2015, em Gênova, aos 52 anos, em decorrência de um mal estar súbito.

Além de seu blog, a morte interrompeu também o trabalho como diretor de Arte do jornal Il Secolo XIX. Do outro lado do Atlântico, Gentile deixou um legado relevante na Folha, onde foi editor de Arte de 2000 a 2006. Não apenas pela criatividade no cotidiano da Redação, mas também por um projeto gráfico inovador e por uma geração de designers influenciados por ele.

Essa curiosidade pelos fatos e a tentativa de entendê-los podem ter sido cultivadas, em boa parte, no período em que ele estudou na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade La Sapienza, em Roma. Nascido na capital italiana, em 16 de maio de 1962, Gentile largou uma carreira acadêmica para iniciar sua jornada de designer no jornal Paese Sera.

Depois de anos conciliando trabalho editorial com uma produção pessoal de obras visuais em vários suportes, ele viajou para o Rio em 1998, para desenvolver um projeto gráfico para a extinta revista Manchete. Sua mudança para São Paulo veio por convite de outro designer italiano, Vincenzo Scarpellini (1965-2006), então editor de Arte na Folha.

A “invasão italiana” culminou na passagem do poder para Gentile. Expansivo, exigente e severo, ele impôs seu ritmo à equipe. Na época, sua maneira particular de misturar os idiomas italiano e português criou uma série de expressões “italianadas” pela Redação.

O designer Marcio Freitas tornou-se um grande amigo e chegou a visitá-lo algumas vezes na Itália. Mas ele reconhece que Gentile não era uma pessoa fácil. “Ele era bravo, falava alto, intimidava. Só depois que percebeu que eu fazia trabalhos pessoais que tinham afinidade com os dele é que nosso relacionamento mudou.”

Freitas elogia o projeto gráfico que Gentile criou para a Folha em 2006, ao lado do editor Melchiades Filho e do designer cubano Mario García. Era um momento no qual as pessoas passavam a consumir notícias pela internet, e a ideia de García e Gentile era atrair um público que tinha outra maneira de ler.

primeira página de jornal traz fotos do capitão da seleção brasileira erguendo a taça da vitória
Primeira página da Folha, com Brasil vencedor da Copa do Japão e Coreia do Sul, foi desenhada por Massimo Gentile - Reprodução - 1º de julho de 2002

“O leitor ficava mais seletivo, então era mais difícil atrair sua atenção. O projeto fragmentava bastante os textos nas páginas, criando várias entradas possíveis para a pessoa começar a ler”, conta Freitas.

Na época, Gentile admitiu a preocupação de equilibrar tradição e inovação. “É uma reforma gráfica que respeita a história visual da Folha”, sentenciou.

Freitas se lembra da mesa de trabalho de Gentile. “Era uma bagunça, cheia, tinha um monte de papel. Ele tinha de tirar as coisas de cima do teclado para poder usar o computador. E ele fumava muito, ainda era permitido na Redação. Quando eu ia usar a máquina dele, tinha de soprar antes toda aquela cinza de cigarro do teclado.”

A designer Fernanda Giulietti lembra que sentia medo dele. “Tinha uma admiração muito grande, mas misturada com algum medo. Sou filha de italianos, já conhecia bem o tipo. Um tanto bruto, aquele que faz carinho batendo. Mas muito generoso. Ele queria nos ensinar.”

Ela diz que carrega até hoje uma lição aprendida com Gentile. “Massimo ensinou como nosso trabalho vai além do design. Mostrou que tínhamos de conhecer as notícias para contá-las visualmente. Era preciso estar tão perto da notícia quanto o repórter ou até mais perto ainda. Enquanto os repórteres podem ser especializados em suas editorias, os designers trabalham com cultura, política, economia. Massimo queria que a gente acompanhasse tudo.”

No final de 2006, Gentile foi passar as férias na Itália e acabou não retornando para o jornal. Em Gênova, entrou com empolgação no jornal Il Secolo XIX.

Em 2012, passou a fazer peças visuais diárias em seu blog, releituras de obras célebres, como o “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, ou o retrato de Marilyn Monroe de Andy Warhol, usando apenas fontes tipográficas para construir as imagens.

Capas de discos de rock também eram inspiração forte. “Ele fez uma resolução para o ano de 2012, de criar um minipôster com tipografia por dia, e durante muito tempo cumpriu a promessa, com muito talento”, conta o amigo Mario García.

Fernanda Giulietti recorre ao nome do blog de Gentile para destacar sua inteligência e humor. “Bolditalic, uma brincadeira com nomes que classificam fontes tipográficas, é uma grande sacada. Bold porque ele era gordo. Italic por ser italiano. Sim, ele tinha muito humor. Não sei direito como classificar esse humor, mas ele tinha.”

Massimo Gentile (1962 - 2015)

Nascido em Roma, na Itália, o designer mudou-se para o Brasil em 1998 para desenvolver um projeto gráfico para a revista Manchete. Na Folha, como editor de Arte, trabalhou de 2000 a 2006, período em que foi responsável por inovar o projeto gráfico do jornal, influenciando jovens designers. Morreu em Gênova, em 2005, em decorrência de um mal súbito.

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior deste texto publicou incorretamente que Massimo Gentile morreu em 2005. O designer italiano morreu em 2015. O texto foi corrigido. 

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