Pandemia aumentou as tensões nos núcleos familiares

Antes varrido para debaixo do tapete, idadismo agora aparece de forma gritante

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Rubens Belfort Jr.

Oftalmologista, presidente Academia Nacional de Medicina e presidente do Instituto da Visão (Unifesp)

O conhecimento e as tecnologias na saúde tornaram a vida saudável aos 100 anos uma probabilidade plausível, mas há grandes desafios a serem vencidos.

Entre eles, não há apenas a humanização da medicina, conceito antigo, mas o da própria humanização da sociedade. Imprescindível é o respeito ao profissionalismo, colocando o interesse do ser humano em primeiro lugar e oferecendo atendimento biopsicossocial, com saúde integral, e personalizado.

homem jovem e negro, vestido de branco, ajoelhado em frente à mulher branca e idosa em cadeira de rodas
Alunos da Fatec se unem para atender lar de idosos na Grande São Paulo - Karime Xavier - 20.abr.2017/Folhapress

É possível uma velhice feliz e cada vez mais longa, graças aos avanços tecnológicos e ao investimento na promoção de saúde, o que pressupõe melhores condições de vida desde a infância, incorporando hábitos adequados e o apoio de uma medicina humanizada.

O tema adotado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para o Dia Internacional da Saúde (7 de abril) neste ano reflete essas premissas: "Um mundo mais justo e mais saudável".

Para tanto, é fundamental humanizar a prática médica, o que implica humanizar a sociedade, tornando-a mais igualitária, com a junção do comportamento ético e do conhecimento técnico.

A longevidade é a maior conquista social dos últimos cem anos. A partir dessa constatação, é preciso ir além do enfoque financeiro. As pessoas idosas representam hoje 15% da população brasileira e, antes de 2050, serão o dobro, cerca de 30%.

Muitos envelhecerão mal. Mas outros tantos continuarão a contribuir positivamente para a sociedade e não vão querer sair de cena apenas pelo critério cronológico: "caia fora, velhinho".

A pandemia aumentou muito as tensões nos núcleos familiares e descompensou o balanço intergeracional, mostrando o maior risco a que estão sujeitos os idosos, além de sugerir uma maior inutilidade deles. Também acentuou de forma gritante o idadismo, antes varrido para debaixo do tapete. De modo extremo, levou a uma radicalização na sociedade sobre o que fazer com os muito idosos.

A mortalidade dos idosos e o risco maior entre eles e a obrigação do afastamento de seus trabalhos ampliaram preconceitos e pressões. Há os que defendem a obtenção da imunidade de rebanho às custas de alta mortalidade dos mais velhos, como mecanismo de controle viral e de compensação do equilíbrio social, com menores despesas.

Ao lado de outros preconceitos clássicos, também o etário precisa ser combatido. Muitos não o reconhecem, o que ajuda a explicar a irracionalidade dos que continuam a não usar máscaras, portando-se como gorilas negacionistas.

Cada vez mais pessoas poderão chegar aos 100 anos, mas o significado de chegar pelo simples fato de chegar deve ser também questionado.

Se por um lado, a manutenção da vida suscita poucas dúvidas, a qualificação da vida proveitosa e seus limites devem ser cada vez mais discutidos, pois a velhice não precisa ser massacrante. O preconceito e as políticas assassinas contra os idosos precisam ser denunciados, combatidos e superados.

SÉRIE DISCUTE QUESTÕES DA LONGEVIDADE

A seção Como Chegar Bem aos 100 é dedicada à longevidade e integra os projetos ligados ao centenário da Folha, celebrado neste ano de 2021. A curadoria da série é do médico gerontólogo Alexandre Kalache, ex-diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde).

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