Paulo Francis homenageou Cacilda Becker em coluna de 1989

Colunista descreveu atriz, que faria 100 anos nesta semana, como 'gênio inigualável' do teatro brasileiro

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O trabalho de Paulo Francis (1930-1997) foi marcado por uma verve iconoclasta, brilhante e irresponsável, como descreve o jornalista Nelson de Sá, organizador de duas coletâneas de colunas de Francis.

Na Folha, ele atuou por 15 anos, de 1975 a 1990. Assinou mais de 8.000 textos nas páginas do jornal, em todas as editorias.

homem branco de meia-idade veste terno e óculos posando para foto com uma das mãos na cabeça
O jornalista Paulo Francis, em retrato de Bob Wolfenson, para o livro "Jardim da Luz" - Bob Wolfenson

Polemista, sua opinião influenciava e provocava leitores e jornalistas —efeito que causa até hoje, décadas após sua morte. Francis desenvolveu um ethos colunista, fazendo de si um personagem teatral. “Gosto de plateia, quero mantê-la cativa, afinal vivo disso há 40 anos”, dizia.

Ator no Teatro do Estudante na década de 1950, a estreia de Francis no jornalismo foi como crítico de teatro. Em 1957, publicou na Revista da Semana um texto comparando Cacilda Becker e Fernanda Montenegro, preferindo a primeira.

Três décadas depois, após a morte de Cacilda, Francis dedicou sua coluna a homenageá-la, por ser "um monumento de trabalho e audácia no teatro" cujo gênio, para o crítico, foi inigualável.

Esse texto, "Cacilda Becker, estrela e atriz", é republicado agora como parte da seção Colunas Eternas, que celebra os 100 anos da Folha e, no caso, também os 100 anos de Cacilda Becker.

Na vasta produção de Francis, destaca-se também seu trabalho como correspondente em Nova York, de onde escrevia a coluna "Diário da Corte".

Francis acreditava que "a sua maior contribuição ao jornalismo brasileiro foi desmistificar os Estados Unidos", diz Nelson de Sá.

Ao longo dos 15 anos em que escreveu para a Folha, a coluna "Diário da Corte" foi profundamente crítica aos EUA —dos jornais locais às celebridades e políticos americanos, ninguém escapava à caneta afiada do correspondente.

Cacilda Becker, estrela e atriz

14 de junho de 1989

Faz 20 anos que Cacilda Becker morreu, quando representava em "Esperando Godot", de Samuel Beckett, que não gosta de atrizes fazendo travestis em suas personagens, mas dois dos maiores sucessos de Cacilda foram travestis, o outro sendo o “menino ruivo”, “ruço”, de "Poil de Carotte" (1894), um monólogo longo, amargo e irônico de um menino de infância carente, tema que obcecava o autor, Jules Renard, e com que Cacilda encheu teatros por meses.

Ela foi uma grande estrela e, às vezes, uma grande atriz. No seu tempo, nenhuma mulher no nosso teatro lhe chegava aos pés em prestígio. Ao crítico não era difícil ver que Bibi Ferreira foi a primeira atriz a desenvolver o estilo, moderno, realista de interpretar. (...)

Ao crítico também era fácil perceber que a então muito jovem Fernanda Montenegro era muito mais regular e competente no uso de seu talento do que Cacilda, mas Fernanda apenas começava e Bibi se desinteressara. Cacilda era a rainha da minha geração de teatro. (...)

Conseguia obliterar todas as suas desvantagens criando um vácuo que preenchia às vezes com um gênio de que não tenho lembrança ou esperança de ver igualado no teatro brasileiro.

Seu momento de drogada, numa "high", em "A Longa Jornada do Dia para Dentro da Noite", de Eugene O’Neill, quando pede humildemente à criada da casa (Kleber Fernandes) que lhe faça companhia, era uma iluminação que reduziu ao silêncio de respiração presa até os grã-finos barulhentos e atrasados da noite de estreia do Rio.

Lembro-me de ter visto "Poil de Carotte", com Brutus de Pedreira, um dos gurus do teatro brasileiro, no velho TBC de São Paulo, e que na saída ia desabafar sobre a chatice de Jules Renard como escritor, mas a imagem de Cacilda, carente, pedinte, aquela figurinha luminosa no palco, me reduziu a um silêncio incaracterístico.

Era uma mulher de paixões violentas, pró ou contra as pessoas, de uma alegria contagiante ou depressão suicida e, talvez, sem que o percebesse, como toda atriz de grande talento, representava o tempo todo. Sabia ser carinhosíssima e uma virago. (...)

Ela está morta e nós a lembramos como um monumento de trabalho e audácia no teatro, mas podemos nos perguntar o que acharia da cena teatral hoje.

Mal acreditei em mim mesmo quando pensei neste artigo que, nos anos 1950 e 1960, tínhamos um teatro de repertório regular, que não faria feio em parte alguma do mundo, o Teatro Brasileiro de Comédia, criação de um italiano a quem muito chamei de casca grossa e novo rico, Franco Zampari, mas que merece todo o meu respeito.

Que tínhamos diretores e professores como Zbigniew Ziembinski, Luciano Salce, Adolfo Celi, Gianni Ratto e Ruggero Jacobbi, que nos ilustraram, dirigiram alguns espetáculos esplêndidos e formaram toda uma geração de diretores brasileiros e atores.

E não foi só o TBC. Havia o Teatro Maria Della Costa e, egresso do TBC, a Companhia Tônia-Celi-Autran, idem o Teatro Cacilda Becker (o TBC continuava funcionando em fase nacionalista, representando o melhor de Dias Gomes e Gianfrancesco Guarnieri), o Teatro dos Sete (Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Sérgio Britto, Fernando Torres), o Oficina, o Teatro de Arena. Havia o que escolher, em qualidade e tendência estética e política.

Em parte foi a ditadura que matou todo esse teatro. Lembro a noite cômica em que deram ordem de prisão no Rio para Bertolt Brecht, morto há uma década. (...)

Mas há mais que ditadura e outros meios de expressão, pelo que me refiro ao domínio total que a televisão exerce na sociedade brasileira. Atores da geração de Cacilda ou pouco mais jovens, como Paulo Autran e Walmor Chagas, respectivamente, se queixam do baixo astral que impera no nosso meio artístico.

Uma ou outra atriz de gênio, como Fernanda Montenegro e Marília Pêra, encena uma peça de sucesso e até excursiona pelo país. Mas não há mais o que chamávamos de “movimento teatral”, na nossa juventude, uma religião em verdade, porque estávamos dispostos a sacrificar tudo.

Não acredito que Cacilda pudesse se sentir realizada nessa atmosfera de decadência e desdém por tudo que se tornou o Brasil, em que cada um se esconde em sua casa com sua “cachaça”, seja lá qual for. Ela era uma mulher para grandes plateias, não plateias passivas, mas que participassem com seu suor e sangue das duas Antífonas (Sófocles e Anouilh, que representou em programa duplo). Havia na pior das hipóteses um gesto tentativo de grandeza no trabalho de Cacilda e companheiros.

Com muita saudade de vê-la no palco e em pessoa, acho que morreu na hora certa, antes do dilúvio...

Esse texto faz parte da série Colunas Eternas, que revive contribuições de colunistas históricos da Folha ao longo desses 100 anos.​

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