Descrição de chapéu Folha, 100

Acolhedor e otimista, José Geraldo chega dançando aos 100 anos

Fazendeiro fluminense é leitor voraz e cultiva amizades por onde passa

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São Paulo

Na década de 1920, todos os dias chegava à Fazenda Patriarca, em Barra Mansa (RJ), o diário O Jornal. Foi com essa publicação que José Geraldo Carvalho Alves, que completa 100 anos nesta quinta (6), aprendeu a ler quando era criança, com a ajuda e estímulo do avô, ávido consumidor de notícias.

“A primeira letra que eu conheci foi o Ó”, conta. Depois do Ó, vieram as outras vogais. E, junto às letras, também vieram os interesses que nunca abandonaram José em seu percurso centenário: a história e a política, em especial as do Brasil.

Filho mais velho de Angelina de Carvalho, José Geraldo passou a infância com as seis irmãs entre a fazenda da família e a escola e a "pintar e bordar", como descreve suas aventuras de menino. Alegre e corajoso, características que cultiva até hoje, José lembra de ser muito mimado e muito amado, em uma infância que não podia ter sido melhor.

Retrato em preto e branco, antigo, de jovem magro com bigode fino no rosto. ele veste terno e posa para a foto
Retrato de José Geraldo Carvalho Alves, que completa 100 anos nesta quinta (6) - Acervo Pessoal

Aos nove anos, José queria estudar para se tornar engenheiro. Ele havia conseguido uma vaga no tradicional Colégio Pedro II, na capital do Rio de Janeiro, mas a morte prematura de seu pai mudou seus planos. Contra a vontade da mãe, José tomou a decisão de interromper os estudos no 5º ano do primário e ficar em Barra Mansa para cuidar de sua família e da fazenda.

No comando, descobriu que tinha tino para os negócios: aprendeu a comprar e vender gado, e tornou-se, como diz, do ramo. Aos poucos, superando uma crise de cada vez, expandiu a propriedade e os negócios da família. E essa época também o fez perceber uma outra vocação: era um líder nato.

José conseguiu intermediar a negociação de um empréstimo com o Banco do Brasil para a colônia agrícola Santo Antônio, de cerca de 76 fazendeiros da região. “Com o dinheiro, eles cresceram bem e produziam muito. Compraram caminhão, carroça, e começaram a fazer a feira de Barra Mansa e de Volta Redonda”, conta.

Seu feito não passou despercebido pelos políticos da região; membros da UDN (União Democrática Nacional) o convenceram a se candidatar a vereador, cargo que ocupou por dois mandatos na década de 1960.

“Eu era duro na política, não dava colher de chá, não. Exigia bastante coisa do prefeito. Minha primeira obra foi de saneamento básico: 250 metros de rede de esgoto. Eu já tinha pedido isso pro prefeito antes mesmo de ser vereador”, diz. Conseguiu também articular a construção de um posto de saúde para o distrito.

Em 1949, casou-se com Djanira Rezende Alves (1929-2020). “Eu gostava muito de dançar com ela”, lembra. Nessa valsa que durou 71 anos, José e Djanira tiveram seis filhos, oito netos e sete bisnetos.

retrato em preto e branco de casal vestido formalmente e posando para foto; os dois estão sorrindo
José e Djanira foram casados por 71 anos - Acervo Pessoal

“Os tesouros que eu tenho", diz José emocionado enquanto seus filhos, Fernando e Cláudia, descrevem um pai sempre presente, calmo e acolhedor, que os estimulava a estudar. “Ele gosta de cuidar e até hoje é assim”, conta Fernando, que nunca deixou de ouvir do pai a clássica recomendação: "Não esqueça de levar um casaco".

Assinante da Folha há mais de 40 anos, José continua a ler jornais todos os dias e a estudar história, sempre atento à política brasileira —como aprendeu com seu avô. Mas agora recebendo o jornal na cidade de Caçapava (SP), onde mora com toda a família desde os anos 1970. Ele chama a mudança para o interior paulista de “o passo mais acertado de sua vida”.

José planejava com entusiasmo a festa para celebrar seus 100 anos, adiada devido à pandemia. Sem se abalar, ele planeja agora a celebração dos 101, quando quer reunir toda a família e amigos. "Ele é assim", diz Cláudia, "está sempre pensando no futuro."

A vida parada em casa não combina com ele. “Eu estou doido para acabar a pandemia e ir no clube dançar. De vez em quando, danço dentro de casa mesmo, com as cuidadoras, sempre danço um 'cadinho' aqui.”

Para chegar aos 100 dançando, José brinca que sempre se alimentou de linguiça e chouriço. Depois, mais sério, conta que é um homem de muita fé e que vibra pela vida. “Há 100 anos eu vou à missa". Ele também faz hidroginástica. E, por onde passa, amizades (foi gentil a ponto de convidar este repórter para a festa de 101 anos).

“Pena que eu ando meio esquecido”, lamenta após a quase uma hora em que narrou sua vida.

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