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Contardo Calligaris narra início de sua trajetória na Folha

Texto inédito de psicanalista revela que sua relação com o jornal começou pela discordância

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Contardo Calligaris

Em 1989, quando me mudei para o Brasil, tentei explicar a um amigo, que trabalhava no financeiro da Folha, por que me interessaria conhecer alguém na diretoria do jornal.

Eu queria saber por que, a cada vez que o jornal escrevia sobre psicanálise, me parecia que eu não concordasse; mas, por outro lado, no conjunto, eu seria incapaz de apontar uma maneira do jornal de tentar entender a psicanálise que me afastasse drasticamente do como eu a entendo e pratico.

retrato em preto e branco de perfil de rosto de homem que fuma um cigarro
O psicanalista, escritor e colunista Contardo Calligaris  - Rogério Assis - 1993/Folhapress

E pedi, então, para meu amigo me apresentar alguém que pudesse me explicar a diferença de conteúdo entre o que eu pensava e o que pensava a Folha, o jornal com o qual eu dialogava a cada manhã. Meu amigo fez essa intermediação.

Eu apresentei a alguém —que na minha memória era Cioffi [Silvio Cioffi, ex-editor de Tendência/Debates e de Turismo da Folha]— a minha pergunta. Cioffi (se é que foi Cioffi) teve uma reação editorial perfeita. Ele levantou, foi para o almoxarifado e pegou uma centena de folhas de papel (daquele lindo papel pautado que se usava mandatoriamente na época, nos jornais, para mandar textos) e me entregou, dizendo: “Então, Contardo, faça o que a gente espera. Escreva, e devolva.”

Perguntei ainda: e você imagina que eu te mandarei pedaços de teoria psicanalítica sobre os quais o jornal discorda de mim? Ou reflexões sobre a psicanálise, ou o mundo visto pela psicanálise, com as quais eu presumo que o jornal concorde comigo? Atribuindo-lhe um comportamento um pouco mítico, Cioffi deve ter respondido: “É isso que veremos.”

O oráculo, ao fim da jornada, talvez viesse a me dizer: não sei se você alcançou as respostas que buscava. Mas saiba que este foi um espaço privilegiado no qual você não deixou de formular as questões fundamentais para você mesmo, e quem sabe para outros, a cada semana, nestas duas últimas décadas.

Obrigado, Folha.

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