Repórter e editor, Brickmann testemunhou penúria e efervescência da Folha

Ele começou aos 18 anos no jornal e teve três passagens pela empresa ao longo de 30 anos

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São Paulo

Em 100 anos de vida, a Folha alternou momentos de penúria e efervescência, e poucos jornalistas puderam testemunhar os dois extremos.

Um deles foi Carlos Brickmann, 76, que trabalhou na empresa durante três períodos ao longo de quase 30 anos.

homem gordo, branco e careca está com os braços cruzados na frente de uma janela; ele cruza os braços e e sorri levemente
O jornalista Carlos Brickmann - Acervo Pessoal

Entrou pela primeira vez em 1963, aos 18 anos, para fazer o chamado “copy desk”, uma espécie de redator que arrumava textos mal ajambrados de repórteres, função hoje extinta. “A regra na época era ter a pessoa que sabia reportar, mas não sabia escrever”, diz ele.

A Folha, afirma Brickmann, era um jornal em situação crítica, que havia sido adquirido no ano anterior pelos empresários Octavio Frias de Oliveira (1912-2007) e Carlos Caldeira Filho (1913-1993).

“Os donos passavam mais tempo dentro de bancos negociando dívidas do que na Redação”, diz. Sinais de penúria estavam por todo lado, como na única mesa com meia dúzia de telefones disponíveis, disputadíssimos pelos jornalistas. “Tinha um boy que ficava ao lado dos telefones esperando linha. Quando dava a linha, era uma fila de gente querendo telefonar”, recorda-se.

Brickmann havia entrado no jornal meio por acaso, desanimado por ter sido reprovado no científico, equivalente hoje ao ensino médio. Um tio viu um anúncio de vaga e sugeriu ao rapaz que tentasse, por saber que gostava muito de redação.

Aprovado, foi trabalhar na chamada “edição caipira”, que ia para o interior do estado. Para isso, tinha que estar concluída às 18h. “O Frias dizia que jornal tinha que chegar cedo na casa do leitor, senão não servia para nada”.

Brickmann saiu após um ano, e rodou por outros veículos. Quase duas décadas depois, estava de volta, a um jornal bem diferente.

“O Frias era um construtor, um pedreiro. Quando ele resolveu os problemas da empresa, aí começou a construir um jornal. Vieram uns caras de universidade, foram atrás de pessoas no mercado. Chegamos eu, Ricardo Kotscho, Clóvis Rossi e outros. Era como se o jornal dissesse: agora nós vamos competir”.

Era o início de um dos eventos mais marcantes da história do jornal, a campanha das Diretas Já. Brickmann chegou como repórter especial, com a missão de ser parte do time que iria cobrir aquele momento de transformação da sociedade brasileira.

“Estive num dos primeiros comícios, em Curitiba, no início de 1984. Momento histórico, cheio de gente, mas no meio tive que sair para telefonar para a Redação e mandar a reportagem. Acabei perdendo uma imagem que ficou marcada, a do prefeito da cidade, Mauricio Fruet, engolindo uma borboleta bem no meio do discurso”, diz.

No fim daquele ano, foi escalado para reerguer a Folha da Tarde, jornal do grupo que enfrentava turbulências. Ficou até 1989, quando saiu para trabalhar na campanha presidencial de Paulo Maluf.

“Quando eu saí, o Frias me disse que era como se eu estivesse tirando férias prolongadas, porque voltaria logo depois”. Foi o que aconteceu. Com a derrota de Maluf, Brickmann voltou para sua antiga função na FT, onde ficou mais dois anos.

Depois de deixar o jornal, dedicou-se à carreira de consultor e assessor de imprensa. Vez por outra, passava pela Folha, para algum compromisso de cliente.

Numa das visitas, encontrou Frias, que pediu sua opinião sobre uma ideia ousada que tivera: chamar João Pedro Stedile, coordenador nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), para ser colunista do jornal.

“Eu disse que achava ótimo porque era um cara diferente, ia dar muita polêmica, e isso ia ser bom para o jornal. Ele [Frias] me disse que se eu, que era um conservador, achava bom, então estava decidido”. A ideia acabou não prosperando, no entanto.

A imagem de conservador, diz Brickmann, sempre o acompanhou, mas nunca lhe deu problemas, com uma exceção. “Quando eu fui contratado para as Diretas, algumas pessoas não me queriam na Folha. O Ricardo Kotscho me defendeu, dizendo: ‘vocês querem fazer um jornal ou um partido político?’”.

Ao ver a Folha de hoje, ele diz admirar a força de um jornal que se recuperou de uma situação pré-falimentar para ser o maior do país. “Eu posso dizer que peguei a Folha da miséria ao auge”, diz.

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