Descrição de chapéu Folha, 100 Humanos da Folha

Tavares de Miranda inovou colunismo social em São Paulo

Jornalista e poeta nascido em Pernambuco deu caráter mais noticioso à cobertura da alta sociedade

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

“Ele era um influencer antes de a palavra existir”, conta a ex-editora da Ilustrada Helô Machado sobre o jornalista José Tavares de Miranda (1916-1992), cuja coluna social foi publicada diariamente na Folha por mais de três décadas.

Para a alta sociedade paulistana, dos anos 1950 a meados dos anos 1980, um sinal do sucesso de um evento era a presença de Ângelo Pirozelli, “o fotógrafo do Tavares”, lembra Helô. O efeito era ainda maior se o próprio colunista estivesse na festa.

O jornalista Tavares de Miranda - Folhapress

Nascido em Vitória de Santo Antão, em Pernambuco, Tavares filiou-se, ainda muito jovem, ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) no início da década de 1930. Ingressou no curso de direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) aos 18 anos, período em que foi preso algumas vezes pelo Estado Novo de Getúlio Vargas.

A repressão política fez com que Tavares deixasse seu estado natal para viver em São Paulo, onde conseguiu seu primeiro emprego no jornalismo. No final da década de 1930, passou a trabalhar como repórter policial do Diário da Noite, do grupo Diários Associados, comandado por Assis Chateaubriand.

Poeta, autor do livro “Tampa de Canastra”, foi nos saraus promovidos pelos estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco que ele conheceu Emerentina de Oliveira Ribeiro, a Nini, com quem se casou e teve três filhas, Hercília, Maria Teresa e Ana —esta última foi assessora de imprensa de Fernando Henrique Cardoso durante muito anos.

Em 1945, Tavares migrou para a Redação da Folha da Manhã e da Folha da Noite (esses dois jornais mais a Folha da Tarde passaram a circular sob um só nome, Folha de S. Paulo, em 1960).

Começou a assinar uma coluna social alguns anos depois. À época, a seção trazia resumos de datas e eventos, como mortes, casamentos e nascimentos. Tinha pouca ênfase jornalística, portanto.

Foi Tavares quem mudou o enfoque, unindo o faro de repórter ao trânsito fácil pelos espaços das elites intelectual, econômica e política de São Paulo, conquistado por sua personalidade sedutora e divertida.

Culto e festeiro, ele transformou o espaço com seu nome em algo novo, que extrapolava o colunismo social e trazia informações importantes da economia e da política nacionais. Ao menos para quem soubesse ligar os pontos entre a vida da alta sociedade e os fatos políticos.

reprodução de página antiga de jornal
Coluna de Tavares de Miranda, publicada em 12 de dezembro de 1969, comenta o milésimo gol de Pelé e a semana da Marinha - Acervo Folha

“A coluna era famosa porque ele sabia apurar e desmontava farsas quando tentavam se aproveitar dele. Era muito sabido e cioso do que era informação”, conta o jornalista Miguel de Almeida que, recém-chegado à Folha na década de 1980, aproximou-se de Tavares em uma relação de amizade e troca intelectual.

“Via-se muita movimentação política na coluna dele, como recados do Exército para os civis e nomeações que estavam para acontecer. Era muito próximo dessas fontes de poder”, completa. Por se tratar de um comunista que circulava pela “high society”, Almeida brinca: “Era o cachorro tomando conta da linguiça”.

Mas a ligação com a doutrina comunista não resistiu ao tempo. Ateu na juventude, Tavares se reaproximou da Igreja Católica com o passar dos anos e, do ponto de vista político, inclinou-se para a direita, particularmente para o malufismo.

Segundo Helô, ele ia à missa todos os dias por volta das 5h e, em seguida, era um dos primeiros a chegar à Redação, onde começava a preparar sua coluna. Dedicava as tardes ao descanso, e as noites eram tomadas por festas e eventos.

A coluna refletia a diversidade de interesses do próprio Tavares, que dava às futilidades de jantares a substância de notícia, sem perder a leveza necessária ao espaço da coluna social. Assim, caiu nas graças da alta sociedade.

A coluna [de Tavares de Miranda] era muito respeitada porque combinava modernidade e profundidade. Ele sabia andar por terrenos pantanosos, não era nem leviano nem pueril

Miguel de Almeida

jornalista que foi colega de Tavares de Miranda na Folha nos anos 1980

“O Tavares tinha uma função importante para o seu Frias [Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha a partir de 1962]. Ele trazia a elite paulistana para o jornal e abria as portas do jornal para esse mundo”, diz o jornalista Leão Serva.

Durante algum tempo, Serva teve uma função inusitada: ajudar Tavares a escolher o versículo da Bíblia que seria publicado com a coluna, uma particularidade que se tornou tradição.

“A coluna era muito respeitada porque combinava modernidade e profundidade. Ele sabia andar por terrenos pantanosos, não era nem leviano nem pueril”, afirma Miguel de Almeida.

Tavares deixou o jornal em 1986 em meio às inovações do Projeto Folha. A jornalista Joyce Pascowitch assumiu o espaço.

O pioneirismo de Tavares contribuiu para que a coluna social à moda antiga caísse em desuso. O pernambucano que conhecia tão bem a elite paulistana ajudou a renovar a imprensa brasileira.

José Tavares de Miranda (1916-1992)

Nascido em Vitória de Santo Antão, em Pernambuco, mudou-se na década de 1930 para São Paulo, onde iniciou sua carreira de jornalista como repórter policial no Diário da Noite. Começou a trabalhar na Folha da Manhã e na Folha da Noite em 1945 e, anos depois, passou a assinar uma coluna social. Transformou o espaço, incorporando informações importantes sobre figuras influentes do cenário político nacional. A coluna existiu até 1986.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.