Prédio do World Trade Center foi descrito como 'reino da informática' em 1ª aparição na Folha

Prédios derrubados no 11 de Setembro estrearam nas páginas do jornal em 1970, três anos antes da inauguração

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Inaugurado em 4 de abril de 1973 na ilha de Manhattan, em Nova York, nos EUA, após sete anos de construção, o World Trade Center era um complexo formado por sete prédios, sendo o One World Trade Center o mais alto deles, com 417 metros. O World Trade Center 2 era pouco menor, com 415 metros. Os dois eram mais conhecidos como as Torres Gêmeas.

Projetado para ser o edifício mais alto do mundo, o posto foi perdido em 1974 para a Sears Tower, de 443 metros, em Chicago, também nos EUA. Em 1998, as torres gêmeas Petronas Tower, de 452 metros, em Kuala Lumpur, na Malásia, conquistaram o topo do mundo até aquele momento —o Burj Khalifa, de 2010, em Dubai, ostenta o rótulo atualmente.

O lugar no ranking pouco importava. As Torres Gêmeas eram os prédios mais conhecidos do mundo, símbolos do capitalismo americano e presença quase certa em filmes rodados em Nova York nos quase 30 anos em que estiveram de pé.

A ideia de ter um complexo comercial no coração da ilha de Manhattan já vinha sendo cogitada desde pelo menos 1943, ano em que a Assembleia Legislativa do Estado de Nova York aprovou uma lei para começar a desenvolver planos para o projeto, mas a conversa não evoluiu até os anos 1960.

Só em 1966 a pedra fundamental foi lançada para erguer os prédios cujo objetivo era agrupar administrações e serviços comerciais dispersos por toda a cidade e assim firmar-se como polo financeiro mundial. Cerca de 50 mil pessoas trabalhavam no complexo até 11 de setembro de 2001.

Naquele dia, terroristas ligados à Al Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais. Dois deles se chocaram contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York; o primeiro, às 8h46, e o segundo, às 9h03. O terceiro colidiu contra o Pentágono, em Arlington, Virgínia, nos arredores de Washington. Já o quarto avião caiu em um campo aberto próximo de Shanksville, na Pensilvânia. Cerca de 3.000 pessoas morreram nos ataques, 2.753 nas Torres Gêmeas.

Na seção Primeira Vez, a Folha relembra a menção inicial a “World Trade Center” em suas páginas centenárias —segundo resultado na busca do Acervo realizada em 10 de setembro de 2021.

A primeira vez ocorreu em 21 de julho de 1970, em uma pequena nota no primeiro caderno. O texto era um despacho de agência internacional e trazia alguns aspectos importantes do World Trade Center, sobretudo como foi pensado para ser um prédio moderno e tecnológico, um “reino da informática”.

O funcionamento da complexa central telefônica, da ventilação e de sistemas de informática numa era ainda pré-internet comercial são destaques no texto assinado por Lucien Neret, da agência France-Presse (AFP).

A seguir, a íntegra.


O maior prédio do mundo terá 400m de altura

LUCIEN NERET
Copyright AFP-FOLHA

No bairro de Manhattan, nas proximidades de Wall Street, está sendo construído o maior edifício do mundo. 110 andares e duas torres com 400 metros de altura. O conjunto está previsto para abrigar, a partir de 1973, o World Trade Center, o centro comercial de Nova York, no qual estarão agrupadas administrações e serviços atualmente dispersos por toda a cidade.

Para sua construção já foi necessário já foi necessário apelar para a eletrônica e também paradoxalmente para os índios. Somente eles são temerários bastante para se arriscar nos arcabouços metálicos em vias de construção. E esses índios se tornaram especialistas do trabalho na construção metálica, quando há necessidade de aparafusar e juntar, a várias centenas de metros do solo. Quase que só eles aceitaram içar-se sobre os arcos imensos das maiores pontes norte-americanas.

De qualquer forma, e quando a construção estiver terminada, a eletrônica retomará rapidamente seus direitos. A central telefônica, por exemplo, deverá “gerir” mais de 50 mil aparelhos que funcionarão praticamente sem interrupção, entrando em comunicação com as praças financeiras ou comerciais do mundo inteiro. Mas o telefone será apenas um dos meios de comunicação postos à disposição dos milhares de usuários. A televisão em circuito fechado, o rádio também serão utilizados amplamente.

Na maioria dos escritórios serão instalados terminais de ordenadores. E o “World Trade Center”, domínio do mundo do comércio mundial, será verdadeiramente o reino da informática. Aliás, de que outro se poderia gerir essa espécie de cidade vertical? Quando os que a conceberam já encaram sua ampliação?

Para tomar conta do condicionamento do ar nos milhares de escritórios das duas grandes torres, bastará só um homem. Com o auxílio de um único quadro de comando, esse homem será capaz de controlar duzentos sistemas de condicionamento de ar por minuto. Poderíamos, assim, alinhar números até quase o infinito. Milhares de toneladas de água que serão retiradas, e em seguida lançadas no Hudson, servirão para a refrigeração. Centenas de motores e milhares de parâmetros provenientes dos censores dispostos no interior e no exterior dos edifícios estarão a serviço do ordenador-mestre.

Para se conseguir um condicionamento de ar satisfatório, é necessário levar em conta permanentemente a temperatura exterior (uma temperatura que varia entre a base do edifício e o teto) e condições internas. De acordo com o dia da semana, um programa especial acionará ou interromperá o condicionamento, a fim de que, nos fins de semana, os sistemas caríssimos não funcionem. O meteorologista eletrônico, será, assim, um dono de casa econômico.

Todavia, os principais usuários dos enormes meios de informática disponíveis serão evidentemente os empregados de comércio. O sistema de “tempo repartido” permitirá a cada qual consultar o batalhão de ordenadores mantido permanentemente em pé de guerra. Vendas, locações, compras, operações bancárias só serão tratadas por terminais interpostas. Nunca um só usuário do World Trade Center terá que se locomover para ir à biblioteca. Esta pelo menos no que se refere aos documentos em relação direta com as atividades do Centro será conservada em memoriais gravadas: cotações de gêneros em todas as partes do mundo, taxas de seguros, previsões das partidas e chegadas dos vapores.

Mas ninguém esquecerá que o comércio é também um combate e que os espiões estão em toda parte. A rapidez de obtenção de qualquer informação não deve fazer esquecer que num setor em que dinheiro é rei, ao lado do ordenador, alguns segredos devem ser preservados. Antes de poder perguntar ao ordenador, cada qual deve identificar-se e dar a senha. Naturalmente, uma senha eletrônica.


  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.