Futuro da longevidade pressupõe diversidade e inclusão

Fórum internacional debate efeitos da pandemia para a construção de futuro mais igualitário

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Karla Giacomin

Geriatra, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e vice-presidente do Centro Internacional da Longevidade (ILC) no Brasil ​

Na semana passada, 18 de novembro, os temas centrais do 9º Fórum Internacional da Longevidade foram diversidade e inclusão.

A pandemia deixou patente que o mundo envelhece rapidamente em um contexto de crescente diversidade. Mais do que nunca, é necessário priorizar a inclusão social e adotar mecanismos para que ninguém seja deixado para trás. Estas palavras soam vazias se não traduzidas por políticas voltadas para os grupos mais vulneráveis.

Entre as consequências mais trágicas da pandemia, está a constatação de que mundo afora os que mais morreram e sofrem sequelas (de duração ainda desconhecida) são os mais vulneráveis social e fisicamente.

A palestra de abertura foi de Sofiat Akinola que, ao longo dos últimos três anos, tem atuado como líder do conselho sobre o futuro da longevidade do Fórum Econômico Mundial.

Sua mensagem principal está centrada na questão de gênero. Mesmo não sendo as vítimas fatais mais numerosas, as mulheres são as que mais têm sofrido com a pandemia pela perda de emprego, pela sobrecarga de trabalho (cuidando dos filhos e familiares mais idosos) e pela violência doméstica.

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Alunas da Fundação Sérgio Contente, no bairro do Tatuapé, em São Paulo, aprendem a digitar e usar o mouse; na sua participação no fórum, Alexandre da Silva destacou a importância da aprendizagem ao longo de toda a vida - Danilo Verpa - 6.mar.2018/Folhapress

Akinola também chamou atenção para a importância da cobertura universal para a saúde, que a todos beneficia, sobretudo os excluídos por questões sociais, econômicas, local de moradia e idade.

À sua palestra de abertura, seguiram-se três debatedores, todos associados ao Centro Internacional da Longevidade - Brasil.

Alexandre da Silva, doutor em saúde pública pela USP, chamou atenção para "o Brasil que envelhece de forma tão desigual, com a ausência de ações para a inclusão da diversidade e continuidade das práticas discriminatórias".

Problemas sociais já existentes se agravaram com a pandemia e afetam ainda mais pessoas idosas, sejam quilombolas, em situação de rua, LGBTI+, imigrantes de pele escura e aquelas privadas de liberdade.

As soluções, segundo ele, passam pela mobilização de toda a sociedade, pelo maior empoderamento de idosas e idosos, garantindo aprendizagem ao longo da vida, trabalho e redes de apoio.

O jornalista Yuri Fernandes enfatizou a enorme carência da comunidade LGBT+ de referências na velhice. A invisibilidade social e midiática acarreta, com frequência, uma ausência de projeção de futuro e, consequentemente, medo do envelhecer em solidão.

Daí a urgência no protagonismo de idosos LGBTI+ como modelos para desmistificação da desesperança e para o acolhimento desse grupo que abriu com determinação as portas dos armários e que resistirá com veemência ser empurrada de volta para eles.

O geriatra Milton Crenitte apontou para mudanças fisiológicas que ocorrem nos corpos de todos, como a redução de lubrificação vaginal nas mulheres ou o declínio da ejaculação nos homens. Não são elas, no entanto, as principais causas de dificuldades nessas vivências e, sim, os preconceitos.

Homens idosos com receio de serem considerados safados ou indecentes; mulheres, assanhadas ou sem pudor. Por isso, a formação de profissionais competentes e a busca por estratégias para abordar essa temática sem tabus são fundamentais para ajudar as pessoas idosas a expressar sua sexualidade.

Foi feita também referência a um estudo do Tribunal de Contas da União (TCU), de 2017, mostrando que um preso custava, em média, R$ 23 mil por ano. A quantia que o Estado brasileiro investe para garantir o cuidado a uma pessoa idosa institucionalizada representa entre 2% e 4% deste valor, menos de R$ 800. O que justifica esta diferença é a expectativa de que a família cuidará, sempre.

E se não há família ou se ela consegue garantir este cuidado?

SÉRIE DISCUTE QUESTÕES DA LONGEVIDADE

A seção Como Chegar Bem aos 100 é dedicada à longevidade e integra os projetos ligados ao centenário da Folha, celebrado neste ano de 2021. A curadoria da série é do médico gerontólogo Alexandre Kalache, ex-diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde).

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