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Alexandre Kalache

Desmond Tutu nos mostrou a importância de ter um propósito

Ativista sul-africano contra o apartheid, detentor do Nobel da Paz, morreu aos 90 anos em dezembro de 2021

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Alexandre Kalache

Médico gerontólogo, presidente do Centro Internacional de Longevidade no Brasil (ILC-BR)​

Era o outono de 1991 e fazia muito frio. Eu havia chegado cedo a Oslo, na Noruega, para uma reunião de trabalho.

Instalei-me no hotel e, apesar da garoa, resolvi caminhar para conhecer a cidade. Era um domingo e havia pouca gente nas ruas. Comecei a congelar, até que vi muitas pessoas andando em direção à catedral. Os sinos badalavam. Pensei: deve ser o culto de meio-dia, vou junto, pois deve estar mais quentinho lá dentro.

No átrio da catedral, ouvi uma voz bastante familiar. Entrei. No púlpito, estava o bispo Desmond Tutu, que morreu em 26 de dezembro de 2021. Era, certamente, a única pessoa negra no templo superlotado. Logo ouvi a razão de estar ali: ele agradecia "o que vocês fizeram".

retrato de Desmond Tutu. ele está sorrindo, apoiando o rosto em uma das mãos
O arcebispo sul-africano Desmond Tutu, ganhador do Nobel da Paz - Trevor Samson - 22.ago.1986/AFP

E o que teriam feito todos aqueles bem agasalhados noruegueses? Eram os responsáveis pelo fim do apartheid. "Sem a luta de vocês, não teríamos logrado". E pediu uma salva de palmas celebrando o grande feito.

De início, elas foram tímidas. E Tutu conclamava: "Não, o que vocês fizeram merece palmas mais vibrantes, foi um feito grandioso".

As palmas se tornaram mais vigorosas. "Não! Vocês merecem mais, muito mais", disse, abrindo seus braços, abarcando toda a congregação. E os noruegueses ainda seguiam meio incrédulos de que aquele bispo sul-africano estivesse ali para atribuir a eles o final do apartheid.

Tutu persistiu e foi instilando mais e mais confiança no autorreconhecimento do "grande feito da congregação". Finalmente disse: "O que vocês fizeram é tão grande, tão nobre, que vocês merecem uma salva de pé". E terminou convencendo-os. Aquelas pessoas todas ali se levantaram e terminaram em júbilo, abraçando umas às outras. A Catedral de Oslo jamais havia presenciado uma manifestação tão entusiástica.

Havia a mágica do carisma e o poder de transmitir uma mensagem inclusiva, de levar uma catedral repleta a emanar orgulho e, assim, disseminar a mensagem central de que, unidos, podemos conquistar o impossível. Toda aquela gente loura e bem nutrida acabou se convencendo de que, sim, era responsável pelo fim do apartheid.

A presença de Tutu em Oslo devia-se à entrega do Prêmio Nobel da Paz daquele ano. É comum detentores do prêmio em anos anteriores estarem presentes nas cerimônias de entrega a agraciados posteriores. Ele havia recebido o Nobel em 1984.

Tutu poderia ter encerrado ou, ao menos, reduzido seu ativismo àquela época. Pelo contrário. Ele seguiu sendo um campeão de causas mundo afora até ser obrigado a desacelerar, por conta da doença que acabou o levando à morte, aos 90 anos.

Era conhecido pelo humor contagiante, pelo carisma, pela integridade, pela resiliência, pela fidelidade por suas convicções e pelo intelecto sofisticado. Também pela clareza e pela coragem moral. Pela sagacidade e pela positividade. Era terno e compassivo com as vítimas de opressão, injustiça e violência mundo afora.

Com o fim do apartheid, Tutu presidiu a Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul, concedendo perdão sem jamais transigir na busca de fatos e na atribuição de culpas.

Mas seu maior legado é o da importância de ter um propósito, de assumir uma missão, o que Tutu fez até o limite de sua capacidade física. Parafraseando Voltaire, ele afirmava: "Cada um de nós é culpado por todo bem que poderia ter feito, mas não fez".

A longevidade permitiu que seu legado crescesse com um impacto que ecoará por gerações. Tutu nos deixa a provocação: qual é o nosso propósito, a nossa missão, como gostaríamos de ser lembrados?

SÉRIE DISCUTE QUESTÕES DA LONGEVIDADE

A seção Como Chegar Bem aos 100 é dedicada à longevidade e integra os projetos ligados ao centenário da Folha, celebrado em 2021. A curadoria da série é do médico gerontólogo Alexandre Kalache, ex-diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde).

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