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22/06/2003 - 06h31

Petista institui novos hábitos em Brasília

GABRIELA ATHIAS
da Folha de S.Paulo, em Brasília

Os hábitos da chamada corte brasiliense --a cúpula do governo federal e seu séquito-- sofreram uma reviravolta com a chegada dos petistas ao Palácio do Planalto.

Saiu de cena o estilo requintado do casal Fernando Henrique e Ruth Cardoso, que recebia os amigos com quitutes da chef Roberta Sudbrack, especialista em cozinha internacional. No lugar, entraram os hábitos mais populares e comuns à maioria dos brasileiros, de Luiz Inácio Lula da Silva e Marisa Letícia, que são apaixonados por churrasco.

Uma das mudanças mais visíveis dos novos tempos é o roteiro cultural e gastronômico dos ocupantes do poder. Quando chega a hora de afrouxar a gravata e relaxar com os amigos, o restaurante Piantella, o mais tradicional reduto de políticos de Brasília, não está entre as primeiras opções dos petistas.

Para bater papo, os petistas do primeiro escalão vão ao Armazém do Ferreira, um bar a céu aberto que pertence ao empresário Jorge Ferreira, um dos fundadores do PT e amigo de longa data do presidente Lula.

De Antonio Palocci (Fazenda) e José Dirceu (Casa Civil), os ministros mais poderosos da Esplanada, ao secretário particular do presidente, Gilberto Carvalho, quase todos os petistas já se sentaram pelo menos uma vez no local.

"Aqui eles se sentem em casa", diz Ferreira.

Já o Feitiço Mineiro, que também pertence a Ferreira, é o restaurante mais frequentado, inclusive pelos assessores importantes.

E a importância de uma pessoa na corte brasiliense não é nada subjetiva. É identificada por três letras e um número: o chamado cargo de DAS (Direção e Assessoramento Superiores). Os mais valiosos variam de 4 a 6, com salários escalonados entre cerca de R$ 4.000 e R$ 7.000, respectivamente.

Nos finais de semana, o Feitiço Mineiro apresenta shows de artistas brasileiros, principalmente sambistas, que são disputados pelos petistas.
Ou eles estão lá ou numa das dez salas de cinema da Academia de Tênis.
O Faisão Dourado, um restaurante que tem como especialidades picanha e filé na chapa, também tem atraído petistas, mas só durante a semana.

Mala e cuia

Pelo menos a metade do primeiro escalão do governo --37 pessoas, dos ministros de Estado ao presidente do Banco Central-- mudou-se para Brasília com o início da nova gestão, em janeiro. Desse grupo, no mínimo 13 vieram de mudança completa, dessas que incluem até o bicho de estimação dos filhos.

Juliana, 11, a filha do presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP), trouxe coelho e cachorro para a residência oficial.

O próprio presidente Lula incluiu na bagagem a cadela Michele, que, depois de ser fotografada sendo transportada por um carro de uso exclusivo da Presidência, acabou expatriada da vida palaciana e voltou para o apartamento da família, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

Trazer um coelho para uma residência oficial pode ser um pouco estranho, mas nada se compara ao inusitado caso dos bichos que o ministro Ricardo Berzoini (Previdência) "adotou" quando alugou uma casa no Lago Norte para morar com a mulher, Sonia, e os dois filhos pequenos.

A casa, que ficou fechada por alguns meses, já era habitada por uma pastora alemã, batizada de Lessie pelo dono original, e por um papagaio, sem nome.

O resultado da convivência entre os dois animais foi inusitado: a ave, que tem o hábito de repetir sons, aprendeu a latir. Ou seja, Berzoini tem um papagaio que late. Mas ele não faz isso sempre. Só quando chega alguma visita, brincam os amigos.

Em família

Os hábitos dos Berzoini são uma espécie de padrão entre os ministros --aproveitam ao máximo o tempo livre para ficar com os filhos e encontrar os amigos nos finais de semana na casa de alguém.

A maioria está gostando de morar na capital federal. "Sinto até uma certa culpa por não ter tanta saudade de São Paulo", diz Gilberto Carvalho.

Henrique Meirelles, do Banco Central, está gostando tanto da cidade que já procura até uma casa para comprar num dos lagos. Prefere o Sul, onde fica a Península dos Ministros, endereço dos poderosos.

Enquanto ensaia voltar a jogar tênis e se esquiva do futebol com o presidente no Palácio da Alvorada, Berzoini faz caminhadas matinais pelo calçadão do Lago Norte. "Ele admite que está fora de forma", diz um assessor.

Gilberto Carvalho, que encerra o expediente às 22h, volta para casa, calça tênis e anda pelas ruas da quadra onde mora. "É impensável fazer isso em São Paulo", diz o secretário de Lula.

Luiz Gushiken (Comunicação de Governo) é outro que encontra tempo para ir à academia todos os dias, apesar da agenda apertada.

Mesmo quem ainda mora em hotel faz uma forcinha para dar um toque pessoal ao local e aquecer a vida familiar.

Ciro Gomes (Integração Nacional) colocou no seu apartamento na Academia de Tênis um fogão elétrico de duas bocas. Cozinha macarrão, sua especialidade, e convida Iuri, o filho caçula, que também se mudou para Brasília com a mãe, a senadora Patrícia Gomes (PSDB-CE).

Os clubes da cidade, onde a elite candanga se encontra, não atraem os petistas. Mas as mulheres já descobriram o endereço do salão de beleza de Hélio Nakanihi, considerado o melhor da cidade. Ele, que trabalha há 27 anos em Brasília, diz que os petistas "mostram simplicidade só no comportamento, mas não no padrão de consumo". As mais assíduas são Elizabeth e Helena Gushiken, mulher e filha do ministro.

Quem tem filhos em idade escolar optou por escolas consideradas de ponta, mas todas dentro do padrão da classe média-alta da cidade, com preços que variam de R$ 500 a R$ 700. Ninguém informou ter filhos estudando em escolas estrangeiras, hábito comum entre os diplomatas.

Fim de Semana

Flora, a mulher do ministro Gilberto Gil (Cultura), diz que sente falta das opções culturais de São Paulo, porém faz uma ressalva: "Programávamos várias coisas, mas acabávamos tão cansados que a melhor alternativa era ficar em casa".

O que mais encanta os novos poderosos são o tempo que sobra em razão da falta de trânsito, o baixo índice de violência e a grande quantidade de áreas verdes. Somando tudo, dizem, o resultado é menos estresse e mais energia para encontrar os amigos nos finais de semana.

Dentro da corte também há aqueles que não frequentam o Alvorada nem entram no circuito de diversões petistas. Um exemplo é a ministra Marina Silva (Meio Ambiente), que tem atuação bem avaliada pelo Planalto. Nos finais de semana, vai à igreja e passeia com os quatro filhos.

Os que mais se encontram acompanhados de mulher e filhos nos finais de semana são os ministros José Dirceu, Luiz Gushiken, Antonio Palocci, José Graziano (Segurança Alimentar), Tarso Genro (secretário-executivo do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social), Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência) e José Fritsch (Pesca), além de Gilberto Carvalho e do porta-voz André Singer.

Os encontros são geralmente na forma de almoços e costumam ocorrer na casa de alguém do grupo. Os que mais recebem são a assessora de José Dirceu, Telma Feher, e o ministro Fritsch, que sempre serve peixe. Palocci e Singer já ofereceram churrasco.

No domingo passado, por exemplo, Fritsch, Olívio Dutra (Cidades), Carvalho, Singer e Jorge Ferreira almoçaram com a família de Lula no Alvorada.

Os cinco fazem parte da seleta lista dos que são considerados próximos do presidente.
 

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