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28/08/2005 - 10h50

Comprovar propina a Palocci pode ser "fácil", diz Buratti

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da Folha Online

Rogério Buratti, ex-secretário do ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho, afirmou que não é impossível obter provas de que a Leão Leão pagava propina de R$ 50 mil mensais a Palocci quando ele era prefeito de Ribeirão Preto (SP) pela segunda vez, entre 2001 e 2002, segundo reportagem publicada neste domingo pela Folha de S.Paulo.

Buratti fez a denúncia contra Palocci e a empresa, responsável naquela época pela limpeza de Ribeirão, a promotores de São Paulo e, depois, a reafirmou na CPI dos Bingos. Disse, porém, que não tinha provas.

"Uma investigação razoável consegue comprovar que existia um fluxo de saída de dinheiro da empresa", declarou Buratti em entrevista à Folha.

Os saques feitos em dinheiro nos postos bancários do Bradesco e do Banespa que funcionavam dentro da Leão Leão são o caminho para, segundo ele, confirmar as acusações. Ele disse que resolveu falar o que sabia depois que o marqueteiro Duda Mendonça revelou, na CPI dos Correios, a existência de caixa dois na campanha do PT de 2002.

Confira, a seguir, a entrevista publicada neste domingo pela Folha de S.Paulo:

Folha - O governo desqualificou a acusação sobre a propina que o ministro Palocci teria recebido da empresa Leão Leão com o argumento de que o sr. não apresenta provas. É possível obter provas?

Rogério Tadeu Buratti - Acho que é. Nós vivemos num momento onde as acusações são lançadas e depois as pessoas vão atrás das provas, confirmando ou não o que é falado. A própria investigação do "mensalão" foi isso. A princípio, o governo também desqualificou as acusações. Falou que era leviandade do deputado Roberto Jefferson [PTB-RJ] e depois nós todos fomos sendo surpreendidos por evidências que levavam a constatar que era verdade.

Eu acho que uma investigação razoável consegue comprovar que existia um fluxo de saída de dinheiro da empresa. Agora, nós não vamos comprovar a entrega do dinheiro. Mas nós vamos comprovar que existia um fluxo de saída de dinheiro da empresa.

Folha - A saída era por meio de cheques?

Buratti - Era por meio de saques bancários.

Folha - Há registro contábil da saída?

Buratti - Tem, sempre tem. A empresa tinha todo o cuidado do mundo de fazer com que sua contabilidade fosse correta. E era. Por emissão de notas, você tem saques em dinheiro e eles representavam isso --os pagamentos.

Folha - Quem na empresa autorizava esses saques?

Buratti - A empresa como um todo. Não existia uma pessoa. Era uma política da empresa.

Folha - O presidente da Leão Leão, Luiz Claudio Leão, sabia que a empresa pagava essa mesada a Palocci?

Buratti - Toda a diretoria sabia. Eu soube porque era da diretoria.

Folha - Então, há testemunhas de que Palocci recebia o dinheiro?

Buratti - De que o Palocci recebia, não. Há testemunhas de que havia saques.

Folha - Que eram entregues à Prefeitura de Ribeirão...

Buratti - De Ribeirão e de outras cidades.

Folha - O sr. estaria disposto a colaborar na obtenção das provas?

Buratti - O Ministério Público escolheu um caminho, desde o ano passado, de coleta de provas. Buscou na contabilidade da empresa vários documentos. Eu acredito que hoje eu não possa colaborar com isso. Não porque não saiba. Mas porque eu nunca acompanhei o registro contábil das operações. Acho que a apuração, a quebra de sigilo que vai ser feita, a investigação que está em curso é capaz de chegar nisso.

Folha - O sr. acha que o caminho do Ministério Público está correto?

Buratti - O Ministério Público foi duro demais. Tenho dificuldade em dizer que o caminho que ele escolheu é o correto. Mas acho que, a partir do ponto que nós estamos, é possível que eles avancem nessa investigação.

Folha - O seu advogado conta que houve muita pressão para que o sr. retirasse na CPI o que havia dito sobre a propina. O sr. pode contar de onde partiram essas pressões?

Buratti - Honestamente, a mim não chegaram as pressões. Nenhuma das pessoas que me viu nas condições em que fui colocado na semana passada, com a prisão, a roupa amarela, a algema, teve coragem de pedir para eu voltar atrás. Não sei se meu advogado, o dr. [Roberto] Telhada, recebeu pressões. Em momento algum pensei em mudar o que eu tinha dito em Ribeirão. Como eu disse na CPI, foi uma decisão extremamente difícil para mim.

Folha - Foi a decisão mais difícil da sua vida?

Buratti - Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida. Mas, depois que eu a tomei, não recuaria. Prefiro enxergar como uma oportunidade de restabelecer a minha vida. Eu acho que a minha vida foi vilipendiada, atacada sobre todos os aspectos. Tentei enxergar minha prisão não como um meio de virar o jogo, mas para recomeçar a minha vida, com a cara mais limpa, assumindo os eventuais erros que tivesse cometido. Mas, principalmente, porque não sou o único culpado.

Folha - O sr. já disse que se cansou de ser o único vilão da história. Foi isso que o levou a contar sobre a mesada de R$ 50 mil?

Buratti - Não fui formado para ser vilão. Vivo essa contradição há mais de dez anos. Eu tinha uma formação católica, depois entrei na militância política. Não me preparei para assumir o papel que eu tive de assumir.

Folha - O sr. está dizendo que assumiu responsabilidades de outros?

Buratti - Não exatamente. Mas em vários momentos da minha vida, desde 1994, eu acabei focado como a pessoa que fazia coisas erradas. De certa forma, eu absorvi isso. Há pouco tempo eu percebi que era um fardo pesado demais. Eu já vinha nessa crise. E, honestamente, quando percebi que pessoas que tinham trabalhado nas campanhas estavam revelando coisas... Quando eu vi o depoimento do Duda Mendonça numa das CPIs, aquilo me tocou muito. O Duda foi uma pessoa fundamental na eleição do presidente Lula, gozou da confiança íntima do PT e estava ali revelando coisas que eventualmente ele não precisaria ter revelado. Não estou criticando. Ele fez o que a consciência dele mandou.

Mesmo antes de ser preso, eu ficava perguntando: Por que eu? Por que eu fico quieto? Por que eu levo a fama? Tive um diálogo desse com o meu filho de 14 anos, o Tomás. Ele me incentivava. Falava: "A melhor coisa é a verdade". Fiquei pensando nisso. Quando chegou a prisão, não tive dúvidas. Logo que eu fui preso, tinha certeza de que queria dialogar.

Folha - O sr. foi conduzido pelo Ministério Público a incluir o nome do ministro Palocci?

Buratti - Não, não fui. Eu perguntei aos promotores o que eles queriam. Eles falaram que era a questão do lixo. Disse a eles o que eu disse na CPI: posso falar sobre o que eu sei e boa parte das coisas que eu sei, sei porque eu sei, não é porque eu consiga provar. Eu fiquei com medo de que isso não os satisfizesse. Não tenho muito mais informações que pudesse sustentar. A gente sabe de coisas, mas não quer dizer que possa sustentar as coisas que sabe. Eu não fui coagido. O processo todo me coagiu. Não foi a prisão.

Folha - Sem que ninguém lhe perguntasse, o sr. contou na CPI que visitou a casa do ministro Palocci em maio de 2003. O sr. lembra qual foi o motivo da visita?

Buratti - Contei porque acho que, se as relações sociais esporádicas que tive com o ministro fossem abertas, teria se evitado uma série de constrangimentos. A minha mulher à época, a Elza, e meus filhos Tomás e Giovana queriam ver uma exposição em Brasília. Foi uma visita social ao ministro. Fomos à casa dele, tomamos lanche, no sábado. No domingo almocei na casa do Juscelino [Dourado, chefe-de-gabinete de Palocci].

Folha - O sr. conversou sobre a GTech com o ministro?

Buratti - Não, essa visita foi em maio, junho. O processo da GTech já tinha terminado em março, abril de 2003.

Folha - O sr. intermediou um encontro da Somague como o ministro Palocci. Esse grupo português é sócio da Triângulo do Sol, que ganhou concessão de rodovia em São Paulo com a Leão Leão, empresa da qual o sr. foi diretor. Isso não é tráfico de influências?

Buratti - Não. Sempre que precisei de apoios à Leão Leão, à Somague, eu o fiz formalmente. Isso não é tráfico de influência. Tráfico de influência, por definição, é quando você faz com que a pessoa mude ou faça alguma coisa para te favorecer. Solicitar uma audiência com o ministro é um processo rigorosamente normal.

Eu liguei para o gabinete do ministro e disse que o grupo Somague, que ele conhecia da época em que foi prefeito de Ribeirão, queria fazer uma visita de cortesia. Vinha o presidente da Somague em Portugal para essa visita. O Juscelino me orientou a que a Somague mandasse um e-mail para o gabinete e marcasse a visita.

Folha - A Somague não enfrentava problemas na SDE (Secretaria de Defesa Econômica), um órgão subordinado ao ministro?

Buratti - Eu não conheço. Nunca trabalhei para a Somague.

Folha - Por que o sr. fez questão de vestir um camisa da seleção portuguesa de futebol quando foi solto pela polícia? É algum recado sobre negócios em Portugal?

Buratti - Nenhum. Foi a roupa que meu irmão levou.

Folha - Logo depois de ter sido demitido pelo então prefeito Palocci, em 1994, o sr. viajou para os EUA com ele. O que os srs. fizeram nessa viagem?

Buratti - Não foi bem em seguida. Foi a Denver, em abril ou maio de 1995, se não me engano. Naquela época, eu tinha saído da prefeitura e montado a Assessorarte. Como era uma empresa nova, fui trabalhar na Câmara com o deputado João Paulo [Cunha].

Uma das experiências que eu tinha acumulado na prefeitura era no processo de concessão do serviço de esgoto. Tive a oportunidade de preparar o edital, de acompanhar boa parte da licitação. Houve o evento em Denver porque a empresa que tinha ganho a licitação, em um "joint venture" com uma empresa brasileira, era americana, a CH2MHill. Tinha um seminário e convidaram o prefeito. Fui ao seminário porque eu imaginava que poderia atuar nessa área. Esse negócio não prosperou por falta de regulamentação. Estivemos juntos em Denver. Não havia nada errado.

Folha - O sr. poderia explicar que tipo de negócios discute com Vladimir Poletto nas gravações feitas pela polícia? Parece que vocês fazem lobby para o Banco Prosper.

Buratti - O Vladimir trabalhou na Prefeitura de Ribeirão com o secretário Ralf [Barquete, apontado por Buratti como a pessoa que recebia os R$ 50 mil mensais para Palocci]. Ele prestou serviços para mim na Assessorarte. Quando saiu da Prefeitura de Ribeirão Preto, tinha expectativa de ir para o governo federal e não foi. Era um militante antigo do PT, tem uma formação técnica em administração e economia, tem especialização na área financeira.

Foi trabalhar no Rio numa construtora e depois no Banco Prosper, que é do mesmo grupo da construtora. Com a morte do Ralf [no ano passado], houve um vácuo no negócio deles: ele não sabia se o negócio continuava. Ele recorreu a mim como amigo, pedindo opinião. Nunca tive negócios com o Vladimir nem com o Banco Prosper.

Folha - Na CPI, o sr. disse que o PT condenou-o sem ter provas em 1994 ao afastá-lo da prefeitura. Na Justiça, segundo o sr. contou, não houve processo. A acusação de que Palocci receberia propina é uma vingança contra o PT?

Buratti - Não, de forma alguma. A denúncia contra mim partiu de gente do PT, foi fogo amigo. Foram pessoas da prefeitura que furtaram a fita do meu gabinete e divulgaram na imprensa. Na fita, eu converso com empreiteiros sobre cronograma de obras e licitações. Não se fala de dinheiro, de propina. De fato, é uma situação inadequada. A divulgação da fita deveria provocar o que provocou: minha saída do governo, uma CPI, um inquérito civil e um inquérito penal. Não sou avesso às investigações. Admiti meu erro.

Mas nunca achei que o PT tenha tido um comportamento solidário. Eu tinha cometido um erro, mas não havia suspeita de pagamento de propina. Só que isso marcou a minha vida apesar de eu ter sido inocentado. Eu acho que demorou muito tempo para as pessoas do PT falarem que eu tinha sido absolvido. Não é vingança o que estou fazendo. Esse clima que o Brasil vive, essa estupefação em que todo mundo se encontra em razão do que acontece com figuras importantes do PT, me faz acreditar que tudo deve ser passado a limpo e que cada um pague por seus erros.

Folha - O senador Antonio Carlos Magalhães disse na CPI que a história de propina que o sr. contara era uma meia verdade e a resposta do ministro Palocci também era uma meia verdade. Há alguma verdade nessa avaliação do senador?

Buratti - Em 1994, quando fui à Câmara de Ribeirão Preto prestar esclarecimentos, recebi muita solidariedade de pessoas do PFL, do PTB, do PMDB, de partidos que não eram da base do prefeito Palocci. A fala do senador Antonio Carlos Magalhães é uma fala que me fez sentir que eu tinha feito a coisa certa. Eu não tenho por que dizer além do que eu sei em relação ao ministro Palocci.

Folha - Então o sr. confirma que é uma meia verdade?

Buratti - Eu disse o que eu sabia. Como eu disse na CPI, para mim o ministro Palocci é um homem íntegro, correto e tem um papel muito importante nesse país. Eu não assacaria nenhum tipo de calúnia, nenhum tipo de coisa que eu não conseguisse provar que viesse a atingir a honra do ministro. Então, eu falei o que me foi dado a conhecer sobre o ministro Palocci em relação a esse assunto. Mais do que isso eu teria sido leviano.

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