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23/10/2005 - 09h33

Filho de Herzog revela depressão e revolta

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RICARDO MELO
da Folha de S.Paulo

Durante muito tempo, Ivo Herzog amargou seqüelas provocadas pela morte do pai numa cela do aparato repressivo do regime militar. Ivo tinha, na época, nove anos. Como qualquer criança, não imaginava que o pai pudesse partir tão cedo, com apenas 38 anos. Pior: nunca lhe passaria pela cabeça que Vladimir Herzog viesse a ser torturado até a morte.

O choque emocional foi tão grande que o filho começou a ter dificuldades inclusive para comer. Ouviu vários diagnósticos, nenhum conclusivo. Com a ajuda da psicanálise, Ivo agora está convencido de que foi vítima de uma depressão fortíssima, "que talvez tenha durado trinta anos".

Hoje, aos 39 anos, engenheiro naval formado pela USP e trabalhando na área de comércio exterior, Ivo parece querer recuperar o tempo em que era arredio e pouco falava para o mundo. Eleitor do PSDB, não descarta seguir algum dia a carreira política.

Já o irmão, André, um ano e meio mais novo, que trabalha como urbanista no Banco Mundial, em Washington, vota no PT. Separado há seis meses, Ivo tem um filho de 8 anos, Lucas. "Ele é muito curioso, já sabe muita coisa sobre o avô e quer até ler os livros sobre aquela época", conta. A seguir, os principais trechos da entrevista que ele concedeu à Folha no seu apartamento, em Santos.

Folha - O que você lembra do momento da prisão de seu pai?

Ivo Herzog
- Lembro que nós fomos para TV Cultura para pegar meu pai. Eu ficava brincando na máquina de telex e também lembro que dois policiais com roupa de agente secreto estavam tentando fazer a prisão. Depois o que eu lembro é no dia 26, quando minha mãe veio falar para nós o que tinha acontecido. Eu e meu irmão dormíamos no mesmo quarto. Ela sentou na beirada da cama e disse que houve um acidente.

Folha - Acidente de carro?

Ivo
- Isso é o que ela conta que disse para gente. Eu mesmo não recordo.

Folha - Sua mãe disse que você falava que seu pai tinha morrido na cadeira elétrica....

Ivo
- Eu tinha um pouco dessa imagem. Lembro do velório no Einstein, da procissão de carros indo para o cemitério. Quando vi o filme do João Batista [de Andrade] e vi a imagem do caixão, muita coisa voltou à cabeça, parece que recuperou. Lembro da praça da Sé, da missa, de uma raiva dentro de mim crescendo e de muita gente que conheci naquele dia, como o d. Paulo, personagens que eu aprendi a respeitar, mesmo não sendo católico. Foi nosso primeiro contato também com o rabino Henry Sobel.

Folha - Que lembranças você tem da convivência com o seu pai?

Ivo
- Ele gostava de fotografar, tinha uma Asahi Pentax, uma máquina manual. Aprendi a fotografar com aquela máquina, tenho ela até hoje. Ele também tinha um telescópio e aprendi com ele a mexer no aparelho, mas nunca consegui achar uma estrela.

Só fui aprender 30 anos depois, quando comprei um telescópio computadorizado. A gente pescava em Ilhabela e no sítio em Bragança, uma coisa mais ligada ao meu irmão, André. Meu pai gostava de bichos. Tinha pato, marreco, pombas no sítio. Lembro que ele não dirigia. Minha mãe levava a gente para cima e para baixo.

Folha - Quando você se deu conta das circunstâncias da morte?

Ivo
- Eu não sei precisar exatamente. Mas no velório, por exemplo, já deu para perceber que era uma coisa conturbada, havia muita gente, muita imprensa, dava para ver que não era um evento normal. Eu estudava no Vera Cruz. O filho do Paulo Egydio Martins [governador de São Paulo na época] estudava lá também. Eu lembro que ele falou uma besteira para mim, que meu pai tinha se matado, uma coisa assim.

Folha - Você reagiu?

Ivo
- Não sei dizer. Eu tive um problema que não sei bem o que foi, agora estou até fazendo análise. Parece que depois que meu pai morreu eu entrei numa depressão muito forte. Os médicos nunca fizeram um diagnóstico preciso, mas hoje parece que tudo não passou de uma grande depressão.
Perdi muito peso. Era muito introvertido, gostava de aquário, astronomia, comecei cedo a mexer com computador. Umas coisas assim que hoje a gente chama de meio nerd. Nunca fui de ficar indo em festas, preferia ficar meio quieto no meu canto.

Folha - Quanto tempo durou a depressão?

Ivo
- Estou descobrindo que talvez tenha durado 30 anos.

Folha - Em que momento você soube que seu pai era do PCB?

Ivo
- Faz muito pouco tempo, talvez uns dois ou três anos.

Folha - Mas isso saiu em livros, reportagens...

Ivo
- Sim, mas nunca esteve muito claro para mim. Muita gente falou que ele era, mas só teria certeza de que ele era num dia em que minha mãe falasse, ou alguém próximo. Não que seja relevante.

Folha - Sua mãe, numa entrevista, falou sobre como ela soube que o seu pai tinha entrado no PCB....

Ivo
- É, mas essa história nunca foi conversada comigo e meu irmão. Ou nem sei se havia algum processo de proteção que me impediu de ouvir. A ficha sobre isso só caiu há uns dois ou três anos.

Não que tivesse algum problema. Ser do PCB era motivo de orgulho naquela época, era a simbologia maior da esquerda. Nas eleições de 1978, eu votei no Alberto Goldman, que era do MDB mas todo mundo sabia que era do PCB. E eu nem relacionava isso ao fato de meu pai ter sido do PCB.

Na minha maneira de ver, para lutar contra o regime daquela época, existiam duas formas: ou a Igreja Católica ou o PCB. Como o meu pai era ateu, escolheu outra via, mas não porque fosse a favor do modelo soviético, do bolchevismo, da ditadura do proletariado, isso é besteira. Fundamentalmente ele queria promover a liberdade de opinião, a democracia, a ética.

Folha - Como você se sentiu sabendo que as pessoas que mataram seu pai acabaram impunes com a anistia?

Ivo
- É difícil, mas você tem que levar em conta o bem maior, e no caso a anistia era esse bem maior. Outra coisa que temos que lembrar é que as pessoas que torturaram eram operários de uma linha de produção, não eram os diretores da fábrica. O importante é entender por que aquelas coisas aconteciam.

Folha - Qual sua relação com a política?

Ivo
- Acho que política é uma coisa séria. Por isso eu acho imperdoável o Rodolfo Konder [jornalista que foi preso na mesma época de Herzog], uma figura importante, ter trabalhado com o Maluf. O Maluf é um cara que, se eu estiver numa cerimônia e ele vier me cumprimentar, eu viro as costas. Participei muito na época da anistia, ia em eventos com a minha mãe, manifestações no Tuca, fiz boca de urna em algumas eleições, participei da campanha do FHC contra o Jânio para a Prefeitura de São Paulo.

Folha - Você está em algum partido?

Ivo
- Fiz muito voto útil na minha vida, votei no Lula contra o Collor, votei na Erundina, no Suplicy, mas sou PSDB, embora nunca tenha me filiado a nenhum partido. O PT sempre olhou muito para o umbigo dele sem olhar o todo, o FHC perdeu do Jânio muito por causa do PT.

Eu me considero de esquerda, considerando esquerda alguém que defende o social . Sou a favor do capitalismo com melhor distribuição de renda. O Estado para mim tem que dar saúde, educação, moradia e segurança. Se o Estado conseguir dar educação, haverá maior distribuição de renda.

Folha - Como você avalia o governo do PT?

Ivo
- Lamentável. Não tenho nada contra um operário ser presidente da República. Só que o Lula deveria ter sido um pouco mais profissional. Eu acho que o Lula está preso a um discurso que fazia sentido vinte anos atrás e não se importou em se atualizar.

O mundo mudou e ele não se deu ao trabalho de discutir, se acomodou. Tem gente que não estuda porque não tem oportunidade. No caso dele, não. Poderia ter participado de fóruns sobre gestão, ideologias, conceitos sociais, mas não fez nada disso.

É como se ele tivesse pensado: me elegi presidente, vou colocar um cara para tocar, como o Zé Dirceu, e vou viajar. Esse negócio de dizer que os acusados do mensalão só fizeram caixa dois... É errado, foi bandidagem, tem que ser punido. O triste é que tem gente que acaba achando que o Roberto Jefferson é herói...

Folha - Você pensa em fazer carreira política?

Ivo
- Um dia talvez. Hoje a política que eu faço é num nível micro, mas acho que a gente nunca pode ficar indiferente. Depois tem essa herança do meu pai, o fato de ele ter morrido do jeito que ele morreu, o governo que fez aquilo de um lado, e de outro um grupo de pessoas que eu tinha que apoiar porque lutava contra aquilo lá.

Mas, para ser político profissional, eu acho que preciso me informar mais, me preparar mais. Eu vivi muito tempo à sombra da atuação da minha mãe. Durante muitos anos eu mais escutei, agora começo a falar um pouco.

Folha - Nem você nem seu irmão pensaram em seguir a profissão do seu pai?

Ivo
- Eu bati na trave. Eu tenho uma matrícula trancada no jornalismo da PUC. Quando eu não sabia direito o que eu ia fazer na vida, fiz um teste vocacional aos 18, 19 anos. Deu exatas e humanas. Aí fiz vestibular para engenharia na USP e jornalismo na PUC, mas nunca assisti a uma aula de jornalismo.

E também pensei o seguinte: se algum dia eu quiser ser jornalista, não preciso fazer jornalismo, embora tenha esse negócio do diploma, que eu acho uma bobagem. Meu pai era filósofo.

Folha - O que significa ser filho de Vladimir Herzog?

Ivo
- Eu acho que me dá um norte, é um ímã que me puxa numa direção muito forte. Direção da ética, da honestidade, da integridade, da indignação diante de injustiças.

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