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26/10/2000 - 04h20

Veja entrevista de Marta Suplicy dada à Folha de S.Paulo

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FERNANDO CANZIAN, secretário de redação
PLÍNIO FRAGA, editor de Brasil
da Folha de S.Paulo

Marta Suplicy, 55, se considera "uma pessoa assertiva". Mesmo quando perde a paciência e manda seus interlocutores "se catar".
Ela diz que há uma "pseudoneutralidade" no tratamento dado à campanha: "Quando um jornal trata dois candidatos, um do campo democrático e outro do campo dos métodos nazistas, de forma igual... isso é muito sério".

Em entrevista à Folha, a petista diz que, se eleita, as decisões finais da administração "serão sempre da prefeita". Marta se qualifica como uma mulher "de visão, que está no novo milênio e que poderá mudar muito a história do Brasil". Leia a entrevista:

Folha - Se eleita no domingo, quais as medidas emergenciais que a sra. pretende tomar para mostrar que a administração mudou?
Marta Suplicy -
Primeiro, agilizar a guerra contra a corrupção, enviando à Câmara projetos de mudança de lei para acabar com brechas que hoje permitem vender facilidades. Depois, a questão das subprefeituras, que substituirão as administrações regionais. Vamos ampliá-las para que possam ser executoras de projetos sociais, como o bolsa-trabalho, o renda mínima, o Banco do Povo e a requalificação de pessoas com mais de 40 anos. Há outras subprefeituras que vamos criar, que serão mais 11 nas áreas onde hoje não há presença do Estado.

Folha - Serão substituídas as 27 administrações regionais e criadas mais 11 subprefeituras? Serão 38?
Marta -
Estamos estudando. Nas regiões em que hoje não há presença da prefeitura, teremos de ir para lá. Mas não vamos poder aumentar o número de funcionários. Estamos vendo como pegar as atuais administrações regionais, que hoje são cabides de empregos, e fazer um enxugamento.

Folha - Como será feita a escolha dos subprefeitos?
Marta -
Competência técnica, bom currículo, probidade. Quero "gerentões".

Folha - Como a sra. viu o movimento de sua queda e a ascensão de Paulo Maluf? Ele bate firme no "PT das greves, no PT da baderna, no PT do MST". Isso pegou ou são mais os ataques pessoais?
Marta -
O Maluf tem uma rejeição enorme. Ele tem um teto. Usa mecanismos de terrorismo e táticas nazistas para conseguir buscar esse eleitorado mais conservador, às vezes menos politizado ou mais sensível a essas questões.

Folha - Há dois anos, a sra. disse: "Nas reuniões do PT, não entendo nada do que eles falam. Até hoje não sei o nome das facções do partido". A sra. terá problemas com essas facções que não entende?
Marta -
Para mim, sempre foi muito bom não pertencer a nenhuma facção. Não pertenço. Isso me possibilitou, no PT, a ter trânsito bastante livre e ter 100% do apoio quando fui escolhida.

Folha - Mas o secretariado será mais da sra. do que do partido?
Marta -
Gente! Eu sou o partido! Vocês não têm de me colocar de um lado e o partido do outro. Eu sou a cara do partido em São Paulo. Eu represento o partido. Eu sou o partido.

Folha - Nos últimos dias do horário eleitoral, a sra. mudou o tom. Reagiu a Paulo Maluf e aos ataques pessoais. A sra. acha que foi inépcia ter demorado tanto para reagir?
Marta -
Não. Nós temos uma posição e tudo será mostrado no dia 29. Está tudo de acordo com o que achávamos que iria acontecer.

Folha - Maluf bate na tecla "do PT do MST". Como sra. vê as denúncias contra o MST de cobrança de pedágio de 3% dos assentados?
Marta -
O MST como movimento social é um movimento revigorante, que foi interessante ter ocorrido no Brasil. É abusado muitas vezes. É um movimento que, temos certeza, terá seus limites em São Paulo. Porque, em São Paulo, nossa preocupação será com outro MST, o ""Movimento dos Sem-Trambique".
Sobre a cobrança dos assentados, se for um gesto voluntário de dar o dinheiro para o movimento, não tenho nada contra. Se for obrigatório, a Justiça deve ir atrás.

Folha - Boa parte dos contratos da prefeitura é com empreiteiras. Em 98, uma única empresa, a Odebrecht, financiou 58% dos gastos da campanha. Isso se repete este ano? Que tratamento a sra. dará às empreiteiras?
Marta -
Você verá no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) quem contribuiu para a campanha.

Folha - Não é importante falar isso antes?
Marta -
Não quero falar nisso antes. Mas posso garantir que, entre todos os doadores, não tenho compromisso com ninguém. Assim como não tenho negociatas, cargos, fatiamento com nenhum partido que me apoiou.

Folha - Mas o partido decidiu aceitar dinheiro de todas as correntes? De empreiteiros a banqueiros?
Marta -
Não vou responder isso. Não adianta perguntar pela terceira vez. Não vamos perder tempo, que é curto.

Folha - Na sua trajetória política, a sra. se pautou por questões polêmicas. Foi defensora no Congresso de projetos em torno do aborto e da união civil entre pessoas do mesmo sexo. Hoje, esses projetos são usados como munição por Maluf. Isso não atrapalha?
Marta -
Tenho muito orgulho de todos os projetos que apresentei. Eles foram muito importantes. Em relação ao aborto, nunca fiz projeto para legalizar o aborto. Isso é uma distorção do Maluf. O meu projeto dá direito à mulher que carrega um feto sem condições de sobrevida para que possa escolher fazer um aborto antes de ter de passar oito meses carregando um feto que sabe que morrerá.

Folha - E quanto à experiência administrativa? Não faz falta?
Marta -
Quando vejo a comparação da minha experiência com a de Maluf, dou graças a Deus de não ter a dele. Uma pessoa que carrega 40 processos e dez condenações (na realidade, são 9)...

Folha - Gostaria que a sra. explicasse o pedido de auxílio-moradia feito quando era parlamentar e morava no apartamento funcional do senador Eduardo Suplicy, seu marido. A sra. se arrepende de ter feito esse pedido?
Marta -
Não. Tinha direito e abdiquei.

Folha - Mas a sra. acha legítimo?
Marta -
Acho. Tinha direito, abdiquei e é legítimo, né? Agora, por que eu abdiquei? Achei que não precisava. Tinha direito. Tanto é que as minhas colegas deputadas casadas com senadores todas...

Folha - Mas a sra. não abdicou somente porque a questão foi tocada pela mídia? Ou seja, não foi oportunismo político?
Marta -
Não. Vou explicar exatamente o que aconteceu. Eu nem sabia que existia... Sabia que existia esse direito, mas não achava que precisava disso. Aí, entrou uma questão feminista, quando vi que, não tendo esse direito, era considerada um apêndice do meu marido, pois era deputada. E todos os deputados que moravam juntos recebiam. Isso é muito comum em Brasília. Ter dois, três deputados que moram juntos. Então, estava abdicando de uma coisa que era o meu direito como deputada. Quando percebi isso, disse: "Ah não, não sou apêndice de senador. Sou deputada". Pedi o direito. Quando falaram: "Não, mas você está se aproveitando", eu falei: "Bom, meu Deus, estou num direito que acho meu, mas isso vai criar uma confusão do outro lado. Também não interessa a mim esse dinheiro. Tanto faz". Então, abdiquei.
Mas a idéia que fui atrás é que fiquei passada quando vi que estava me colocando como apêndice. Tanto é que todas as colegas casadas com senadores, uma tem apartamento onde hospeda a família, outra mora separada do marido...

Folha - Elas também são do PT?
Marta -
Não. Qual a diferença?

Folha - O PT tem a bandeira da moralidade, da lisura com o dinheiro público, critica os outros...
Marta -
Ah, tá. Então você cobra de um e não cobra de outro? Vai se catar, vai! Aí não dá. Tem limites também. Não! Não abdiquei porque era do PT. Abdiquei porque achei que não fazia sentido criar confusão. O importante é vocês deixarem claro: eu tinha direito! Eu abdiquei! Não peguei nada que não era meu. Tinha direito e abdiquei porque quis. Não peguei nada que não era meu.


Folha - A sra. tinha direito, mas a sra. acha que era legítimo em um país como o Brasil?
Marta -
Tinha direito e abdiquei. Então, pára com isso! Eu tinha direito e abdiquei. Abdiquei!

Folha - Há pouco, a sra. disse: "Vai se catar". A sra. se acha autoritária? Como a sra. se qualificaria quando tem esses rompantes?
Marta -
Acho que as questões pessoais não estão em jogo na nossa entrevista.

Folha - Mas para um administrador é importante. A sra. não acha que as pessoas devem conhecer...
Marta -
Não. Por favor, a próxima pergunta.

Folha - É uma questão importante saber se a sra. se define como autoritária ou não, se é democrática ou não, se ouve as pessoas, se suporta ser posta sob pressão.
Marta -
Tenho direito de ser uma pessoa assertiva. Você quer fazer a próxima pergunta?

Folha - A sra. fez um evento de campanha no restaurante Fasano, em São Paulo, há algum tempo, com empresários para arrecadação de fundos de campanha...
Marta -
É pergunta administrativa?

Folha - Não. É uma pergunta política. A sra., sendo do PT, não considera uma contradição reunir empresários em um dos restaurantes mais caros de São Paulo?
Marta -
Quando você recebe uma oferta...e foi o dono do restaurante... eu não paguei nenhum tostão. O dono do restaurante é simpatizante do PT. Ele fez uma oferta para que a gente fizesse um almoço de levantamento de fundos, e eu gostei. Nós recebemos com satisfação essa oferta.

Folha - O jornal publicou uma lista de nomes de pessoas que poderiam vir a trabalhar no seu secretariado. A sra. disse que era especulação.
Marta -
Total. Fiquei indignada com o que vocês fizeram. Foi uma matéria absurda, que não corresponde à realidade. Em nenhum momento falei naqueles nomes.

Folha - A sra. descarta todos aqueles nomes?
Marta -
Não falei nenhum daqueles nomes. Não tenho secretários pensados e disse que vou fazer um governo de amplitude. Pois tenho um apoio amplo na sociedade, muito além dos votos que estou recebendo. Foi uma especulação e, diria, uma matéria pérfida, usada pelo meu adversário de forma pérfida. E vocês da Folha têm contribuído diariamente para isso.

Folha - A sra. acredita que essa contribuição se dá de forma deliberada?
Marta -
Não. Vocês travestem isso de neutralidade.

Folha - Então, seria deliberado, mas escondido atrás de uma neutralidade. É isso?
Marta -
Não. Vocês podem até ter boa vontade, mas na realidade não é isso que acaba acontecendo. Até o seu Painel do Leitor (publicado diariamente à pág. A3) tem mostrado que o seu leitor não está de acordo com essa ""pseudoneutralidade". Isso não existe. Quando um jornal trata dois candidatos, um do campo democrático e outro do campo dos métodos nazistas, de forma igual, com matérias que não correspondem à realidade, olha, isso é muito sério. Chega. Não vou mais responder sobre isso.

Folha - Mas a sra. não acha que, a menos de dez dias da eleição, as pessoas não gostariam de saber quem vai ajudá-la a governar?
Marta -
Não. Pois a população tem que confiar em mim. Vou tomar as decisões. Não vai ser o secretariado. Não é o partido. A decisão final vai ser sempre da prefeita. A decisão e a responsabilidade.

Folha - A sra. vem batendo na tecla do combate ao desemprego. No entanto, o poder municipal pode fazer pouco a respeito, já que isso depende da política econômica como um todo. Não é propaganda enganosa a sra. ficar vendendo algo que não poderá entregar?
Marta -
A prefeitura tem uma competência que, apesar de limitada, pode criar algumas alternativas. É isso que a gente tem de ir atrás e que até hoje não foi feito. A prefeitura é muito passiva nesse ponto. A prefeitura pode ter projetos pensando nos empregos e pensando nos benefícios sociais. Ela pode correr atrás de investimentos.

Folha - Em 98, na sua campanha ao governo do Estado, a sra. disse que Covas, Maluf e Quércia eram iguais. Eles ainda são iguais?
Marta -
Eu veria nuances entre os três.

Folha - Em 98, a sra. não via. O que mudou na sra. ou neles?
Marta -
Eu veria nuances de diferenças entre os três. Eles são iguais hoje no apoio a mim.

Folha - Tirando o Maluf...
Marta -
Ah, tem o Maluf. Então não. Eu veria nuances de diferenças entre... Espera aí. Quem era?

Folha - Covas, Quércia e Maluf.
Marta -
Não. Eu discordaria do que falei. Acho que o Maluf não está no mesmo patamar.

Folha - Se a sra. fosse uma estrangeira e visse a campanha entre Marta Suplicy e Paulo Maluf, como avaliaria a disputa?
Marta -
Diria que tem uma mulher que é candidata a prefeita de São Paulo que vai dar o que falar. Que está se saindo muito bem contra as forças mais obscuras, mais atrasadas e retrógradas. É uma mulher que tem visão, que tem capacidade de diálogo, uma mulher que pensa e que está no novo milênio, enquanto as forças mais obscuras... E tomara que ela seja eleita, pois poderá mudar muito a história do Brasil.

FRASES

Gente! Eu sou o partido! Vocês não têm de me colocar de um lado e o partido do outro. Eu sou a cara do partido em São Paulo. Eu represento o partido.

Tenho direito de ser uma pessoa assertiva. Você quer fazer a próxima pergunta?

Então você cobra de um e não cobra de outro? Vai se catar, vai! Aí não dá. Tem limites também. Não abdiquei (do auxílio-moradia concedido a deputados federais) porque era do PT. Abdiquei porque achei que não fazia sentido criar confusão. O importante é vocês deixarem claro: eu tinha direito! Eu abdiquei! Não peguei nada que não era meu!


Clique aqui para ler a entrevista de Paulo Maluf (PPB) à Folha.

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