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22/08/2004 - 05h40

Mutum-de-alagoas vira símbolo de conservação

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CRISTINA AMORIM
da Folha de S.Paulo

Um grupo formado por biólogos, organizações não-governamentais, criadores de ave e usineiros quer levar de volta para o Nordeste um ilustre cidadão. Essa associação aparentemente heterogênea de interesses visa reintroduzir nas florestas remanescentes de Alagoas e Pernambuco o mutum-de-alagoas (Mitu mitu), ave extinta na natureza desde 2001.

O mutum-de-alagoas, endêmico da mata atlântica, é um dos bichos mais recatados da fauna brasileira --apesar de ser conhecido pelo europeu desde o século 17. Sua imagem foi capturada e registrada pela primeira vez pelo naturalista e astrônomo alemão Georg Marcgrave (1610-1643). Patrocinado por Maurício de Nassau (1604-1679), Marcgrave participou da primeira expedição científica realizada na colônia e contou tudo o que viu por aqui em "Historia Naturalis Brasiliae", obra póstuma publicada em 1648.

"A descrição feita por Marcgrave foi tão detalhada que [o taxonomista Carl] Linnaeus a usou para classificar o mutum no século seguinte", diz o biólogo Luís Fábio Silveira, da Universidade de São Paulo (USP). As características morfológicas mais marcantes da espécie estão lá: o bico vermelho na ponta e branco na base, a região da orelha nua, a cauda com um par central de penas negras e o restante com a ponta marrom, assim como pose imponente.

Após o breve período de fama, pouco afeito aos caprichos dos homens que invadiam seu território, o mutum se recolheu e permaneceu escondido por 300 anos. O sumiço pôs em xeque o registro feito por Marcgrave, uma vez que a descrição feita do Mitu mitu era próxima à de seu primo Mitu tuberosum, o mutum-cavalo, endêmico da bacia amazônica. "Por um período, alguns pesquisadores acreditavam que o M. mitu fosse sinônimo de M. tuberosum. Outros achavam ser uma subespécie", diz Silveira.

A situação taxonômica do animal se manteve incerta até 1951, quando a ave deixou a reclusão e deu de cara com o ornitólogo brasileiro Olivério Pinto nas matas de Alagoas. Na época, pouco se sabia sobre quantos indivíduos existiam na natureza ou que hábitos tinha essa ave de penas escuras e bico quadrangular, o que dificultava a criação de quaisquer trabalhos de conservação da espécie.

Álcool por árvore

O interesse sobre o bicho rareou, assim como a própria mata atlântica. Em 1975, o governo do general Ernesto Geisel lançou o Programa Nacional de Álcool (Proálcool), um plano de incentivo à produção local de um combustível substituto do petróleo, em crise desde 1973. A intenção dos militares em Brasília era produzir 3 milhões de metros cúbicos de álcool até 1980. A meta foi atingida um ano antes --só que à custa da mão-de-obra dos bóias-frias, inclusive mulheres e crianças, e da derrubada da floresta nativa, que cedeu espaço para a monocultura de cana-de-açúcar.

Cinco séculos depois do descobrimento do Brasil, a mata atlântica em Pernambuco e Alagoas estava reduzida a 2% da cobertura original. "Nos primeiros anos da década de 1980, restavam apenas 10 mil hectares de floresta nativa contínua", lembra o engenheiro civil Fernando Pinto. O mutum ainda enfrentava, havia anos, a tradição local da caça. Sem habitat, sem alimento e sob a mira dos caçadores, a segunda metade do século 20 foi decisiva para o declínio da população do Mitu mitu nas matas. No mesmo período, ainda no início de sua carreira, Pinto foi contratado para estabelecer uma usina de álcool no município de Roteiro (AL), que foi construída no embalo do Proálcool. "Na floresta que resistia no terreno, encontrei alguns mutuns. Na ocasião, eles já eram muito raros, acho que existiam uns 60 indivíduos no máximo vivendo soltos, na natureza. Fui lá para implantar uma usina e saí com a vontade de proteger aquela ave", lembra. O engenheiro então convocou o criador de aves Pedro Nardelli, que estava na região justamente atrás do mutum. Antes de voltar para o Rio de Janeiro, Nardelli capturou três animais --um macho e duas fêmeas-- e os carregou para sua casa, em Nilópolis, na baixada fluminense.

Males para o bem

Apesar de irregular, a ação de Nardelli salvou o Mitu mitu da extinção --duas vezes. Após o nascimento das primeiras gerações em cativeiro, o reprodutor-pai morreu. Incentivar o cruzamento entre consangüíneos causaria uma erosão genética grave que extinguiria a espécie. A outra opção, encontrar outro indivíduo vivo na natureza, seria inviável, senão impossível. A solução encontrada por Nardelli foi cruzar o mutum-de-alagoas com seu parente amazônico. Mesmo torta, a tática deu certo.

Atualmente existem cerca de cem indivíduos em cativeiro, e pelo menos metade deles é pura. É o que atesta a bióloga molecular Anita Wajntal, da USP. Ao estudar o código genético das aves, ela identificou os híbridos e os puros-sangues. "Por meio de índices de similaridade observados no DNA, pudemos apontar quais indivíduos são resultado da miscigenação e quais não são", explica Wajntal.

O índice de acerto, diz, é de 95%. O plano da equipe é incentivar o cruzamento dos puros, em um "arianismo" aplicado a essa ave de penas negras. Quando o plantel chegar aos 300, começa o processo de reintegração da espécie à natureza --o que deve ocorrer em cerca de seis anos, esperam os biólogos.

Historicamente, programas do tipo obtêm sucessos raros, com resultados lentos. Um exemplo é o caso da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), outra ave brasileira extinta na natureza, considerada a mais rara do mundo. Ela se reproduz com dificuldade e a grande maioria dos indivíduos vivos pertence a coleções particulares estrangeiras.

Três passos

O grupo do Mitu mitu espera que a história da Cyanopsitta spixii não se repita. Com a convicção de quem tem um plano em mente, o biólogo da USP afirma que sua vantagem é trabalhar com um plantel exclusivamente brasileiro e sob o controle dos cientistas. O trabalho de recuperação acontece em três frentes.

A primeira é a reprodução da ave, dividida entre dois criatórios --ambos localizados em Minas Gerais, um em Poços de Caldas e outro em Belo Horizonte-- após Nardelli ser obrigado, por questões financeiras, a abrir mão dos mutuns. Atualmente, a equipe seleciona outros criatórios no Brasil para dividir os animais e reduzir as chances de extinção.

Duas instituições estão na fila para receber os mutuns: o zoológico de São Paulo e um viveiro ligado à companhia Energética de São Paulo, na cidade de Paraibuna, no interior do Estado. "Mais hora, menos hora, isso ia acontecer", diz Silveira. "A divisão mostra que o trabalho de recuperação da espécie foi bem realizado." A segunda frente é a formação de corredores ecológicos que liguem as áreas remanescentes nos Estados e permitam o tráfego das aves pela região.

Há pequenas ilhas verdes de 400, 500, até mil hectares. "Mas não temos, no Nordeste, uma mata contínua com mais de 4.000 hectares", diz Pinto, que fundou em Maceió o IPMA (Instituto de Preservação da Mata Atlântica), organização não-governamental conservacionista de atuação regional. A região foi tão desmatada que sobraram intocadas apenas encostas e matas ciliares, áreas pouco interessantes para o plantio de cana-de-açúcar. Pois nesse ponto entram justamente os usineiros.

A ONG criada pelo engenheiro reuniu pelo menos 15 empresas da região --quatro RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural) já foram criadas, que juntas atingem 700 hectares. Ele espera que os incentivos concedidos pelo governo federal ajudem a convencer o setor sucroalcooleiro a abraçar a causa. Quem cria uma RPPN tem isenção do Imposto Territorial Rural e prioridade na concessão de créditos agrícolas.

A reserva tampouco pode ser desapropriada para reforma agrária, porque é destinada à promoção da proteção ambiental. Para unir os fragmentos verdes, o IPMA quer plantar 2,5 milhões de mudas --1 milhão apenas em 2005-- e incentivar as usinas a plantarem de 15 mil a 20 mil árvores por ano. "Usineiro é assim: um faz e os outros seguem", diz o engenheiro --no desflorestamento ou na recuperação. O terceiro passo é a educação da população.

A caça, inimiga do mutum-de-alagoas décadas atrás, não está mais em voga. A questão agora é econômica. Um botijão de gás para uso doméstico custa entre R$ 25 e R$ 30. Cortar árvore para conseguir lenha é de graça.

Epílogo refeito

A reintrodução do Mitu mitu na natureza é um livro com final aberto. A rigor, ninguém sabe se a ave vai responder de forma positiva à vida selvagem após 30 anos atrás das grades, recebendo comida dos criadores. O mutum-de-alagoas precisa reaprender a conseguir alimento e a sobreviver a predadores e intempéries.

A espécie também enfrenta um inimigo enraizado: a parca variabilidade genética, o que diminui em tese a possibilidade de sobrevivência. Se uma ave for suscetível a determinada doença, por exemplo, seus consangüíneos --praticamente todos os indivíduos que existem-- também podem ser vulneráveis: seria o fim do mutum-de-alagoas. "A natureza é imprevisível", lembra Anita Wajntal. "Se alguns indivíduos sobreviverem, em condições adequadas e controladas, então teremos cumprido nossa função."

Especial
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