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21/03/2005 - 14h58

Crânios sugerem que povo de Luzia habitou México e São Paulo

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CLAUDIO ANGELO
da Folha de S.Paulo

Dois crânios humanos muito antigos, desenterrados em locais tão distantes quanto o vale do Ribeira, em São Paulo, e o Vale Central do México, estão ajudando a confirmar uma hipótese sobre o povoamento das Américas que costumava provocar risadas nos arqueólogos há uma década: a de que os primeiros habitantes do continente eram mais parecidos com os aborígenes da Austrália do que com os índios atuais.

Os fósseis têm 8,8 mil e 10,7 mil anos, respectivamente, e estão entre os vestígios humanos mais antigos do continente. Medições realizadas em ambos mostram que eles eram fisicamente semelhantes a Luzia, a brasileira de traços africanos de 11 mil anos de idade que virou celebridade e se tornou símbolo da nova teoria.

Bem, "nova" é maneira de dizer. A hipótese tem sido proposta desde 1989, pelo antropólogo Walter Neves, hoje professor do Instituto de Biociências da USP, e seu colega Héctor Pucciarelli, da Universidade de La Plata, Argentina.

Mas as idéias da dupla começaram realmente a ganhar momento nos últimos anos, com uma série de publicações em periódicos científicos de alto impacto e um aumento no número de fósseis analisados, o que tem mudado as opiniões de alguns críticos.

Para Pucciarelli e Neves, a povoação do continente americano deve dois componentes biológicos: os primeiros povoadores das Américas vieram da Ásia, mas não eram mongolóides (asiáticos típicos), e sim "australo-melanésios" --embora não seja possível dizer se tinham pele negra, como os australianos modernos.

Essa população, que a dupla chama "paleoíndia", teria cruzado o estreito de Bering, entre Sibéria e Alasca, há cerca de 15 mil anos, tendo sido extinta devido a algum tipo de competição com os mongolóides, avós dos índios atuais (o segundo componente biológico), que imigraram depois

É possível que tal competição tenha envolvido guerras, ou que os paleoíndios tenham sido totalmente absorvidos pela população mongolóide --supostamente muito mais numerosa-- por meio de miscigenação.

Outra explicação possível é que a "mongolização" dos paleoíndios tenha ocorrido paralelamente na Ásia e na América, a partir de uma única população original, não existindo, portanto, duas ondas migratórias.

Medições

Fato é que todos os crânios de idade igual ou superior a 8.000 anos analisados pelo grupo de Neves, desenterrados principalmente na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais (onde foi descoberta Luzia), têm traços africanos.

Os cientistas conseguiram determinar isso medindo as distâncias entre diferentes partes do crânio (de uma órbita à outra, por exemplo) e comparando suas medições a uma base de dados com milhares de medidas cranianas em dezenas de populações.

O modelo proposto pelos pesquisadores sul-americanos foi metralhado por arqueólogos norte-americanos. "Não acho que seja preconceito, mas alguns cientistas americanos se apegam muito a um conceito e fazem a defesa dele", diz Pucciarelli, emendando: "Os autores latino-americanos são submetidos a processos de crítica mais rigorosos."

Um dos grandes críticos foi Tom Dillehay, da Universidade Vanderbilt, nos EUA, que disse que ninguém deveria elaborar um modelo inteiro de ocupação do continente com base em um único crânio "aberrante" (Luzia).

Quando Dillehay fez sua crítica, Neves já havia medido com segurança mais de uma dezena de crânios de Lagoa Santa. Hoje existem mais de 80 crânios do Brasil, da Argentina, do Chile e da Colômbia analisados pelos pesquisadores cuja morfologia paleoíndia está além de qualquer dúvida.

O próprio Dillehay já concorda com os sul-americanos. "Há pouca ou nenhuma dúvida, baseado no que eu li e vi, de que Luzia e outros esqueletos da América do Sul são diferentes de esqueletos atuais e da maior parte dos esqueletos arqueológicos", disse o arqueólogo à Folha. "Então, se eu mudei de idéia, é no sentido de estar mais convencido de que, hoje, [a teoria de Neves e Pucciarelli] é a explicação mais viável."

Verdade estatística

"Hoje a morfologia paleoíndia é inquestionável. Não se trata de uma distorção estatística", diz o antropólogo argentino Rolando González-José, do Centro Nacional Patagônico. Rolo, como prefere ser chamado, ganhou notoriedade em 2003, ao publicar um estudo na revista "Nature" mostrando que Luzia teve parentes vivos no México em tempos recentes: a tribo dos pericus, dizimada pelos espanhóis no século 16.

Ainda em 2003, o americano Richard Jantz mostrou que o chamado crânio 103 da caverna de Zhoukoudian, na China, também é parecido com os paleoíndios, o que apóia a tese de que a migração para a América foi mesmo via Ásia, não através do Pacífico.

Num estudo publicado on-line neste mês no "American Journal of Physical Anthropology" ( www3.interscience.wiley.com/cgi-bin/jhome/28130), González-José analisou cinco crânios antigos depositados num museu do México, um deles praticamente contemporâneo de Luzia, a Mulher de Peñon (10,7 mil anos). O trabalho confirma que os paleoíndios estavam presentes também na América do Norte há muito tempo, o que ao mesmo tempo reforça a teoria e silencia alguns críticos norte-americanos, que viam na falta de crânios paleoíndios na América do Norte uma dificuldade insuperável da hipótese.

"O Vale Central do México deveria ser um local de passagem obrigatório para as populações que chegaram à América do Sul. Era interessante para nós estudar crânios dessa "zona vermelha'", disse González-José.

O estudo liderado pelo argentino indica, ainda, que os paleoíndios possuíam uma grande diversidade morfológica. Trocando em miúdos, a população não era tão fisicamente homogênea quanto se imaginava, e alguns indivíduos parecem estar a meio caminho entre o africano e o mongolóide.

González-José diz que não descarta que tenha havido cruzamentos entre os paleoíndios e os imigrantes mongolóides. Isso explicaria, por exemplo, por que os nativos da Terra do Fogo não parecem se encaixar em nenhuma das categorias. "É de esperar que tenha havido contatos entre os dois estoques", pondera, referindo-se aos mongolóides e aos paleoíndios. Ele afirma acreditar, no entanto, que a fonte de variabilidade já estava presente na Ásia --ou seja, os grupos "negróides" que primeiro atingiram a América eram mais heterogêneos.

Já Neves fala mais em substituição total de populações, sendo Lagoa Santa uma espécie de "refúgio" para os paleoíndios após a "invasão" mongolóide. A Baixa Califórnia, no México, onde os paleoíndios sobreviveram até o século 16, seria outro refúgio.

Quanto ao veredicto da comunidade científica sobre a validade do modelo, Dillehay, que fala de cátedra --ele teve de argumentar com seus colegas por duas décadas antes de que sua datação de 12,5 mil anos para o sítio de Monte Verde, no Chile, fosse aceita--, diz que ainda há um caminho a percorrer. "A amostra ainda é muito pequena. E Walter e seus colegas precisam discutir mais sobre por que razão outros modelos para explicar as diferenças de Luzia e outros esqueletos não funcionam", afirma. "Antes de aceitar um modelo, é preciso eliminar de vez outras possibilidades."

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