Colunas

Brasília Online

10/01/2007

PMDB impõe 1ª derrota a Lula 2

KENNEDY ALENCAR
Colunista da Folha Online

Em conversas reservadas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstra preferência pela recondução de Aldo Rebelo (PC do B-SP) à Presidência da Câmara porque seria uma saída mais confortável, inclusive menos belicosa com a oposição. Essa preferência, porém, nunca se transformou numa articulação oficial e pesada a favor de Aldo.

Pelo contrário. Lula deixou claro em reunião com o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), que não o prejudicaria se ele reunisse maior apoio do que Aldo. É o que está acontecendo neste dias por obra do PMDB.

Se os peemedebistas aceitassem um acordo com Aldo, perderiam o grande poder de fiel da balança no jogo político que se desenha para o segundo mandato de Lula. Seria o equivalente a entrar no "governo de coalizão" abrindo mão de deixar claro para o presidente que a maior bancada da Câmara tem poder para incomodar o Palácio do Planalto se não for bem tratada.

O PMDB terá 90 deputados na próxima legislatura, que se inicia em 1º de fevereiro. Ao fazer um acordo com o PT, a segunda maior bancada (83 integrantes), os peemedebistas atrapalham a articulação de Aldo com oposicionistas. E garantem ainda o apoio dos petistas para que assumam o controle da Câmara daqui a dois anos, quando um novo presidente da Casa será eleito.

A legislatura que se encerra foi um desastre. As bancadas se desarticularam. Houve um processo de fragmentação política que teve início com o mensalão em 2003 e resultou em Severino Cavalcanti em 2005. Aldo foi uma solução temporária, um tampão para um momento de crise. Integrante do minúsculo PC do B, sua qualidade foi manter uma relação amistosa com a oposição enquanto afastava de Lula riscos criados pelo escândalo do mensalão.

Agora, o acordo PT-PMDB devolve às grandes bancadas o peso que a tradição sempre respeitou no Legislativo. E isso deverá ter reflexos positivos na Câmara, como reorganizar o peso do partidos e reparar um pouco a desagregação política do primeiro governo de Lula.

Outros partidos da base de apoio a Lula prometem seguir o caminho peemedebista nos próximos dias. PTB, PP e PR deverão apoiar a postulação de Chinaglia, que deixou de ser "Xinália", pronúncia abrasileirada, e passou a exigir "Quinalha", como se fala em italiano.

Ao reunir o suporte dos principais partidos da base aliada, "Quinalha" inverterá o jogo contra Aldo. Até ontem, era o petista quem era convidado a desistir. Agora, Aldo será convidado a ir para o sacrifício.

Quanto a Lula, provavelmente pagará mais caro politicamente pela composição da base de apoio ao segundo mandato. "Quinalha" será um legítimo representante da gema do PT paulista em posto de relevância institucional. Atualmente, o PT tem ministros "lulistas". "Quinalha", obviamente, fará o jogo do interesse do presidente. Mas apresentará sempre as condições da poderosa aliança parlamentar PT-PMDB.

Resumo da ópera: os peemedebistas impuseram a Lula a sua primeira derrota na montagem da base de apoio do governo no segundo mandato. A demonstração de força no Congresso, se bem-sucedida, pois eleição nunca se ganha de véspera, terá reflexos na reforma ministerial que Lula pretende realizar após as eleições na Câmara e no Senado. E essa reforma tende a sair mais caro agora do que se tivesse sido feita antes. E o PMDB sabe cobrar como nenhum outro partido o valor de seu apoio no Congresso.




Política e nuvens

Ironicamente, Aldo foi um dos políticos que mais trabalharam para que Lula adiasse a reforma ministerial. Se o presidente tivesse composto o primeiro escalão antes, poderia ter exigido apoio a Aldo como condição para indicar ministros. Agora, terá de ouvir dos vencedores no Congresso quem deverá escalar na nova equipe.

Para tentar recuperar o terreno perdido, o presidente da Câmara terá de atuar contra as lideranças oficiais das bancadas governistas. Deverá pescar votos de dissidentes num perigoso processo de canibalização dos partidos. E dependerá muito da oposição para viabilizar sua recondução.




E a "terceira via"?

O acordo PT-PMDB a favor de "Quinalha" praticamente sepulta a chance de uma "terceira via" surgir na disputa pela presidência da Câmara. Sem os peemedebistas, um candidato alternativo a Aldo e "Quinalha" perderia competitividade.

O chamado "Grupo dos 30", frente majoritariamente oposicionista que prega uma agenda de reforma do Congresso, terá duas opções.

Embarcar na canoa de Aldo, que tem laços com a oposição. Ou retomar a idéia de uma "anticandidatura" para marcar posição, mas defender bandeiras como fim do voto secreto (algo discutível e que não deveria ser eliminado completamente), reforma da imunidade parlamentar (idéia correta e necessária para evitar abusos) e rejeição ao aumento salarial de 91% do salário dos deputados e senadores (um desrespeito à opinião pública).
Kennedy Alencar, 42, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal "RedeTVNews", de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas "É Notícia", aos domingos à meia-noite.

E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca