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Papo de Esporte

01/04/2003

O caratê e a ditadura

ALEC DUARTE
Colunista da Folha Online

A participação de praticantes de caratê em sessões de tortura de presos políticos durante o regime do general Augusto Pinochet, no Chile (1973-1990), é apenas mais um detalhe estarrecedor de uma página deplorável da história da humanidade.

No caso dos caratecas, aflige imaginar o que teria levado pessoas treinadas para engrandecer seu caráter _como prega a filosofia dessa arte marcial milenar_ a utilizar seus golpes como instrumento de tortura física.

O estupor cresce ao se conhecer em detalhes os relatos de cidadãos chilenos torturados sob a acusação de desenvolver atividades políticas "ilegais". Ilegal, no Chile daqueles tempos, era discordar de Pinochet, hoje um velhinho de 87 anos vivaz e sem poder, que alegou senilidade para escapar de um processo por assassinato em massa.

Segundo dados oficiais, houve 3 mil execuções durante a ditadura chilena. Além disso, quase 1,2 mil pessoas são consideradas desaparecidas.

Muitos deles foram trucidados com golpes de caratê. Sobreviventes contam como eram as sessões nas quais enfrentavam carrascos de porte atlético, altamente preparados e que exibiam vistosa destreza. Sem poder reagir, as vítimas freqüentemente tombavam inconscientes. Várias não resistiram às pancadas e morreram.

Há, também, a constatação de que pelo menos uma academia de caratê em Santiago funcionava, em horários alternativos, como sucursal da Villa Grimaldi, a central da tortura no Chile de Pinochet. Lá, como em outros subterrâneos do país, o esporte se manchava de sangue.

Indefensável, a atitude dos caratecas _identificados, mas nunca responsabilizados criminalmente por suas barbaridades _ colocou em xeque a própria eficácia dos métodos de ensino da filosofia oriental.

Justo o caratê, que prioriza a defesa em detrimento do ataque. Não por acaso, a palavra caratê significa "mãos vazias".

Inclusive no Chile?


Lá e cá

- Acusado de participação no desvio de US$ 68 milhões (R$ 228,34 milhões) da Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia), o deputado federal Jader Barbalho (PMDB-PA) recebeu uma grande homenagem: seu nome batiza o estádio municipal da cidade de Santarém, distante quase 700 quilômetros de Belém. O Barbalhão tem capacidade para 23 mil pessoas, mas até hoje só lotou durante o Cristoval, tradicional festival católico realizado simultaneamente ao Carnaval. No resto do ano, o Barbalhão acolhe os jogos do São Raimundo, que disputa a primeira divisão paraense.

- Folheto editado pela Central de Informações Turísticas de São Paulo, órgão da Prefeitura paulistana, literalmente risca o Canindé do mapa da cidade. Na seção "estádios", em duas línguas (português e inglês), a publicação ignora a existência da praça esportiva da Portuguesa e sugere que o visitante conheça, pela ordem, Morumbi, Parque Antarctica, Parque São Jorge e Pacaembu. Parque São Jorge? Isso mesmo: para a prefeitura, o acanhado estádio do Corinthians tem mais atrativos que o campo da Lusa. Puro marketing.

- A CBF decidiu se manifestar depois que esta coluna detectou problemas no artigo 10 do regulamento do Campeonato Brasileiro de 2003. Pelo que estava escrito, um jogador poderia mudar de clube várias vezes durante o torneio. Além disso, a determinação batia de frente com o artigo 20 do Regulamento Geral de Competições, que proíbe a mudança de equipe num mesmo campeonato. Agora sim, a regra foi esclarecida: é permitida uma única transferência, desde que o atleta não tenha participado de mais de dois jogos por seu time de origem. E o artigo 20 foi mandado às favas e considerado temporariamente sem valor.

- Um ex-jogador do São Paulo que visitou a equipe na véspera da decisão do Campeonato Paulista fez seu diagnóstico. Para ele, o grupo são-paulino está dividido: os mais veteranos, com Rogério Ceni como protagonista, questionam a eficiência dos mais novos. Estes, por sua parte, acham que muito figurão do time já deu o que tinha que dar. E a culpa, é do Oswaldo?

- Roberto Bolaños, 74 anos, humorista mexicano tão famoso quanto Cantinflas, está pondo em livro sua paixão pelo Necaxa, time da Cidade do México. No texto, ele fala com orgulho do dia em que seu clube venceu o poderoso Real Madrid, na decisão do terceiro lugar do Mundial da Fifa. Foi em 14 de janeiro de 2000, uma sexta-feira, no Maracanã. No mesmo dia, outro fato ocupava as manchetes dos jornais mexicanos: a prisão da cantora Gloria Trevi, num apartamento de Copacabana, acusada corrupção de menores. Bolaños, para quem não ligou os pontos, é o intérprete de Chaves, o anti-herói latino-americano que bateu o recorde de exibição contínua na televisão brasileira (19 anos).

- Uma explosão na sexta-feira deu seqüência a um projeto ousado: o novo estádio de Braga (Portugal), erigido especialmente para receber duas partidas da próxima Eurocopa, marcada para 2004 em Portugal. Projetada pelo mais renomado arquiteto português, Eduardo Souto de Moura, a obra se ajusta ao perfil de uma pedreira abandonada da cidade _por isso a detonação de explosivos. Haverá apenas duas tribunas centrais (com capacidade para 30 mil torcedores), unidas por um teto fixo. Atrás dos gols, um paredão de pedra. Difícil de descrever. Olhe aqui
e tire suas conclusões. A minha: será o estádio mais impactante do planeta.


SIC
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Carlos Alberto Parreira, técnico da seleção brasileira, prevendo disputas com os clubes europeus e brasileiros na liberação de jogadores para a Copa das Confederações, em junho
Alec Duarte foi editor executivo da Gazeta Esportiva e editor de esportes do Diário do Grande ABC.

E-mail: papodeesporte@folha.com.br

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