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Quero Ser Mãe

10/06/2004

A clonagem terapêutica e os embriões congelados

CLÁUDIA COLLUCCI
colunista da Folha Online

Um assunto que tem tudo a ver com infertilidade tem exaltado os ânimos no Senado: a possível permissão da clonagem terapêutica, que seria realizada através de células tronco obtidas a partir de embriões congelados por mais de três anos em clínicas de fertilização. Se por um lado o feito representa uma promessa da ciência para curar doenças degenerativas e até para restaurar órgãos e tecidos avariados, por outro suscita profundos questionamentos éticos e religiosos dos que vêem nos embriões uma forma primitiva de vida. Há, por exemplo, um projeto de lei tramitando na Câmara --onde é especialmente forte a influência do lobby evangélico-católico--, que veta a clonagem terapêutica e até o congelamento de embriões.

Por julgar que a maioria dos leitores desta coluna já passou ou cogita passar por tratamentos de reprodução assistida, acho que seria bem interessante acompanhar de perto esse debate. Até para que, em uma eventual necessidade de ter seus embriões congelados, estejam preparados para tomar uma decisão sensata em relação ao destino deles.

Hoje, prevalecem três práticas rotineiras nas clínicas de reprodução: o casal autoriza o congelamento dos embriões por um determinado prazo e paga uma taxa por essa manutenção, ou permite a doação dos embriões ou autoriza o descarte, embora haja uma resolução do Conselho Federal de Medicina que proíbe essa prática.

Pelos relatos que tenho recebido na coluna, qualquer que seja a decisão, sempre há alguma espécie de sofrimento. Se os embriões são mantidos congelados sem perspectiva breve de implantá-los, o casal fica com a sensação de que um possível filho o aguarda nos botijões de nitrogênio, a 196ºC, da clínica de reprodução. Se autoriza a doação, fica pensando que pode ter um filho perdido em algum lugar desse mundo e, se autoriza o descarte, fica com a sensação de que "matou" um suposto filho. Ou seja, há culpa por todos os lados.

É claro que, no caso do projeto de lei que está no Senado, os embriões utilizados seriam aqueles que foram "abandonados" pelos seus pais nas clínicas. São casos, por exemplo, em que o casal conseguiu os filhos desejados e desapareceu do mapa. Ou casos em que houve separação e o casal não tem mais interesse na "prole" congelada.

Os que defendem a clonagem terapêutica a partir dos embriões congelados os vêem apenas como um emaranhado de uma centena de células dentro de um tubo de ensaio. E, por esse ponto de vista, dizem, realmente não faz sentido protegê-los em detrimento às milhões de vidas que seriam salvas a partir das pesquisas com as células-tronco.

Mas será que é essa a visão de embrião que tem aquele casal que passou anos a fio tentando uma gravidez, acompanhando o crescimento de cada óvulo, esperando ansiosamente o processo de fertilização "in vitro", vendo seus embriões serem implantados no útero e, depois, acompanhando o desenvolvimento deles? Também acho pouco provável que o casal que teve um filho gerado a partir de um embrião congelado acredite que se trata apenas de "um emaranhado de células".

Como jornalista e historiadora da ciência, creio que todos têm direito a suas crenças, mas penso também que as crenças não podem condenar o país ao atraso em áreas importantes como a clonagem terapêutica. Como colunista desse espaço há mais de quatro anos e atenta ouvinte aos desabafos de tantos casais que estão tentando uma gravidez, creio que há mais coisas além do pragmatismo científico. E isso precisa ser respeitado.

De momento, fica aqui minha dica para que vocês reflitam e opinem sobre o assunto. O que fariam se tivessem embriões excedentes em um processo de fertitilização? Autorizariam que fossem objetos de pesquisas científicas? E se um ente querido seu dependesse dessas pesquisas para ser curado de uma grave doença? A fogueira está acesa. Abraços e boa semana a todos.

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Endometriose

Atenção pessoal do Rio: no dia 20 de junho, às 10h, na praia do Arpoador haverá uma caminhada como parte de uma campanha de prevenção à endometriose, uma doença que se caracteriza pela presença do endométrio (tecido que recobre o interior do útero) em outros órgãos, tais como ovários, trompas, bexiga, entre outros e que afeta 15% das mulheres entre 15 e 45 anos. O percentual sobe para mais de 40% quando a mulher apresenta história de infertilidade ou dor pélvica. Os
principais fatores de risco são: menstruação excessiva, tendência familiar, uso de estrogênios isolados, além de toxinas ambientais, como a dioxina (produzida pelo lixo industrial) e o estresse.

Com a doença, a vida conjugal pode ser prejudicada pela infertilidade e pelas queixas de dor no ato sexual. As constantes queixas de cólica menstrual, dor na base da barriga e nas costas também costumam acarretar problemas sociais e no trabalho. Para se ter certeza de que a mulher está com endometriose é preciso um procedimento cirúrgico, normalmente pela laparoscopia.

Durante a caminhada serão distribuídas camisetas, material explicativo e calendário de palestras gratuitas para os participantes. A Campanha de Prevenção da Endometriose foi idealizada pelos doutores Marco Aurélio de Oliveira e Cláudio Crispi e tem o apoio da Associação Brasileira de Endometriose (Abend).

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Em razão feriado, o espaço do leitor será publicado em edição na extra na próxima semana.
Cláudia Collucci, repórter da Folha de S. Paulo, é mestre em História da Ciência pela PUC-SP e autora dos livros "Por que a gravidez não vem?", da editora Atheneu, e "Quero ser Mãe", da editora Palavra Mágica. Escreve quinzenalmente na Folha Online.

E-mail: claudiacollucci@uol.com.br

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