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Quero Ser Mãe

02/11/2004

O homem diante da infertilidade

LUCIANA LEIS
Especial para a Folha Online

Nas últimas décadas, tem-se percebido que a incidência dos casos de infertilidade masculina tem aumentado bastante. Especialistas no assunto indicam que essa circunstância decorre, principalmente, de fatores como estresse, consumo de tabaco, toxinas no meio ambiente e elevação das taxas de DSTs.

A vivência emocional da infertilidade por um homem é extremamente angustiante, uma vez que ainda vivemos em uma cultura machista, onde sinal de "ser macho" é ser um "bom reprodutor". Assim, a incapacidade de engravidar uma mulher pode vir associada à falta de masculinidade ou virilidade, sendo inclusive alvo de gozações de colegas, que chegam a comentar que estes "não estão fazendo o serviço direito".

A associação popular entre capacidade de procriação e potência é um dos principais motivos de resistência à vasectomia em nossa cultura; essa associação também é responsável muitas vezes pela relutância dos homens em fazer o exame de espermograma, pedido pelo médico.

Além disso, percebe-se que o diagnóstico de infertilidade masculina acaba por interferir de forma significativa na vida sexual dos homens, podendo-se observar falta de libido, distúrbios ejaculatórios e impotência sexual. É como se o sexo perdesse o seu objetivo (procriação), esvaindo-se junto com ele o desejo sexual para obtenção de prazer.

Percebo muitas vezes em meus atendimentos, que esses homens se identificam com a qualidade de seus espermatozóides, referindo-se a eles como fracos ou pouco espertos, quando, na verdade, eles é que se sentem como tal.

Associado a esses fatores, existe também o olhar feminino diante do homem infértil, onde, muitas vezes a esposa, por assimilar a visão popular da infertilidade masculina, não questiona esses valores e acaba passando na relação com o companheiro (na maioria dos casos não por palavras, mas por olhares ou atitudes) o seu preconceito e idéias estigmatizadas, o que acaba por fazer com que o marido se sinta ainda mais impotente.

Desta maneira, um diálogo aberto entre o casal, tentando trazer para a comunicação verbal o que ainda não conseguiu ser dito, ajuda bastante. É necessário expor e saber o que cada um está sentindo e o que está sendo passado nas entrelinhas do relacionamento.

A sociedade passa valores aos indivíduos que são apropriados, muitas vezes, sem nenhum questionamento e se tornam verdades. Assim, é preciso uma reflexão sobre alguns temas, como por exemplo, a questão da masculinidade. Um homem pode se descobrir viril e potente de diversas maneiras na relação com sua companheira, e isso independe da qualidade de seu sêmen.

Luciana Leis é psicóloga do setor de Reprodução Humana do Hospital São Lucas e da Corplus. Contatos pelo e-mail luciana_leis@hotmail.com

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    Cláudia Collucci, repórter da Folha de S. Paulo, é mestre em História da Ciência pela PUC-SP e autora dos livros "Por que a gravidez não vem?", da editora Atheneu, e "Quero ser Mãe", da editora Palavra Mágica. Escreve quinzenalmente na Folha Online.

    E-mail: claudiacollucci@uol.com.br

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