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23/06/2000 - 02h46

Psicologia preventiva evitaria tragédia, dizem PMs

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GILMAR PENTEADO, da Folha de S.Paulo

Dois oficiais do alto escalão da Polícia Militar de São Paulo, com mais de 27 anos de corporação, explicam a morte de uma refém durante uma operação policial malsucedida no Rio, na semana passada, de forma pouco comum.

Em vez de falar de táticas de treinamento, eles defendem que a tragédia poderia ser evitada por uma disciplina pouco conhecida na corporação: psicologia preventiva.

"Não adianta tratar o policial depois", afirmou o tenente-coronel e psicólogo Ib Martins Ribeiro, 46, chefe do CSAEP (Centro de Seleção, Alistamento e Estudos de Pessoal) da PM.

Segundo os oficiais, o acompanhamento psicológico dos policiais é a melhor maneira de proteger vidas e também evitar destruição de carreiras.

"Fica como uma marca de gado", disse o tenente-coronel Paulo Roberto Xavier, 47, chefe do CASJ (Centro de Assistência Social e Jurídica) da PM de São Paulo, referindo-se à influência de um caso polêmico na carreira de um policial.

Os dois oficiais citam, como exemplo, o caso do atirador Marcos Antonio Furlan, do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais).

Em 1990, Furlan atirou em um assaltante, mas acabou também matando a
refém, a professora Adriana Caringi, 23. Dez anos depois, o policial permanece fazendo serviço administrativo.

Os oficiais também falam do preconceito da tropa em relação à psicologia, do machismo e do estigma de herói, que atrapalham a formação dos policiais.

Folha - Que lição podemos tirar da morte da refém no Rio, na semana passada, e de outra, na Pompéia, em São Paulo, há 10 anos?
Paulo Roberto Xavier - Eu tenho uma opinião, independente dos dois casos. Todo trabalho que puder ser feito visando à prevenção, você deve fazer. O melhor é o acompanhamento psicológico preventivo, para que o policial esteja mais preparado para enfrentar a tensão e ter estrutura para superar o erro.

Ib Martins Ribeiro - Não adianta só tratar o policial depois. Sem preparo psicológico, muitos vão se culpando, até chegar num ponto perigoso de pensar em acabar com a própria vida.

Folha - Mas é possível a recuperação completa de um policial depois de um trauma tão forte?
Xavier -Quero acreditar que sempre existe uma chance de recuperação. Mas há casos de policiais que não conseguem se desvencilhar dos traumas.

Folha - Como assim?
Ribeiro - Ele vai deixando para depois. Aquilo se acumula e se torna um monstro para ele.

Folha - Isso é frequente?
Ribeiro -Sim. É a nossa cultura. Imagine procurar um psicólogo. Isso é conhecido como coisa de louco. O policial incorpora a cultura de que ele tem de ser forte, o herói. A cultura machista, do macho entre aspas, não permite que ele admita que ele tenha problemas emocionais.

Folha - E a reação do policial do Rio, que apresenta uma quadro de depressão?
Ribeiro - Parece que ele está se isolando, mas já devia estar sendo acompanhado. O atendimento tem de ser feito nas primeiras 24 horas. Depois disso, o policial acha que está tudo bem, só que o problema permanece.

Folha - Esses episódios são capazes de acabar com uma carreira?
Xavier - Fica um estigma. Você nunca tira essa marca.

Folha - E quando ele vai conseguir superar isso?
Ribeiro - Depende muito dele. O problema é que as pessoas acabam não falando das questões emocionais num grupo machista.

Folha - A corporação é machista?
Ribeiro - Não é a corporação. É a própria atividade policial que é machista. É um problema das polícias de todo o mundo. Uma postura de energia, de atividade tipicamente masculina.

Folha - Até que ponto um policial que não consegue superar um trauma não é uma ameaça à sociedade?
Ribeiro - Pode ser que isso não influencie em sua atividade. O tratamento é para que ele fique bom. Mas, se não estiver bem, ele entrará num tiroteio e pensar: atiro ou não atiro. O que acontece: ou ele deixa alguém morrer ou morrerá.

Xavier - Por isso são importantes os programas de humanização e de acompanhamento psicológico. É preciso fazer um trabalho de natureza preventiva, que é algo muito mais completo.

Folha - O cabo Furlan, que matou uma refém durante uma operação policial em 1990, também não ficou marcado?
Xavier - O fato de você estar me perguntando sobre o caso 10 anos depois prova isso. Ele teve apoio psicológico, mas permanece no serviço administrativo da Polícia Militar até hoje. Apesar de ser um dos melhores atiradores do Gate, ele não quis voltar para as ações na rua e a corporação achou, então, melhor poupá-lo.

Folha - O fato de ele não querer voltar pode ser um sinal de que ele não conseguiu superar o trauma?
Ribeiro - É o que parece que aconteceu. Ele não quis voltar porque não superou o trauma, adequadamente, até hoje.

Folha - O policial carioca pode ter um trauma como esse?
Ribeiro - Essa pode ser uma das consequências se não houver o tratamento adequado.

Xavier - A nossa visão é de prevenção. É uma equipe de psicólogos que vai até as companhias, faz um série de testes e entrevistas. Os casos mais complicados são encaminhados para o centro. Em 99, atendemos 3.608 policiais.

Folha - Como foi a reação nessas visitas?
Xavier - Existe muito preconceito. Aquela jargão de que psicólogo é coisa de louco.

Folha - O próprio policial pensa assim?
Xavier - Infelizmente, é um estigma. Confundem psicologia e psiquiatria. Aos poucos, estamos quebrando isso. Se um policial está bem psicologicamente, ele age melhor e aprende a lidar melhor com as críticas.

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